Pandemia e o esgotamento das mulheres

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Pandemia e o esgotamento das mulheres

Por Giuliana Capello

Faz alguns meses que ouço de muitas mulheres a mesma reclamação (e eu me incluo no time): “estou exausta”.

Hoje, quando sentei para escrever este post, minha mente pensava na enorme lista de tarefas que “preciso” cumprir até literalmente cair na cama, num esgotamento que parece sem fim. Como escrever assim tão cansada, tão sem tempo pra nada, tão… tão esgotada?

Sempre foi difícil conciliar trabalho remunerado com a invisível e desprezada economia do cuidado (representada pelo trabalho com a casa, os filhos, os idosos da família).

E a pandemia chegou destampando o baú que antes sufocava esse tema em nome da “normalidade” tão conveniente a muitos.

Sim, essa droga de pandemia pintou com cores mais fortes traços que já estavam presentes em nossa sociedade. Já parou para pensar nisso?

Alguns dos temas mais comentados nesse último ano não são novidade para ninguém, não foram criados pela pandemia. Ela apenas jogou um holofote enorme em cada um deles: racismo, desigualdade social, desigualdades na educação, corrupção, negacionismos, fake news, precarização do trabalho e, claro, o machismo nosso de cada dia.

Abismo de gênero

Li em algum lugar sobre uma pesquisa que apontou esse abismo de gênero durante a pandemia. E também sobre a psicóloga ou psicanalista, não lembro bem, que contou sobre dois pacientes: um homem de 40 e poucos anos, que dizia estar levando numa boa as mudanças na rotina provocadas pela covid-19, e uma mulher na mesma faixa etária, absolutamente exausta e à beira de uma depressão.

Algumas semanas depois do início das sessões, a terapeuta descobriu algo intrigante: os dois pacientes eram casados.

Que coisa! Por que essa disparidade toda?

É claro que existem singularidades e cada pessoa sente o mundo ao redor do seu jeito. Mas não é só isso, a gente sabe. E, o pior, sempre foi assim. É que a “normalidade” de antes dava conta de disfarçar e dar retoques finos a essa crueldade.

É por isso que sempre que fico refletindo sobre estratégias para mudar o mundo, regenerar a humanidade e o planeta incluo pautas feministas ou ecofeministas. Sem isso seria mais do mesmo, seria maquiagem mal feita, piada de mau gosto.

Mulheres de diferentes extratos sociais, com experiências culturais das mais diversas estão à beira de um colapso.

No Japão, depois de 11 anos sem curva ascendente, o índice de suicídio aumentou em 2020. Mas repare: entre as mulheres, a taxa subiu 15% ano passado, enquanto que entre os homens houve uma leve redução no mesmo período.

Esgotadas e ainda mais atarefadas

Sobre as brasileiras mais vulneráveis eu nem dou conta de falar muito.

Elas enfrentam o fantasma da fome todos os dias, veem os filhos sem acesso à escola, sofrem com o desemprego, o desamparo e, não raras vezes, com a violência doméstica (que também aumentou na pandemia, apesar das dificuldades extras que enfrentam as mulheres dispostas a denunciar as agressões).

Na classe média, terceirizar serviços para outras mulheres (mais vulneráveis, sempre) era rotina de muitas famílias. As crianças ficavam parte do dia nas escolas e depois com a avó ou uma babá.

A faxineira limpava a casa e, entre os mais abastados, a cozinheira servia a mesa. E assim desandava a humanidade…

E agora? Como estamos?

As mulheres têm, hoje, ainda mais tarefas para executar, mais demanda mental e desafios de logística e planejamento que são pura adrenalina ruim.

Eu, que neste caso me considero uma privilegiada por ter um teto, comida na mesa, água potável, trabalho (muito mais incerto neste momento, é verdade), um quintal para brincar com minha filha, áreas verdes por perto para me conectar com a natureza, enfim, condições de sobrevivência mais do que garantidas, estou absolutamente exausta.

Minha agenda, que ainda é de papel porque é assim que gosto mesmo, não tem espaço para anotar todas as tarefas, que agora incluem os horários de aula online da minha filha e as tarefas que tenho que ajudá-la a fazer, as compras do dia-a-dia que, agora, são via internet, horários das entrevistas, feira, textos para entregar, boletos para pagar, aniversários de gente querida (para quem tento enviar algo por e-commerce, quando possível), os cuidados com os cães, enfim, a lista é enorme e termina por aqui para não ficar entendiante, sem graça.

Maternidade e gestão do lar

Antes de ser mãe, confesso que não tinha ideia da dimensão desse desafio. De verdade.

As mulheres mais próximas, na época, também não tinham filhos. E as que tinham pareciam bem resolvidas dentro do esquema da terceirização da infância: escola, cursos extracurriculares para passar o tempo e toda sorte de ‘entretenimento’ para distrair os pequenos até a mãe voltar do trabalho.

Durante uma entrevista para uma vaga, anos atrás, o cara me perguntou se eu teria que faltar ao trabalho para levar minha filha ao médico, ou teria alguém para fazer isso por mim. Fiquei atônita.

Naquele instante desisti da vaga dentro de mim, mas precisei dela durante um tempo e resisti a ataques machistas que me faziam chorar vez ou outra.

A lista de machismo sutil, se é que podemos chamar assim só porque não envolve tapas e socos, é enorme. E dá até preguiça. Mas é tão real que tem feito o tema pipocar aqui e ali. É claro!

A mulherada está enlouquecendo. Tem que ser a cozinheira, a faxineira, a mãe, a professora auxiliar das aulas online, a profissional produtiva no home office, a planejadora da despensa e do vestuário da família, a grande provedora da ordem mínima necessária ao funcionamento de cada centímetro quadrado do lar.

E o que fazer para reverter isso ou, ao menos, reduzir um pouco a carga?

Minha amiga, as respostas dependem do cenário real de cada uma, do contexto social, cultural, enfim, de muita coisa. É algo que passa pela aprovação de auxílio de emergência ou, melhor ainda, de projetos na linha da renda cidadã, porque a emergência é o novo normal, né não?

Passa também por mudanças estruturais na sociedade, que sempre levam tempo para surtir efeitos.

De mãos dadas, sempre

Mas, nessa história, quem sou eu pra dizer algo sobre isso? O que sei é o que sinto na pele. Nas pálpebras cansadas, nos fios brancos dos cabelos, no coração palpitando porque preciso do computador que a filha está usando para estudar.

E olha que tenho sorte (na verdade, bons critérios de escolha). Meu marido é bastante parceiro em tudo. Lava louça, cozinha, faz faxina na casa, cuida da filhota, dos cachorros, vai buscar compra no drive thru e está sempre por perto quando preciso de ajuda.

Neste momento, compaixão e empatia não podem virar palavras vazias de sentido. É cada vez mais crucial que não percamos a capacidade de enxergar saídas, de ter disposição para lutar contra o que está errado, contra o que e quem pode e – até – quer nos adoecer.

Saúde mental é algo sério. E nós mulheres precisamos dela forte, vívida, inspiradora (para nós mesmas, em primeiro lugar).

Homens com as nossas sandálias teriam surtado por muito menos, já teriam chamado a mãe, a esposa, a filha mais velha, a empregada, qualquer versão desses seres tão preciosos, mas que ainda são tratados como inferiores, menores, menos capazes, merecedoras de salários mais baixos mesmo quando executam exatamente a mesma função.

Basta dessa canalhice. E que a pandemia nos ajude, ainda que em luto pela nação que sofre, a escancarar o que somos. Poderosas por natureza, mas dignas de descanso e (auto)cuidado também. Tenho fé.

Vamos respirar juntas e esperançar, de mãos dadas, ventre quentinho e coração cheio de amor pela vida.

Agora me dá licença que vou até a pia lavar a louça enquanto ouço um podcast desses bem revolucionários… Aliás, aceito sugestões.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

O luto pela covid como processo coletivo

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Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

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O luto pela covid como processo coletivo

Em entrevista ao portal Brasil de Fato, Mariana Tavares destaca a importância dos cuidados paliativos e propões uma reflexão sobre a lógica individualista

Por Raíssa Lopes 

Mariana Tavares é psicóloga, especialista em Psicoterapia Contemporânea e em Recursos Humanos em Saúde. Integra o Conselho de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG) e recentemente se especializou em cuidados paliativos pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCM-MG).

Escreveu o artigo “Luto complicado e pandemia: possibilidades de intervenções paliativas”, juntamente com Raqueline Assunção, Renato Barreto, e sob orientação de Glaucia Tavares.

O estudo traça reflexões importantes sobre o que a pandemia de covid-19 pode revelar a respeito de como as sociedades ocidentais entendem a saúde e como se relacionam com a morte.

O Brasil é um dos piores países para morrer, porque não se preocupa com a morte

Saindo da noção da saúde mental como um processo inteira e unicamente individual, a especialista chama a atenção para a influência da realidade social na vida dos sujeitos. Em conversa com o Brasil de Fato, também reforça o poder indispensável das políticas públicas para superar coletivamente os traumas expostos e criados pelo coronavírus.

“Não dá pra ignorar, passar por cima. A gente vai precisar de uma política do luto”, diz.

Leia a entrevista:

Brasil de Fato – O que são cuidados paliativos? Por que são importantes e de que forma estão relacionados à pandemia de covid-19?

Mariana Tavares – Os cuidados paliativos representam um campo da saúde ainda não completamente regulamentado. Existem escassos serviços no Brasil e essa concepção é um pouco mais desenvolvida em outros países. A definição de cuidados paliativos é, inclusive, muito recente.

Cuidados paliativos constituem uma assistência feita por uma equipe com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do paciente e da família diante de uma doença ameaçadora à vida. Deseja prevenir e aliviar o sofrimento das pessoas frente a essas doenças.

