BBC News Brasil – Quais as consequências desse apagamento do conflito?
Dunker – Tem teorias que valorizam o conflito, mas há também aquelas que vão dizer “olha, o conflito não é tão importante”. Acho que essas outras maneiras de pensar são adequadas ao momento atual. Vamos lembrar de 1989, ano em que o muro de Berlim cai. É o fim das utopias, da Guerra Fria, de um mundo em que a gente tinha uma geografia muito clara de direita e esquerda, Ocidente e oriente. Esse é o mundo do conflito.
Essa premissa vai sendo reduzida e aparece uma nova forma, que diz assim: no fundo, o conflito só existe pra quem não sabe gerenciar as coisas e não sabe se organizar. Porque em uma vida em estrutura de listas, em que o objetivo é relativamente simples, o conflito que você tem é local, como realizar tarefas e entregar resultados. Se a gente se orienta pra isso, não tem motivo pra se perguntar o porquê dessa tarefa ou daquela outra; o foco é no resultado, no fim. Com isso, a gente perde o foco no processo. Se você entregar o resultado, está bom.
BBC News Brasil – Como isso aparece no dia a dia?
Dunker – Se for pra virar a noite pra entregar a pauta, você vira a noite; se for pra trabalhar no fim de semana, você trabalha; se for pra prejudicar alguém, você faz isso também. Ou seja, a gente foi criando um esquema de relações profundamente ofensivo pra nosso cuidado de si e para nossa subjetividade. A desativação do conflito deu muito resultado porque fez as empresas descobrirem que ao aumentar o sofrimento das pessoas, você aumenta o resultado e a performance.
Mas isso também foi acelerado pela linguagem digital e a formação das comunidades virtuais. Se estou tendo um conflito com você, eu dou um delete, um unfollow, cancelo.
São dois procedimentos básicos que têm muito a ver com a emergência da depressão: diante da contrariedade, module a realidade: então, mude de país, de casa, de relacionamento e de ambiente. O segundo é altere a paisagem mental: tome uma coisa, cheire outra, tome outra pra dormir, acordar, transar… Se você tiver uma boa realidade construída, tudo vai ficar bem. Não, tudo vai ficar deprimido!
BBC News Brasil – Por que a narrativa contemporânea da depressão é marcada pela individualização do sofrimento, como “aquele que fracassa sozinho”, “fica à margem” e “não performa suficientemente”?
Dunker – A depressão tem um mecanismo importante que é a autoavaliação. Freud falava que o supereu observa, julga e pune. O supereu é uma interiorização de uma certa versão da lei, frequentemente patológica e obscena. É uma versão da lei que é a sua lei.
Deleuze, Foucault e vários críticos apontaram o momento em que você não precisa mais de um feitor te ameaçando e falando alto com você. Pelo contrário, o gestor é soft, ameno, tem valores humanísticos. Mas ele sabe ativar em você essa autoavaliação que já está em todos nós, mas vamos dizer, tem a preferência do deprimido.
“Estou falando com ela agora, será que está sendo interessante?”. Quando me autoavalio, não estou mais com você, estou nesse circuito superegoico. Isso produz cansaço porque é como você levar uma vida dupla: estou com as pessoas e estou na paralela com essa contabilidade íntima. A gente sabe que o cansaço abre-se para uma correlação com a depressão.
Nesse contexto, a ansiedade é como fazer valer essa lei de que “eu controlo”. Eu controlo fora. Se não controlo, é porque não tenho os meios, o dinheiro, o poder nem a fama pra fazer isso. E eu controlo dentro, tomando uma pílula, meditando.
Essa ideia da controlabilidade vai transformar minha relação com o desejo, ainda a ser nomeado, numa relação com metas e coisas que posso contabilizar. Isso é terrível porque voltando ao processo depressivo, vou começar a me relacionar com meu desejo transformando-o em demandas, tarefas. Você começa a se perguntar cronicamente “mas o que será que eu quero?” e começa a se responder numa via tipicamente depressiva que é “eu não quero isso, eu não quero aquilo lá também”.
Isso funciona como uma inibição do desejo e já não consigo sair da cama. Estou me produzindo uma inibição no desejo porque o desejo me provoca ansiedade, já que ela está ligada a métricas que não alcanço. Disso decorre um rebaixamento do eu, um sentimento de inferioridade e a progressão dessa culpabilização que tão frequentemente caracteriza o depressivo.
Tem ainda a experiência com o prazer. Um depressivo cruza uma certa fronteira quando começa a perceber que tem um problema na capacidade de sentir prazer. Ele toma mesmo vinho, dança com mesma mulher, vai ao mesmo jogo, lê o mesmo livro e não tem aquela satisfação que teve algum dia. Muitas vezes isso é dado pela dificuldade do depressivo de sustentar cadeias mais extensas de satisfação, que envolvem você ir encontrando satisfação durante o processo e não só no fim. Uma coisa característica são os prazeres rápidos, curtos e que estão à mão.
E aí você vai ter a coligação mórbida e tão frequente do depressivo com o álcool e com certas dependências, como a de pornografia.