Não são realizados apenas nos casos em que as pessoas estão perto de morrer, é uma concepção mais ampla. Existem cuidados paliativos com pessoas acamadas, por exemplo, mas também os relacionados à garantia de uma boa qualidade do fim da vida.

A nossa sociedade – inclusive profissionais de saúde – lida muito mal com a morte

Existe uma visão pejorativa dos cuidados paliativos como se fossem bobagem, como se fossem nada… Essa visão preconceituosa é muito prejudicial, porque está dizendo que a qualidade da morte não é relevante. Por isso é importante entender que a qualidade da morte tem a ver com a qualidade da vida.

O Brasil é um dos piores países para morrer, justamente porque tem uma baixa preocupação com a qualidade da morte. Isso tem a ver com a ideia de que a medicina vai apenas salvar vidas, e com a dificuldade de lidar com a morte. A morte é vista como um fracasso. Existe todo um medo, um tabu nas sociedades ocidentais.

E aí vem o pessoal dos cuidados paliativos tentando garantir uma morte, ou um cuidado, não somente centrados na tecnologia, na medicina. O modo de morrer de antigamente, com o doente em casa, cercado pelos familiares, foi migrando para uma morte solitária, dentro de um box de CTI, com a pessoa sozinha e em agonia.

O suporte social comunitário ajuda na prevenção do luto complicado

Então o mundo dos cuidados paliativos vai procurar fornecer assistência psicológica para a família, incentivar as conversas com o “eu te amo”, “eu te perdoo”… É uma visão muito maior do que é enfrentar essa terminalidade. A nossa sociedade lida muito mal com a morte, e os profissionais de saúde lidam muito mal com a morte. A gente é mal formado para pensar sobre.

A covid vem e nos dá um tapa na cara. Evidencia e desnuda tudo. A morte por covid traz todos esses componentes: solidão; despreparo das equipes na lida e no diálogo com a família; ausência desse raciocínio [de que a morte não é um fracasso] nas unidades de saúde e hospitais; sofrimento enorme para os profissionais e familiares.

E agora são justamente os profissionais os intermediários entre família e paciente durante a morte.

Exatamente. A carga sobre eles está enorme, porque são profissionais criados para salvar vidas, nessa suposição de que a morte seria uma derrota, e o tempo todo estão sendo confrontados com essa frustração. Está difícil para o sistema como um todo.

E o luto dentro dessa situação? Porque existe o luto por perder pessoas amadas, mas especialistas também apontam para o luto por perder um emprego, por mudar o modo de agir…

O luto é a perda de um vínculo, não necessariamente a perda de uma pessoa e nem necessariamente por morte. Imagine então a quantidade de luto que está por aí… Pessoas que iam se casar, que perderam emprego, renda, o medo de quem tem que trabalhar de contaminar seus familiares. É uma série de sofrimentos invisíveis.

Ao mesmo tempo, o luto é uma vivência muito individual. Existem teorias mais antigas que tentam dizer que o luto possui um determinado tempo, percorre certas fases. Elas criam quase que uma normativa sobre o luto.

É preciso pensar como promover conforto e sobrevivência para enfermeiras

É o luto sendo um processo do sujeito, e aí o modo como o sujeito o enfrenta seria próprio de cada um, de acordo com cada estrutura de personalidade. O que é possível fazer sobre isso? Quase nada. É mandar para a psicóloga. E eu acho que não, no momento não é o caso de vermos o luto como um processo absolutamente subjetivo.

Existe um conceito de luto complicado, que é quando a pessoa enfrenta mal, não dá conta de retomar a vida, adoece, deprime. Esse luto é comum em mortes violentas, solitárias, injustas, precoces. E a morte pela covid tem várias dessas características – é uma má morte, tem dor, sofrimento, falta de ar, é solitária, sem despedida.

Então nós fomos investigar se existem formas de prevenir o luto complicado, já que o luto é tão singular, tão de cada um… E sim, tem jeito.

Estudamos vários artigos, de países diferentes, e o que encontramos, resumimos em dois pontos: é possível precaver ao melhorar a qualidade da morte e garantir suporte social. E é nesse contexto que os cuidados paliativos são enormemente relevantes.

Como seria isso?

Na melhoria da qualidade da morte entram, por exemplo, os dispositivos eletrônicos. A telemedicina, as videoconferências com os familiares, os grupos com psicólogos focados nas conversas com a família etc.

O trauma causado pela pandemia vai durar muitos anos, mesmo após a vacina

Sobre o suporte social… Uma das coisas que mais alivia a morte nas sociedades são os rituais. Eles existem como uma forma de nos consolar, abrandar a dor, criar um efeito simbólico entre a pessoa amada que partiu e quem fica. Foi outra coisa que a covid cortou, né? Os velórios devem ser rápidos e sem aglomeração até mesmo para aqueles que não morreram pela covid.

Além dessas características de má morte, temos uma situação que o ritual não pode auxiliar. É preciso, então, criar maneiras de suprir essa falta da ritualização tal como a gente conhece.

Tipo criar um ambiente em casa para celebrar e se despedir da pessoa que se foi?

Aí é que está. Não com as pessoas sozinhas, não com ações individuais. É exatamente onde entra um suporte social comunitário, para tirar essa morte da situação de invisibilidade.

Existem projetos da sociedade civil que se atentam a isso, como o @reliquia.rum, da Debora Diniz [antropóloga], o @inumeraveismemorial e o Santinho. Eles visam prover homenagens que apontem a singularidade de quem morreu.

A pandemia da covid nos mostra de cara que não somos tão autossuficientes

Porque é particular, mas também é público. É preciso ressaltar: o luto pela covid não é um processo apenas individual, é um processo coletivo.

Em outros países e em algumas cidades daqui, todo dia é realizado um minuto de silêncio, é tocada uma música, ou passa algo na televisão sobre as pessoas que faleceram. É para dizer que não, essas pessoas não estão despercebidas, e nem sozinhas.

E ações como essa auxiliam na prevenção do luto complicado.

E o luto dos profissionais da saúde? Eles são um caso à parte, pois além de lidarem com o paciente e família, o Brasil é um dos países com o maior número de mortes de profissionais do setor na pandemia. É medo de morrer, de perder os amigos e colegas de trabalho…

O suporte social tem a ver com políticas públicas de enfrentamento para esse sofrimento e para o sofrimento da população no geral.

A respeito das enfermeiras e enfermeiros, é preciso pensar como promover conforto e sobrevivência para esses profissionais. Nem que seja com auxílio financeiro, ou talvez uma aposentadoria mais precoce…

Algo que demonstrasse o valor e o interesse por essas pessoas, ao invés de ficar nessa de tratá-los como heróis, como aqueles que se sacrificam e que morrem pelo outro. Eles são pessoas, que estão trabalhando duramente, com dramas e que não têm garantia. Por exemplo, os filhos dessas mulheres enfermeiras ficam com quem?

O que quero dizer é que em várias áreas haveria formas de pensar políticas públicas: mulheres, crianças, profissionais; pode-se rastrear onde estão os mortos e ver quais assistências específicas o SUS [Sistema Único de Saúde] e o Suas [Sistema Único de Assistência Social] podem fornecer; deve-se refletir o que pode ser feito na educação, na segurança pública.

É necessário questionar como está sendo pensado o conjunto de políticas como suporte para o sofrimento causado pela pandemia. E o trauma vai durar muitos anos ainda, mesmo após a vacina. A gente precisa criar uma política do luto. Não dá para ignorar, para passar por cima.

Como lidar com essa sensação de perda iminente que a pandemia gera?

Não existe uma resposta. Podemos falar do que está acontecendo… Estamos em risco e podemos ver que, enquanto sociedade, já estávamos vivendo um processo negacionista.

A negação é um mecanismo psíquico descrito por Freud. É fingir que não vê. E vemos que essa está sendo uma das formas de lidar com o medo. Só que é um “fingir que não vê” em massa. O comportamento de massa é abrir mão do seu raciocínio e transferir sua capacidade de pensar para um líder. Esse líder, como estudado há muito tempo, manipula por meio dos afetos [da emoção].

Outra forma de lidar é ter comportamento fóbico e obsessivo e se trancar dentro de casa, achar que está infectado o tempo todo, se lavar o tempo todo com álcool.

O que deveria combater isso é informação justa, correta, fidedigna, confiável, que possibilitasse a cada um se posicionar. Sempre que acontece um desastre e morre muita gente de uma vez, o papel dos líderes, dos governantes, é dar a real. É ter ações baseadas na razão. É promover esquemas de compreensão para que a população seja tranquilizada e para que haja uma normativa mais unificada possível. E é exatamente o que não está acontecendo.

Essa é a primeira pandemia do século XX. Até então, éramos uma geração acostumada a ter controle de episódios do tipo, com ferramentas e tecnologias suficientes. Você acha que a covid impacta a nossa geração de uma forma diferente do que as pandemias anteriores impactaram as gerações mais antigas?

Primeiro que é uma pandemia que atingiu todos os continentes e as outras não atingiram. Com a globalização, em poucos dias a pandemia se consolidou e se multiplicou para o mundo inteiro.

E a gente está sustentado numa sociedade tecnológica, científica e narcísica – que crê que dá conta de tudo e que supõe que tem o controle. Uma sociedade que vinha, inclusive, desenvolvendo modos de prolongamento da vida por muito tempo.

Somos uma sociedade com dificuldade de lidar com o sofrimento e com a finitude

É um choque que coloca em questão a onipotência da humanidade, e nos dá essa castração, mostrando que não, não somos os “todos poderosos”. [A covid] nos mostra de cara que não somos tão autossuficientes.

Questiona o estilo de vida capitalista, diz que a gente precisa aprender a lidar com a falta de respostas e ficar mais humilde enquanto espécie. Aprender que nós somos um dos componentes da natureza, e não os donos dela.

Além dos desafios científicos da vacina, da exploração ambiental e natureza, mostra que somos uma sociedade com dificuldade de lidar com a dor, com o sofrimento e com a finitude.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Professora Divina participa da Semana da Responsabilidade Social on-line com roda de conversa e atividades para a comunidade

Cartaz-Setembro-Amarelo

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Professora Divina participa da Semana da Responsabilidade Social on-line com roda de conversa e atividades para a comunidade

Cartaz-Setembro-Amarelo

A professora Dra Divina participou nos dias 21 a 25 de setembro, a Semana de Responsabilidade Social 2020, evento promovido pelo  Centro Universitário Módulo e Faculdade São Sebastião (FASS). A ação contemplou alunos e a comunidade em geral, e ofereceu uma roda de conversa com temas voltados à promoção da saúde, bem-estar, orientação, serviços e capacitação.

A semana contou com atividades que foram desde capacitação profissional, empreendedorismo até voluntariado. Além de ações que visam o bem-estar emocional e físico, como debates sobre mindfulness e aulas de yoga e shows musicais.

Confira a roda de conversa promovida durante a noite do dia 25 de setembro:

 

O Setembro Amarelo é uma campanha de conscientização sobre a prevenção do suicídio. É durante este período que ações em diferentes esferas sociais buscam promover a saúde mental e divulgar espaços que oferecem apoio para aqueles que precisam. A escolha do mês se deu em razão do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, celebrado todo ano em 10 de setembro.

Todos os anos são registrados cerca de doze mil suicídios no Brasil e mais de um milhão no mundo, de acordo com dados apresentado pelo site da campanha Setembro Amarelo. Segundo o informativo ‘Suicídio: informando para prevenir’, o número de vidas perdidas desta forma, anualmente em todo o mundo, ultrapassa o número de mortes decorrentes de homicídio e guerra.
É por essa razão que iniciativas dessa natureza se fazem cada vez mais necessárias em todas as esferas sociais, bem como o apoio de instituições às ações promovidas.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Professora Divina participa de ação de extensão debatendo saúde mental no contexto da pandemia de COVID-19

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Professora Divina é convidada para ação de extensão debatendo a saúde mental no contexto da pandemia de COVID-19

Em 12 de setembro de 2020, sábado, a partir das 18h00, aconteceu, de modo virtual, a atividade de extensão “Setembro amarelo e saúde mental na pandemia” que foi organizada por bolsistas do projeto de extensão “Atividades audiovisuais de divulgação científica e cultural mediadas pela internet” que ocorre no âmbito do câmpus de Caraguatatuba do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e que é coordenado pelo Prof. Dr. Ricardo Roberto Plaza Teixeira.

Esta atividade contou com a participação das psicólogas Dra. Divina de Fátima dos Santos e Dra. Maria Cecilia Gracioso Costa. A equipe deste projeto de extensão agradece imensamente às duas psicólogas que participaram com desprendimento desta ação e compartilharam com os participantes os conhecimentos profissionais sobre os temas abordados.

Foto: Imagem de divulgação deste evento produzida pela estudante Lais Rodrigues Ramos

Os bolsistas extensionistas que organizaram e participaram diretamente desta atividade – juntamente com o professor Ricardo Plaza – foram os seguintes alunos de cursos superiores do IFSP-Caraguatatuba: Larissy Santos da Silva, Kaue Marques Barbosa, Lais Rodrigues Ramos, Danilo Henrique Oliveira Souza e Vinicius Carvalho Rosa. A bolsista Sofia Kaiser Sant Ana de Jesus também colaborou para o planejamento prévio desta atividade.

Foto: “Debate Consciência” no Instagram

A bolsista Larissy convidou as psicólogas Divina e Maria Cecilia para esta ação, bem como foi ela quem conduziu os debates e as intervenções que ocorreram. Além disso, os extensionistas Larissy e Kaue, com o apoio de seus colegas bolsistas, prepararam e organizaram as ferramentas tecnológicas necessárias para que a atividade acontecesse com sucesso. O evento se efetivou como uma vídeo-conferência do “Google Meet” e a transmissão em tempo real (“streaming”) foi realizada no Youtube, pelo canal “Debate Consciência”, organizado pela equipe de bolsistas deste projeto de extensão.

Foto: Lais, Ricardo, Danilo, Vinicius, Maria Cecilia, Kaue e Divina

No início foi apresentado um vídeo de curta duração (4 minutos) intitulado “4 fatos sobre a saúde mental no Brasil” do canal “Minutos Psíquicos” do YouTube e que está disponível para ser assistido no link. Este vídeo, a partir de uma pesquisa fundamentada em dados científicos, aborda a evolução nos últimos anos no Brasil, de índices: sobre transtornos de ansiedade e depressivos; sobre o número de suicídios; sobre as preocupações das pessoas a respeito da pandemia de COVID-19; sobre a procura por ajuda profissional no que diz respeito à saúde mental.

Foto: Canal “Minutos Psíquicos” do YouTube

A seguir foi iniciado o debate com a apresentação de algumas ideias a respeito dos temas abordados pela professora Divina de Fátima dos Santos que é doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP e é docente do Centro Universitário Módulo e da Faculdade São Sebastião. Em sua intervenção, a professora Divina destacou que há ainda poucos profissionais da área de psicologia no serviço público para uma demanda gigantesca. Divina enfatizou também que quando uma pessoa percebe e reconhece que não está bem, este autorreconhecimento em si já é algo positivo: é a partir da autoconsciência que a pessoa pode tomar a decisão de procurar ajuda de um profissional que tenha feito um curso de graduação e esteja habilitado para tratar com questões de saúde mental.

Foto: Professora Divina de Fátima dos Santos

A professora Maria Cecilia Gracioso Costa, que é graduada em Psicologia no Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas, deu sequência ao debate enfatizando a importância de trabalhar as emoções na educação das crianças, desde a mais tenra idade, ensinando-as a falar e refletir sobre os seus sentimentos. Assim é importante trabalhar com questões que articulem psicologia e educação, para o ensino do sentir, de modo a lidar com questões como: por que se está triste, por que se está com raiva?

Foto: Professora Maria Cecilia Gracioso Costa

As duas psicólogas puderam, durante o evento, se aprofundar nos temas abordados. O professor Ricardo Plaza procurou também trazer questões a respeito dos assuntos em foco. Antes do término do evento, foi apresentado um segundo vídeo do canal “Minutos Psíquicos” do Youtube intitulado “Como procurar ajuda psicológica?” (com 4 minutos) que está disponível para ser assistido gratuitamente no link.

Foto: Professora Ricardo Roberto Plaza Teixeira

Durante a transmissão os participantes puderam realizar perguntas e fazer comentários por meio do “chat” do Youtube; vários destes comentários foram reproduzidos por áudio durante a ação e as psicólogas tentaram responder as questões formuladas. No canal “Debate Consciência” do Youtube, o vídeo intitulado “Setembro amarelo e Saúde mental na pandemia” (com duração de 1 hora e 53 minutos), referente a esta ação, está disponível para todos os interessados assistirem no link.

Foto: “Como procurar ajuda psicológica?”, vídeo do canal “Minutos Psicológicos”

Esta foi a segunda ação realizada pelo projeto de extensão “Atividades audiovisuais de divulgação científica e cultural mediadas pela internet”. Este projeto foi aprovado no âmbito do Edital 196 de 11 de junho de 2020 da Pró-Reitoria de Extensão do Instituto Federal de São Paulo – IFSP, referente ao “Programa Institucional de Apoio a Atividades de Extensão do IFSP – Em tempos de Distanciamento Social” que dialoga com o período da pandemia de COVID-19 pelo qual estamos vivendo. Os recursos viabilizados por este edital 196 permitem o financiamento de bolsas a seis alunos extensionistas selecionados para a execução das atividades previstas para este projeto. O objetivo deste projeto de extensão é colaborar para disseminar o conhecimento, a cultura e a ciência, por meio da internet, durante a pandemia de coronavírus.

Os bolsistas extensionistas deste projeto agradecem tanto à Pró-Reitoria de Extensão do IFSP pelas bolsas fomentadas pelo edital 196, quanto às pessoas que participaram ativamente e prestigiaram este vídeo-debate, inclusive com a realização de perguntas e reflexões. Sugestões para temas das ações futuras deste projeto são bem-vindas e podem ser feitas para qualquer membro da equipe.

Fonte: Prof. Dr. Ricardo Roberto Plaza Teixeira

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Maria Rita Kehl sobre ressentimento

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Maria Rita Kehl sobre ressentimento

A psicanálise do ressentimento como sintoma social

A atualidade do tema do ressentimento é, antes de mais nada, clínica. Essa paixão triste comparece com frequência em nossos consultórios, alimentada por acusações contra alguém ou contra o mundo todo. “Eu sofro: alguém deve ser culpado por isso”: assim Nietzsche resume a lógica do ressentido e seu apego ao dano. O ressentimento é uma constelação afetiva que serve aos conflitos característicos do homem contemporâneo, entre as exigências e as configurações imaginárias próprias do individualismo, e os mecanismos de defesa do “eu” a serviço do narcisismo. A lógica do ressentimento privilegia o “indivíduo” em detrimento do sujeito, e contribui para sustentar nele uma integridade narcísica que independe do sucesso de seus empreendimentos. Adianto a hipótese de que a versão imaginária da falta, no ressentimento, é interpretada como prejuízo.

Ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. Um outro a quem delegamos, em um momento anterior, o poder de decidir por nós, de modo a poder culpá-lo do que venha a fracassar. Neste aspecto, o ressentido pode ser tomado como o paradigma do neurótico, com sua servidão inconsciente e sua impossibilidade de implicar-se como sujeito do desejo. Mas esta é uma definição genérica demais para nos permitir focar nosso objeto.

O ressentimento não é uma estrutura clínica, e tampouco se confunde rigorosamente com um sintoma, embora se possa considerá-lo como uma solução de compromisso entre dois campos psíquicos, o do narcisismo e o do Outro. Ressentimento não é um conceito da psicanálise; é uma categoria do senso comum que nomeia a impossibilidade de se esquecer ou superar um agravo. Impossibilidade ou recusa? Na língua portuguesa, o prefixo “re” indica o retorno da mágoa, a insistência em uma queixa, a conservação ativa de uma ofensa. A partícula “re” também se apresenta em outros idiomas. Ressentiment, resentfulness, resentimiento, respectivamente em francês, inglês e espanhol. Trata-se de uma repetição mantida ativamente por aquele que foi ofendido. O ressentido não é alguém incapaz de se esquecer ou de perdoar; é um que não quer se esquecer, ou que “quer não se esquecer”, não perdoar, nem superar o mal que o vitimou.

O filósofo Max Scheler, que discute as teorias de Nietzsche a partir de uma ótica cristã, considera como “auto-envenenamento psicológico” o estado emocional do ressentido, um introspectivo ocupado com ruminações acusadoras e fantasias vingativas. Trata-se de uma disposição psicológica relativamente estável que, por um recalcamento sistemático, libera certas emoções e certos sentimentos, por si só normais e inerentes aos fundamentos da natureza humana, e tende a provocar uma deformação mais ou menos permanente tanto do sentido dos valores quanto da faculdade de julgamento [1].

Para Scheler, a constelação afetiva do ressentimento compõe-se da soma de rancor, desejo de vingança, raiva, maldade, ciúmes, inveja, malícia. Uma conjunção maligna, portanto, na qual o desejo de vingança exerce um papel predominante; a palavra ressentimento indica que se trata de uma reação – mas se esta reação tivesse sido posta em ato no momento do agravo, ainda que fosse um ato de palavra, o sentimento de injúria ou agravo teria sido aplacado.

O conceito de repressão indica que um impulso foi impedido de se efetivar. O que ocorre no ressentimento é que o ofendido não se atreve, ou não se permite, responder à altura da ofensa recebida. O “envenenamento psicológico” a que se refere o autor produz-se a partir da reorientação para o “eu” dos impulsos agressivos impedidos de descarga, gerando uma disposição passiva para a queixa e a acusação, assim como a impossibilidade de esquecer o agravo passado.

Mas observemos que, no caso em questão, esse desejo não se confunde absolutamente com uma tendência à resposta ou à defesa, acompanhada de cólera, de raiva ou de indignação”[2].

A raiva, a cólera, a indignação, impedidas de se exercer na direção do objeto, transformam-se em raiva e indignação contra si mesmo; a má consciência, como veremos em Nietzsche, é a contrapartida necessária do ressentimento. A culpa que o ressentido insiste em atribuir ao outro, responsável pelo agravo, é a face manifesta do “sentimento inconsciente de culpa”[3] que o “envenenamento psíquico” – o retorno das pulsões agressivas sobre o eu – produz. O ressentido é um vingativo que não se reconhece como tal.

Há uma diferença entre o desejo de vingança e o impulso de responder a um ataque, indignar-se contra ele ou defender-se. A vingança é uma necessidade psíquica que só faz sentido nos casos em que a vítima não foi capaz de reagir. Nesse ponto, Max Scheler [4] vale-se de uma metáfora de ressonâncias nietzscheanas: a fera capturada que morde o caçador não está tentando se vingar: está tentando livrar-se do cativeiro. A vingança decorre da falta de resposta imediata ao agravo. É “um prato que se come frio”, diz o povo; a vingança deve ocorrer depois de um tempo durante o qual o contra ataque da vítima fica como que em suspenso, adiado mas nunca renunciado, alimentado pela raiva, ou pela impossibilidade do esquecimento de uma raiva passada.

Mas no ressentimento, o tempo da vingança nunca chega. Muito menos o da justiça. O ressentido é tão incapaz de vingar-se quanto foi impotente em reagir imediatamente aos agravos e às injustiças sofridos. Voltando à constelação “maligna” enumerada acima, nenhum daqueles afetos por si só é suficiente para produzir ressentimento. O rancor que deságua em agressão, a indignação que se expressa em uma catadupa de acusações, a inveja que mobiliza o invejoso para a conquista do objeto cobiçado, não precisam perpetuar-se na forma de ressentimento. Para que ele se instale, é preciso que a vítima não se sinta à altura de responder ao agressor; que sinta-se fraca, ou inferior a ele. Ou então, na via oposta, queira ostentar uma superioridade moral. É por isso que Nietzsche o considera como qualidade dos “escravos”. Para Max Scheler, o terreno onde ele se origina, só dele, faz do ressentimento a característica dos serviçais, dos comandados, dos que se debatem em vão sob o aguilhão da autoridade.

Uma das condições centrais do ressentimento é que o sujeito estabeleça uma relação de dependência infantil com um outro, supostamente poderoso, a quem caberia protegê-lo, premiar seus esforços, reconhecer seu valor. O ressentimento também expressa a recusa do sujeito em sair da dependência: ele prefere ser “protegido” ainda que prejudicado, do que livre, mas desamparado. Com isso quero antecipar aqui que, no ressentimento, o Outro é representado pelas figuras que, na infância, tinham poder efetivo para proteger, premiar e punir a criança. É a face imaginária do Outro, à qual se endereçam demandas de amor e reconhecimento, que determinam que o ressentido se represente não como faltante, mas como prejudicado.

O ressentimento como sintoma social

Percebe-se aqui a importância política do tema; embora eu priorize abordar o ressentimento predominantemente do ponto de vista dos arranjos e negociações subjetivos, que é o ponto de vista da psicanálise, é possível perguntar se o ressentimento não seria o efeito mais provável produzido em certas condições de opressão nas quais que só resta ao sujeito “debater-se em vão sob o aguilhão da autoridade”. Como colocar em ato o saudável impulso de reação imediata aos agravos, nos casos da impotência objetiva de quem se vê diante da força de coerção do opressor? Como reagir a uma injustiça, mesmo à força de argumentos e protestos, nos casos em que qualquer reação custaria a vida do injustiçado? Sob uma ditadura militar, sob estado de exceção, sob regimes de terror, toda reação tem que ser forçosamente adiada, até mesmo para que tenha chances de sucesso. Em que circunstâncias esse adiamento forçado, esse “recuo tático”, funciona para organizar forças e amadurecer um projeto de retomada legítima do poder, e em que condições o adiamento da reação pode transformar-se em ressentimento?

O estado de exceção, segundo o filósofo Giorgio Agamben[5], impõe a suspensão de todos os direitos: só o Estado, soberano, exerce poder de vida e morte sobre todos os homens. A vida humana que perde as condições de cidadania é qualificada por ele como “vida nua”, desprovida de direitos e de garantias. Nos casos em que nenhum direito humano, nem mesmo o direito à vida, é garantido por antecipação (nisso consiste a responsabilidade dos Estados democráticos sobre a vida dos prisioneiros sob sua custódia) como detectar a implicação dos agentes sociais em relação às suas escolhas de destino, individuais ou coletivas? Nos casos em que o Estado dispõe da vida dos cidadãos, em condições de desrespeito absoluto aos direitos humanos, faz sentido pensar que o ressentimento seja uma reação provável das vítimas?

A leitura dos relatos de Primo Levi sobre os campos de concentração faz ver ao leitor que mesmo nas condições de opressão absoluta alguns prisioneiros mantiveram diante do algoz uma posição subjetiva que não predispõe ao ressentimento. Há quem seja capaz de – obrigado pela força a beijar as botas de seu carrasco – não viver esse ato de forma humilhante. A vergonha, a abjeção, escreve Levi[6], deve ficar do lado do homem que, tendo liberdade de escolha, quis forçar seu semelhante a um ato abjeto. No limite, alguns prisioneiros “escolhem” a morte como meio de preservar sua humanidade. Morrer, ou deixar-se matar, é a afirmação extrema de insubmissão sob regimes totalitários – nessas condições seria uma leviandade incluir certos casos de suicídio sob a rubrica da melancolia.

Mas a prova de que a organização dos campos de concentração sob o nazismo tinha como objetivo produzir a desumanização dos prisioneiros é que os índices de suicídio nos lager foram muito baixos. Desprovidos de qualquer implicação subjetiva em relação ao mal e à abjeção, reduzidos à condição de “coisa”, vítimas absolutas do arbítrio do Outro, os homens deixam-se abater passivamente, sem lançar mão do último recurso que distingue o humano do animal: a capacidade de escolher a própria morte. “É isso um homem?” pergunta Lévi ao leitor no título de seu livro mais conhecido.

Um outro destino para a raiva que não pode se expressar é possível? É possível passar pela condição da escravidão sem ocupar subjetivamente a posição de escravo? Creio que sim; nesse ponto é importante ressaltar que o ressentimento não é a conseqüência necessária da condição do derrotado. Ele tem mais a ver com a rendição voluntária do que com a derrota. A reação adiada que produz o ressentimento é aquela a que a pessoa se impediu por conta própria. A “fera capturada que morde o caçador” está lutando contra o cativeiro. Os prisioneiros de guerra foram vencidos em batalha, pela superioridade bélica do inimigo.

Quando uma revolta é abafada pelo poder militar, os revoltosos se vêem obrigados a recolher suas forças e esperar por condições mais favoráveis para voltar à luta. Essa “vingança adiada” não é a mesma das elucubrações mentais a que se entrega o ressentido, psicologicamente impotente para dar outro destino à sua amargura. Mas mesmo nos casos em que a derrota é imposta à força e a reação é objetivamente impedida, é possível que o adiamento prolongado da ação ameace arrefecer a disposição à luta. Nesses casos a manutenção ativa da memória do agravo, que em um primeiro tempo é necessária para alimentar a disposição dos revoltosos, pode degenerar em predisposição ao ressentimento.

Não se pode qualificar irrefletidamente como atos vingativos as convulsões sociais que põem fim aos regimes totalitários, nem de “ressentimento” o abatimento de escravos e prisioneiros impedidos à força do exercício de sua liberdade. O ressentimento não se confunde com a revolta silenciada nem com a resignação forçada que se produz sob regimes totalitários ou em sociedades fortemente estratificadas. A “vida nua” não produz ressentimento; ela é a vida humana desprovida de condições de humanidade, limitada à reprodução da sobrevivência biológica – como na escravidão, nos campos de concentração ou em situações de extrema miséria. Não é humana a vida que decorre em função da mera satisfação de necessidades, desprovida das condições que possibilitam aos homens criar alguma forma do “novo”, escreve Hanna Arendt[7].

A “vida nua” produz uma espécie grave de abatimento e resignação, mas esse estado não configura o ressentimento. Este último é o afeto característico dos impasses gerados nas democracias liberais modernas, que acenam para os indivíduos com a promessa de uma igualdade social que não se cumpre, pelo menos nos termos em que foi simbolicamente antecipada. Os membros de uma classe ou de um segmento social inferiorizado só se ressentem de sua condição se a proposta de igualdade lhes foi antecipada simbolicamente, de modo a que a falta dela seja percebida não como condenação divina ou como predestinação – como nas sociedades pré-modernas – mas como “privação”[8]. São os casos em que a igualdade é “oficialmente reconhecida mas não obtida na prática[9]” que produzem o ressentimento na política. É preciso que exista um pressuposto simbólico de  igualdade entre opressor e oprimido, entre rico e pobre, poderoso e despossuído, para que os que se sentem inferiorizados se ressintam.

Mas outra condição deve estar presente aqui: é preciso também que a igualdade da lei democrática seja interpretada como dádiva paterna dos poderosos e não como conquista popular. O ressentimento na política se produz na interface entre a lei democrática – antecipação simbólica de igualdade de direitos – e as práticas de dominação paternalistas, que predispõem a sociedade a esperar passivamente que essa igualdade lhes seja legada como prova do amor e da bondade dos agentes do poder. No Brasil, em que essas duas condições se combinam de maneira freqüentemente perversa, os movimentos sociais oscilam entre as proposições ativas de transformações sociais e as manifestações reativas, ressentidas, que expressam insatisfação popular, mas não levam a nenhum resultado efetivo no sentido do aperfeiçoamento dos dispositivos da democracia.

Não sou capaz de responder à questão sobre as condições em que uma rebelião adiada produz o ressentimento; a ação política, mesmo que atravessada pelo campo de forças do inconsciente, tem sua especificidade em relação à psicanálise. Se enumero essas questões é porque elas estão associadas ao tema do ressentimento e não podem deixar de ser pelo menos formuladas, de modo a evitar um certo reducionismo psicanalítico no trato desse tema tão atravessado pelo campo da política.

*Maria Rita Kehl é psicanalista, jornalista e escritora. Autora, entre outros livros, de Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade (Boitempo).

Notas

[1] – Max Scheler, L’homme du ressentiment (1912). Paris: Gallimard, 1958. p.14: “une disposition psychologique, d’une certaine permanence, qui, par un refoulement systématique, libère certaines émotions et certains sentiments, de soi normaux et inhérents aux fondements de la nature humaine, et tend à provoquer une déformation plus ou moins permanente du sens des valeurs, comme aussi de la faculté du jugement (tradução minha).

[2] – Max Scheler, (cit), p. 15: Mais notons bien que, dans le cas qui nous occupe, ce désir ne se confond aucunement avec une tendence à la riposte ou à la défense, même accompagné de colère, de rage ou d’indignation. (tradução minha).

[3] – A expressão é empregada por Freud em O eu e o isso (1923), para explicar a relação existente entre o sentimento de culpa e a prática de atos delinqüentes que visam o castigo, “como se o indivíduo sentisse alívio em poder relacionar este sentimento inconsciente de culpa a um ato real e atual” (p. 2274). Esse tema já tinha sido abordado por ele no texto “Os delinqüentes por sentimentos de culpa”, de 1916. Mais adiante, em O eu e o isso, Freud reafirma o caráter inconsciente de grande parte dos sentimentos de culpa em função de sua relação com a parte inconsciente do supereu, herdeiro do complexo de Édipo: “o surgimento da consciência moral está intimamente ligado ao complexo de Édipo, que permanece inconsciente”. (p. 2721)

[4] – M. Scheler, p. 19: Le terrain où il prend naissance, à lui seul, fait du ressentiment le propre des serviteurs, des commandés, de ceux qui se cabrent en vain sous l’aguillon de l’autorité.

[5] – Giorgio Agambem, Homo Sacer. Belo Horizonte: UFMG, 2002. Tradução de Henrique Burigo.

[6] – Primo Levi, É isso um homem? (1947). Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

[7] – Ver Hanna Arendt, The human condition (1958). Chicago: The University if Chicago, 1958.

[8] – O conceito de privação será mais desenvolvido no capítulo 1, “O ressentimento na psicanálise”.

[9] – M. Scheler, p. 21.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Sobre os efeitos psíquicos das aulas online em alunos e professores

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Sobre os efeitos psíquicos das aulas online em alunos e professores

Do Uol
Por Christian Dunker

 

Findo o semestre no qual fomos jogados abruptamente no ensino online podemos agora começar um pequeno balanço desta experiência. Assim como o auxílio a renda revelou a existência de milhões de trabalhadores “invisíveis”, a passagem massiva dos alunos para aulas por meio de plataformas digitais, como o Zoom, Meets ou Teams, mostrou nosso etnocentrismo digital.

Se o etnocentrismo antropológico nos faz pensar que a nossa cultura é sempre a melhor medida padrão para o julgamento das outras, o etnocentrismo digital envolve o pressuposto de que todos os alunos têm condições ideais de pressão e temperatura para uso de recursos digitais. Como se todos que estão diante de uma tela dispusessem do mesmo tipo de máquina, com bandas de transmissão estáveis e velozes, com condições de ambiente, como luminosidade e isolamento acústico que temos, por exemplo, em um escritório padrão.

Foi, portanto, uma surpresa quando descobrimos que quase 10% dos alunos do curso de Psicologia da USP, tradicionalmente um dos maiores PIBs per capta desta universidade, simplesmente não tinha computador e um número ainda mais expressivo acessava a internet por meio de telefone celular.

Lembremos que uma das noções formadoras da escolarização no ocidente moderno foi justamente a disciplina que uniformizava a experiência de aprendizagem. Isso implicava mesmos horários de entrada e de saída, períodos regulares para recreio, avaliações referidas a uma tarefa comum, classes distribuídas por idade. Sair de casa e ir à escola tornou-se um gesto formativo de nossa separação subjetiva entre a vida privada, onde as regras variam segundo o capricho das famílias, e o espaço público, onde mesmas leis valem para todos. Tudo isso aprendemos indiretamente, como uma espécie de meta-aprendizagem, como conjunto de condições para que o saber se transmita segundo um certo regime de verdade e de autoridade.

Se a escola opera uma espécie de experiência de igualdade, por seu próprio dispositivo de funcionamento, as aulas online trazem à luz as idiossincrasias privadas. Podemos desligar a câmera e sair um pouco quando a aula está chata, podemos ser interrompidos por demandas familiares, acompanhados por animais de estimação, podemos nos vestir apenas para a parte superior dos corpos.

Por outro lado, o efeito câmera traz o desagradável efeito de que podemos estar sendo “olhados” por todos, o que não é o caso na situação presencial. Para adolescentes, isso pode ser terrivelmente invasivo. Estar diante de câmeras evoca em nós um espontâneo efeito de pose ou de auto-observação, neste momento da vida é importante poder “desaparecer”. Ainda que isso não seja exatamente possível, do ponto de vista objetivo, a disposição igualizante do formato carteiras atrás, professor(a) à frente, isto acaba se realizando subjetivamente, com raros, e às vezes temíveis, momentos de participação, quando “todos os olhares se voltam para você”.

Excetuando-se este ponto, as vantagens de conforto parecem superar amplamente os custos de deslocamentos e alocação de pessoas em uma sala. Contudo, neste ponto o testemunho foi unânime: aulas online são cansativas, não rendem, dificultam sustentar a atenção e parecem não “render” nem em termos cognitivos nem de memorização, como nas “aulas de verdade”.

Isso talvez possa ser pensado à luz da hipótese mais geral, que desenvolvi em meu último livro [1], de que o conhecimento é um caso particular de nossas relações de reconhecimento, ou seja, para que um determinado saber se torne significativo e possa ser propriamente incorporado, devemos contar com as relações de reconhecimento que subjazem a relação de aprendizagem.

Relações de reconhecimento envolvem tanto a maneira como somos lidos e posicionados pelo aparato escolar, de natureza institucional, quanto a forma como somos reconhecidos no interior da escola como comunidade. Reconhecer envolve tanto os meios que me ligam ao outro, a linguagem, os discursos e sua história, quanto os agentes e ainda os atos de reconhecimento que gradualmente sedimentam as regras pelas quais produzimos valor e sentido. A experiência de ensino online corrompe seriamente esta segunda dimensão da escola e sobrevaloriza a dimensão de conhecimento como uma experiência profundamente individual.

A linguagem digital envolve várias reduções. O outro se reduz a uma imagem bidimensional de 10 ou 20 centímetros, nossos atos de fala podem ser interrompidos por uma falha na transmissão ou na emissão, não conseguimos olhar exatamente nos olhos daquele com quem falamos (se assim o fizermos temos que olhar para a câmera e enquanto fazemos isso perdemos de vista, literalmente, a imagem do outro). Isso favorece que muitos alunos simplesmente abandonem a escola, ao passo que outros, com dificuldades em sustentar suas presenças e sua corporeidade em sala de aula, agora voltem a se interessar pela escola.

Do outro lado, professoras e professores têm diante de si um pesadelo didático. É como cantar sem “retorno”. Não sabemos se os alunos estão entendendo, gostando ou repudiando o que dizemos. Não temos como ajustar a velocidade de passagem de um tema para outro, nem como sentir a “temperatura” e os efeitos do que estamos dizendo para aquela turma, naquele dia, sob aquelas circunstâncias específicas do encontro. Estamos voando no escuro, ou melhor, no espelho, pois temos que nos contentar, muitas vezes em olhar para nossa própria imagem falante na tela.

Isso desperta um dos vícios narcísicos dos professores, a tendência a auto-observação exigente e cruel. Durante uma apresentação, todos nós temos que lidar ao mesmo tempo com a relação de transmissão de conteúdo, de apresentação dos tópicos e de articulação de ideias e com uma espécie de posição que nos sobrevoa em auto-observação e autoavaliação. É aquela voz que aparece quando, durante um jogo de tênis ou de futebol , erramos uma jogada e em vez de nos concentrarmos no lance seguinte desperdiçamos nossas forças ouvindo de nós mesmos coisas como: “sou um idiota mesmo”, “errei este lance fácil de novo”, “o que vão pensar de mim?” Isso é potencializado pela possibilidade real de que os pais “entrem na situação de aula” e vigiem o trabalho dos professores. Tudo isso converge para que a avaliação da situação concorra com o próprio acontecimento da situação, mais ou menos como quando vamos a um show ou visitamos um museu e passamos o tempo todo atrás da tela.

Ter que acompanhar-se falando ou em voo cego telefônico ou às dezenas de fotinhos de alunos é uma alternativa do tipo quanto pior, pior. Mesmo a conversa paralela, que tantas vezes perturba a aula, é uma espécie de feedback sobre a recepção de nossa mensagem. Assim como na clínica o silêncio do outro lado pode ser percebido não apenas como desatenção, mas como ausência potencial.

O contexto de avaliação, tão importante em vários momentos, também está sujeito a variações importantes, perguntas difíceis podem ser respondidas com um celular. Já se tem notícia de um campeão de maratona de matemática, produto de uma banca doméstica de adultos engenheiros e estatísticos. Ou seja, a partilha entre o público e o privado que determina o espaço escolar, às vezes com os muros da escola nos protegendo da intrusão da indústria cultural e de interesses que aumentam a desvantagem entre aqueles que dispõem de massivos recursos culturais de apoio e os que lutam por mesmas oportunidades.

Estamos aqui diante do problema da distribuição desigual do acesso ao universo digital e à tecnologia em geral, como ponto sensível para o aumento das dificuldades educativas no Brasil. Esta questão se tornará mais aguda com a chegada dos exames para ingresso nas universidades. Se o direito à educação é uma prerrogativa geral de redução da desigualdade, isso não replica a diferença de oportunidades de acesso a tecnologia. Quando falamos em acesso a livros, cadernos e material gráfico, isso significa algo bastante diferente de quando se dispõe de banda larga, memória de armazenamento, máquinas potentes e cursos paralelos de informática. O sentimento de injustiça, derivado da nebulosa sensação de que “estamos perdendo alguma coisa” pode concorrer aqui para a progressão de nossa ansiedade, que já não é pequena.

REFERÊNCIA

[1] Dunker, C.I.L. (2020) Paixão da Ignorância. São Paulo: Contracorrente.           

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Filosofia no sertão: Professora faz sabedoria dos avós mudar a vida de jovens

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Filosofia no sertão: Professora faz sabedoria dos avós mudar a vida de jovens

Maria Isabel em Duas Passanges (BA), onde nasceu Imagem: Arquivo pessoal

Do Uol

Através do conhecimento transmitido de maneira oral por senhoras analfabetas que a professora Maria Isabel Gonçalves, 33, uma das ganhadoras do Prêmio Educador Nota 10 em 2020, vem transformando as vidas de jovens do ensino médio no interior da Bahia.

Graduada em Filosofia e Letras, ela dá aula no Colégio Estadual Rui Barbosa em Boninal, cidade com população de pouco mais de 13 mil habitantes situada na região da Chapada Diamantina, a 530 km de Salvador, a professora sempre testemunhou o recorrente desejo entre os jovens de deixarem o local, em busca de uma vida diferente em centros urbanos.

“A maioria quer ir para São Paulo trabalhar, não valoriza a história daqui, não pensa em continuar estudando. É uma região afrodescendente, de porcentagem quilombola, mas que não tem esse reconhecimento sobre a própria cultura, a própria origem, e tampouco sobre os próprios direitos.” A solução encontrada por ela foi recorrer ao conhecimento oral das avós dos próprios jovens para, assim, recuperar a história da região para que valorizassem o local onde nasceram e vivem. Além disso, ensinou-os a compreender melhor seus direitos. Assim nasceu o projeto “As filosofias de minha avó: poetizando memórias para afirmar direitos”

Histórias do passado que valorizam o presente

Através do conhecimento transmitido de maneira oral por senhoras analfabetas que a professora Maria Isabel Gonçalves, 33, uma das ganhadoras do Prêmio Educador Nota 10 em 2020, vem transformando as vidas de jovens do ensino médio no interior da Bahia.

Graduada em Filosofia e Letras, ela dá aula no Colégio Estadual Rui Barbosa em Boninal, cidade com população de pouco mais de 13 mil habitantes situada na região da Chapada Diamantina, a 530 km de Salvador, a professora sempre testemunhou o recorrente desejo entre os jovens de deixarem o local, em busca de uma vida diferente em centros urbanos.

“A maioria quer ir para São Paulo trabalhar, não valoriza a história daqui, não pensa em continuar estudando. É uma região afrodescendente, de porcentagem quilombola, mas que não tem esse reconhecimento sobre a própria cultura, a própria origem, e tampouco sobre os próprios direitos.” A solução encontrada por ela foi recorrer ao conhecimento oral das avós dos próprios jovens para, assim, recuperar a história da região para que valorizassem o local onde nasceram e vivem. Além disso, ensinou-os a compreender melhor seus direitos. Assim nasceu o projeto “As filosofias de minha avó: poetizando memórias para afirmar direitos”

A tarefa de casa aplicada pela professora aos alunos era bastante simples: registrar, em áudio ou vídeo, as histórias relatadas por suas avós; em seguida, fotografar locais, objetos ou paisagens que haviam aparecido em tais relatos. A atividade encontra sua base teórica no francês Henri Bergson e na filosofia africana Ubuntu, tendo como objetivo exercitar reflexões acerca da região.

A corrente filosófica Ubuntu foi fonte de inspiração para Maria Isabel, uma vez que ela analisa como os relacionamentos entre as pessoas e o lugar onde vivem formam uma parte fundamental para entender uma sociedade. Muitas vezes é resumida com a frase “Eu sou porque nós somos”.

“Estudando filosofia africana, me veio essa ideia de tentar encontrar seus resquícios dentro da cultura das comunidades negras aqui na Chapada. Quando me deparei com ela [Ubuntu], vi que ela fala do ‘nós’, do coletivo. Toda a nossa proposta tinha de ter um olhar desenvolvido para a comunidade, tinha de partir daqui. Eu queria mostrar que no nosso mundo também tem filosofia, nossas avós têm conhecimento”.

Maria Isabel, portanto, não apenas fez com que a memória dos povoados – que até então não era registrada – fosse resgatada, como também estimulou nos jovens a enxergarem de forma positiva o local onde vivem.

“Quando eu perguntava sobre o povoado, eles respondiam com desânimo. A visão é que aqui é um buraco. ‘Tem nada não, professora.’ Eu queria que eles entendessem as riquezas que é esse mundo da gente”, conta Maria Isabel.

 O projeto se iniciou com o terceiro ano do ensino médio. Depois de registrado, cada grupo apresentaria seu trabalho para a escola em um evento no final do ano letivo. A professora afirma feliz que o resultado foi “muito além do imaginado”. Mesmo após alguma relutância, um dos grupos que mais dava trabalho acabou aderindo à ideia passando a acionar a professora apenas para reportar com empolgação o progresso da atividade.

A professora Maria Isabel Gonçalves (no topo à direita) e seus alunos no povoado do Machado (BA) Imagem: Arquivo pessoal

A iniciativa colecionou relatos divertidos e histórias comoventes, bem como imagens de lindas paisagens da chapada baiana e até mesmo poemas com histórias do lugar. Mas não parou aí: a atividade ajudou a transformar a relação que os jovens tinham o local.

A professora relata, inclusive, que um dos grupos chegou a visitar nascentes mortas. Alguns dos rios só enchem com a chuva e devido à época da seca, estavam minguando. “Eles registraram tudo e falavam, espontaneamente, sobre o sonho de revitalizar essas nascentes”, diz Gonçalves.

 A atividade, no entanto, foi além da conversa. Neste ano, já formados, alguns dos alunos se aproximaram de agentes regionais do Ibama para revitalizar a área.

“Eles se engajaram, começaram a conversar com os pais e avós sobre a situação, para falar da influência da ação do homem na natureza. Os mais antigos pensam que a natureza está morrendo porque é assim mesmo e eles agora querem explicar”, relata, orgulhosa

Histórias de bisavó

A ideia que originou a atividade dos relatos deriva da experiência familiar de Maria Isabel. A professora cresceu em meio a área rural do município de Seabra, vizinho a Boninal. Os pais viviam do trabalho no campo, plantando tabaco. A cidade grande era um lugar quase imaginário, um mundo distante, que ela e os amigos buscavam ao desafiar os limites que o marasmo do campo lhes impunha.

“O mundo da gente [na área rural] é muito diferente. Quando era pequena, não tinha livros, só os didáticos da escola. No meu primeiro contato [com literatura], fiquei deslumbrada. A leitura transformou a minha vida”, conta.

Sem possuir televisão e contando apenas com alguns poucos livros, Maria Isabel cresceu ouvindo histórias da mãe, que contava sobre os povoados locais e sobre a bisavó Iaiá Lia, parteira e rezadeira que acabou veio a ser uma líder negra da comunidade.

Tornando-se viúva antes de completar 30 anos, Iaiá criou os filhos fazendo partos. Não era remunerada com dinheiro, mas com insumos como com galinhas, pratos de feijão ou qualquer porção de alimento. Analfabeta, ela transmitia seu conhecimento à família e a outros moradores na base da conversa

Como Lia morreu poucos meses depois de Maria Isabel nascer, a professora não a conheceu. Suas histórias, porém, permaneceram e abriram seus horizontes.

“Essa contação de história foi meu primeiro conhecimento de mundo. Analfabeta, era ela a pessoa que ensinava. O projetou surgiu para trazer esses saberes das mulheres negras como um conhecimento filosófico”, explica a docente. “O povo daqui também tem e faz filosofia”

A educação como ferramenta de transformação social

A conscientização quanto às origens é apenas uma das diversas características do projeto. O escopo principal, explica a professora, é fazer com que os alunos entendam que têm direito a um futuro diferente de tantos conterrâneos que deixam o povoado.

 “O sistema educacional é feito para não funcionar. A gente, que está ali lutando, sabe. O mundo faz [os jovens] desprezarem o lugar em que vivem e muitos acabam indo embora para São Paulo ser peão em obras ou trabalhar como empregadas domésticas. Essa base já está tão emaranhada que eles não têm nem a perspectiva de entrar em faculdade”, conta

Maria Isabel objetiva, junto a outros professores que também ensinam na região, utilizar a escola como a fonte primária para uma transformação social, atuando para que esses jovens possam alcançar um futuro melhor. “A proposta final [do projeto] é que eles percebam seus direitos a educação, saúde e a um ambiente melhor, que são negados o tempo todo. Aqui, um jovem não tem acesso a nada, eles não têm uma biblioteca”, lamenta.

Empreender toda essa mudança social é uma questão que ainda apresenta inúmeros obstáculos, ela reconhece, mas ainda se mostra empolgada. “A escola é a única forma de transformação social, falo pela minha vida. [A educação] transforma as comunidades, que têm muita coisa para ensinar ao Brasil e ao mundo.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Para os professores em quarentena por Christian Dunker

Christian-Dunker

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

"Para os professores em quarentena"
por Christian Dunker

Uma mensagem reconfortante de Christian Dunker  que de forma muito sensível traz alento aos professores que estão sofrendo muita pressão nesse momento de crise. Reflexão sábia e sensível que vem em ótima hora.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Quarentena: porque você deveria ignorar toda a pressão para ser produtivo agora

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Quarentena: porque você deveria ignorar toda a pressão para ser produtivo agora

Uma pesquisadora com experiência em ambientes adversos dá conselhos aos acadêmicos ansiosos com a quebra de rotina causada pelo coronavírus

Por Aisha S. Ahmad, no Chronicle of Higher Education.
Tradução de Renato Pincelli.

OQUE TENHO OBSERVADO entre meus colegas e amigos acadêmicos é uma resposta comum à contínua crise da COVID-19. Eles estão lutando bravamente para manter um senso de normalidade — correndo para os cursos online, mantendo rigorosos cronogramas de escrita e criando escolinhas Montessori nas mesas de cozinha. A expectativa deles é apertar os cintos por um breve período, até que as coisas voltem ao normal. Para qualquer um que segue esse caminho, desejo muita saúde e boa sorte.

Entretanto, como alguém que tem experiência com diversas crises ao redor do mundo, o que eu vejo por trás dessa busca pela produtividade é uma suposição perigosa. A resposta para a pergunta que todo mundo está se fazendo — “Quando isso vai acabar?” — é simples é óbvia, mas difícil de engolir. A resposta é nunca.

Catástrofes globais mudam o mundo e esta pandemia é muito semelhante a uma grande guerra. Mesmo que a crise do coronavírus seja contida dentro de alguns meses, o legado dessa pandemia vai viver conosco por anos, talvez décadas. Isso vai mudar o modo como nos movemos, como construímos, como aprendemos e nos conectamos. É simplesmente impossível voltar à vida como se nada disso tivesse acontecido. Assim, embora possa parecer bom por enquanto, é tolice mergulhar num frenesi de atividade ou ficar obcecado com sua produtividade acadêmica neste momento. Isso é negação e auto-ilusão. A resposta emocional e espiritualmente saudável seria se preparar para ser mudado para sempre.

O resto deste artigo é um conselho. Fui constantemente procurada por meus colegas ao redor do mundo para compartilhar minhas experiências de adaptação às condições de crise. Claro que sou apenas uma humana, lutando como todo mundo para se ajustar à pandemia. Entretanto, já trabalhei e vivi sob condições de guerra, conflitos violentos, pobreza e desastres em muitos lugares do mundo. Passei por racionamento de comida e surtos de doenças, bem como prolongados períodos de isolamento social, restrição de movimento e confinamento. Conduzi pesquisas premiadas sob condições físicas e psicológicas extremamente difíceis — e tenho orgulho de minha produtividade e desempenho na minha carreira de pesquisadora.

Deixo aqui os seguintes pensamentos durante esse momento difícil na esperança de que eles ajudem outros acadêmicos a se adaptar a essas condições duras. Pegue o que precisa e deixe o resto.

Primeiro Estágio: Segurança

SEUS PRIMEIROS dias ou suas primeiras semanas numa crise são cruciais e você deveria ter um amplo espaço para fazer um ajuste mental. É perfeitamente normal e aceitável sentir-se mal ou perdido durante essa transição inicial. Considere positivo que não esteja em negação e que está se permitindo trabalhar apesar da ansiedade. Nenhuma pessoa sã sente-se bem durante um desastre global, então agradeça pelo desconforto que sente. Neste estágio, eu diria para focar em alimentação, família, amigos e talvez exercícios físicos — mas você não vai virar um atleta olímpico em quinze dias, então baixe sua bola.

Em seguida, ignore todo mundo que está postando a pornografia da produtividade nas mídias sociais. Está bem se você continua acordado às 3 da manhã. Está bem esquecer de almoçar ou não conseguir fazer uma teleaula de ioga. Está bem se faz três semanas que você nem toca naquele artigo-que-só-falta-revisar-e-submeter.

Ignore tanto as pessoas que dizem estar escrevendo papers quanto as que reclamam de não conseguir escrever. Cada qual está em sua jornada. Corte esse ruído.

Saiba que você não está fracassando. Livre-se das ideias profundamente toscas que você tem a respeito do que deveria estar fazendo agora. Em vez disso, seu foco deve se voltar prioritariamente para sua segurança física e mental. Neste começo de crise, sua prioridade deveria ser a segurança da sua casa. Adquira itens essenciais para sua dispensa, limpe seu lar e faça um plano de coordenação com sua família. Tenha conversas razoáveis sobre preparos de emergência com seus entes queridos. Se você é próximo de alguém que trabalha nos serviços de emergência ou num ramo essencial, redirecione suas energias e faça do apoio a essa pessoa uma prioridade. Identifique e cubra as necessidades dessas pessoas.

Não importa como é o perfil da sua família: vocês vão ter que ser um time nas próximas semanas ou meses. Monte uma estratégia para manter conexões sociais com um pequeno grupo de familiares, amigos e/ou vizinhos, mas mantenha o distanciamento físico de acordo com as orientações de saúde pública. Identifique os vulneráveis e garanta que eles estejam incluídos e protegidos.

A melhor maneira de construir um time é ser um bom companheiro de equipe, então tome alguma iniciativa para não ficar sozinho. Se você não montar essa infra-estrutura psicológica, o desafio das medidas de distanciamento social necessárias pode ser esmagador. Crie uma rede sustentável de apoio social — agora.

Segundo Estágio: Modificação Mental

ASSIM QUE estiver seguro junto com seu time, você vai começar a se sentir mais estável e seu corpo e sua mente vão se adaptar, fazendo-o buscar desafios mais exigentes. Depois de um tempo seu cérebro pode e vai reiniciar sob condições de crise e você vai reaver sua capacidade de trabalhar em alto nível.

Essa modificação mental permitirá que você volte a ser um pesquisador de alta performance, mesmo sob condições extremas. No entanto, você não deve tentar forçar sua modificação mental, especialmente se você nunca passou por um desastre. Um dos posts mais relevantes que vi no Twitter (do escritor Troy Johnson) dizia: “Dia 1 da Quarentena — vou meditar e fazer treinamento físico. Dia 4 — ah, vamos misturar logo o sorvete com o macarrão”. Pode parecer engraçado, mas diz muito sobre o problema.

Mais do que nunca, precisamos abandonar o performativo e abraçar o autêntico. Modificar nossas essências mentais exige humildade e paciência. Mantenha o foco nessa mudança interna. Essas transformações humanas vão ser sinceras, cruas, feias, esperançosas, frustrantes, lindas e divinas — e serão mais lentas do que os acadêmicos atarefados estão acostumados. Seja lento. Permita-se ficar distraído. Deixe que isso mude o modo como você pensa e como você vê o mundo. Porque o nosso trabalho é o mundo. Que essa tragédia, enfim, nos faça derrubar todas as nossas suposições falhas e nos dê coragem para ter novas ideias.

Terceiro Estágio: Abrace o Novo Normal

Do outro lado dessa mudança, seu cérebro maravilhoso, criativo e resiliente estará te esperando. Quando suas fundações estiverem sólidas, faça uma agenda semanal priorizando a segurança do seu time doméstico e depois reserve blocos de tempo para as diferentes categorias do seu trabalho: ensino, administração e pesquisa. Faça primeiro as tarefas simples e vá abrindo caminho até os pesos-pesados. Acorde cedo. Aquela aula online de ioga ou crossfit vai ser mais fácil nesse estágio.

A essa altura, as coisas começam a parecer mais naturais. O trabalho também vai fazer mais sentido e você estará mais confortável para mudar ou desfazer o que estava fazendo. Vão surgir ideias novas, que nunca lhe passariam pela cabeça se você tivesse ficado em negação. Continue abraçando sua modificação mental, tenha fé no processo e dê apoio ao seu time.

Lembre-se que isso é uma maratona: se você disparar na largada, vai vomitar nos seus pés até o fim do mês. Esteja emocionalmente preparado para uma crise que vai durar 12 ou 18 meses, seguida de uma recuperação lenta. Se terminar antes, será uma surpresa agradável. Neste momento, trabalhe para estabelecer sua serenidade, sua produtividade e seu bem-estar sob condições prolongadas de desastre.

Nenhum de nós sabe quanto tempo essa crise vai durar. Gostaríamos de receber nossas tropas de volta ao lar antes do Natal. Essa incerteza nos enlouquece.

Porém, virá o dia em que a pandemia estará acabada. Vamos abraçar nossos vizinhos e amigos. Vamos retornar às nossas salas de aula e cantinhos do café. Nossas fronteiras voltarão a se abrir para o livre movimento. Nossas economias, um dia, estarão recuperadas das recessões por vir.

Só que, agora, estamos no começo desta jornada. Muita gente ainda não entendeu o fato de que o mundo já mudou. Alguns membros da faculdade sentem-se distraídos ou culpados por não conseguir escrever muito ou dar aulas online apropriadas. Outros usam todo seu tempo em casa para escrever e relatam um surto de produtividade. Tudo isso é ruído — negação e ilusão. Neste momento, essa negação só serve para atrasar o processo fundamental da aceitação, que permite que a gente possa se reinventar nessa nova realidade.

Do outro lado desta jornada de aceitação estão a esperança e a resiliência. Nós sabemos que podemos passar por isso, mesmo que dure anos. Nós seremos criativos e responsivos; vamos lutar em todas as brechas e recantos possíveis. Vamos aprender novas receitas e fazer amizades desconhecidas. Faremos projetos que nem podemos imaginar hoje e vamos inspirar estudantes que ainda estamos para conhecer. E vamos nos ajudar mutuamente. Não importa o que vier depois: juntos, estaremos preparados e fortalecidos.

Por fim, gostaria de agradecer aos colegas e amigos que vivem em lugares difíceis, que sentem na própria pele essa sensação de desastre. Nos últimos anos, rimos ao trocar lembranças sobre as dores da infância e exultamos sobre nossas tribulações. Agradecemos à resiliência que veio com nossas velhas feridas de guerra. Obrigado a vocês por serem os guerreiros da luz e por partilhar de sua sabedoria nascida do sofrimento — porque a calamidade é uma grande professora.


Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Inteligência emocional: 10 formas para combater a ansiedade durante o contexto da crise

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Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Inteligência emocional: 10 formas para combater a ansiedade durante o contexto da crise

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A informação de qualidade é uma arma imprescindível para que todos possam compreender com seriedade e tratar a presente crise de forma serena, atentando-se aos cuidados necessários para evitar a contração do COVID-19 e, para tanto, uma série de ações se fazem necessárias para que se consiga a devida prevenção, sendo o isolamento social a principal delas.

A necessidade de adoção do distanciamento – e isolamento social – pode se tornar bastante penosa com o correr dos dias e semanas, uma vez que não se sabe por quanto tempo durará esta crise, que já vem tomando proporções cada vez maiores ao redor do globo. Assim, uma medida que tem o propósito de preservar nossa saúde física, pode vir a ser deteriorante para a saúde mental.

Ansiedade

A ansiedade é considerada como o mal do século, pois assola pessoas de diversas faixas etárias e se manifesta de maneira alheia à posição social e cultural, tornando-se um dos principais desafios do mundo moderno. É, portanto, um dos mais relevantes males que se manifestam nos dias atuais, mesmo em situação de normalidade, podendo vir a se apresentar de maneira mais intensa em um cenário de isolamento em função da quarentena.

É fundamental  buscar meios para controlar a ansiedade, bem como manter o equilíbrio emocional nesse momento, assim, conseguir de forma conjunta empreender o enfrentamento da pandemia.

Preparamos dez sugestões para auxiliar nesse processo de autocuidado:

1 – Mantenha o contato, mas a distância

Buscar ter o mínimo de contato físico durante o atual momento é importantíssimo para conter a propagação do vírus, ou seja, é realmente necessário nos isolarmos. Assim, para que o contato social seja mantido, o uso dos meios de comunicação online se apresenta como uma ferramenta valiosa. Nos dias atuais é possível se comunicar com qualquer parte do mundo usando um celular, por meio de texto ou mesmo ligações de vídeo. Dessa forma, continuamos a nos apoiar sem estarmos expostos aos riscos do ambiente externo.

2 – Cuidado com Fake News

Devido ao alto volume de informação que dispomos hoje nas redes, é preciso ter cautela com aquilo que se consome. Buscar por informações confiáveis é fundamental para não ser pego em Fake News. Assim, recomendamos conferir as fontes de notícias oficiais, como o site da Organização Mundial de Saúde, bem como veículos de impressa. Acompanhar os telejornais já é o bastante para manter-se informado e evitar a sobrecarga de informação que pode ocorrer em redes sociais.

3 – Cuide do corpo e da mente

Manter o corpo saudável é fundamental para manter a mente sã. É importante se exercitar diariamente, da maneira que for possível, e observar os sinais emitidos pelo corpo que podem revelar a carga de tensão e estresse pela qual se está submetidos, o que pode atenuar os efeitos da ansiedade. Respire, observe seu ambiente e não se esqueça de beber água.

4 – Mantenha a mente ocupada

Focar a energia em ocupações úteis e positivas é muito importante para amenizar os efeitos do isolamento social. Assim, recomenda-se que se busque por temas relacionados à cultura e ao conhecimento, promovendo o desenvolvimento pessoal. Há muito material de qualidade espalhado pela internet, em forma de vídeo, áudio e texto.

5 – Administre a ansiedade

​​Procure administrar os gatilhos que podem desencadear a ansiedade. Escrever notas em um caderno pode ajudar a aliviar os efeitos e distrair a mente. Focar em atividades que exigem concentração também pode ser de alta valia nos momentos mais agudos

6 – Desfrute da família e amigos

Aproveite esse momento de isolamento para cuidar das relações afetivas. Ligue para aquele amigo que há tempos não se falam. Aproveite mais momentos com a família. Restabeleça pontes e canais de comunicações que estavam precisando de atenção. Aproveite as apresentações ao vivo que artistas promovem através da internet.

7 – Filtre o volume de informação

Procure dosar as cargas de informação acerca da crise do COVID-19 para não sobrecarregar a saúde mental e desestabilizar-se emocionalmente, provocando a elevação do estresse e da ansiedade, uma vez que seja de fato um tema bastante pesado, mas angustiar-se não trará qualquer benefício. Não deixe que a crise monopolize os assuntos diários.

8 – Não interrompa o uso de medicações especiais

Em casos de pessoas com histórico de males como depressão, alcoolismo, síndrome do pânico, e demais transtornos, é imprescindível que não se interrompa os tratamentos psicológicos ou psiquiátricos em qualquer circunstância, pois isso poderia trazer sérias complicações levando a recaídas perigosas. . Diversas instituições de saúde mental, bem como profissionais da área da saúde continuarão a oferecer suporte por meio de atendimentos online. Esse tipo de ajuda é fundamental no presente momento.

9 – Mantenha-se produtivo

O Remanejamento de funções que podem ser desempenhadas remotamente é muito importante nesse momento, uma vez que as contas não param de chegar e é preciso continuar trabalhando, ainda que de forma remota. Se for possível, adote o modelo de trabalho a distância, dispensando o deslocamento para escritórios, salas de aula, etc.

10 – Mude velhos hábitos

As práticas cotidianas diárias nos traziam dificuldade para viabilizar comportamentos mais saudáveis da forma como desejávamos, nos levando à procrastinação. Nesse momento de isolamento social, no entanto, é possível estabelecer novas rotinas, revendo velhas prioridades. Incluir práticas de atividade física, técnicas de relaxamento e meditação em casa pode ser fundamental para se criar um ambiente saudável. É possível encontrar diversos aplicativos e sites que auxiliam nessa tarefa.

Tempos de crise são propícios para a reflexão e reorganização. É preciso ponderar nossas prioridades e cuidarmos de nós e de nossos entes queridos. Precisamos recalcular e afastar velhas práticas que provocam o adoecimento de nosso ambiente.   A vida continua e esse tempo nebuloso também vai passar. Deixaremos esse período para trás, nos tornando pessoas fortalecidas e afetivas.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica