Breve reflexão sobre a intergeracionalidade na pesquisa científica

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Breve reflexão sobre a intergeracionalidade na pesquisa científica

02/03/2019 José Carlos Ferrigno

Devemos cultivar a humildade, a paciência, a perseverança e, sobretudo, a capacidade de auto-observação durante nossas investigações sobre a intergeracionalidade.

Atividades, projetos e programas intergeracionais têm se multiplicado dentro e fora do Brasil desde os anos 90, a partir da percepção de que a aproximação de velhos e jovens pode se constituir como uma resposta ao distanciamento ou até mesmo aos conflitos de geração. Comumente compostas por atividades lúdicas, culturais e de lazer, tais programas são voltados para a coeducação e a solidariedade etária. Também podem se apresentar em ações voluntárias e militantes, adquirindo mais fortemente um caráter assistencial e/ou político. Nesse caso, temos gerações ombro a ombro trabalhando em prol da comunidade, como é o caso das comissões intergeracionais em ações comunitárias, sobretudo na Inglaterra e na Alemanha, países em que esse tipo de intervenção se encontra mais desenvolvida.

As ações intergeracionais também podem ser percebidas como aliadas na luta contra discriminações ao “diferente”, perfilando-se ao lado das mobilizações contra o preconceito à mulher, ao negro, ao homossexual, ao imigrante etc. De fato, tanto o velho quanto a criança e também o adolescente não são devidamente respeitados em seus direitos e na expressão de seus desejos e potencialidades, como bem ressalta Divina dos Santos em sua tese de doutorado (SANTOS, pp.40-41). Mas, felizmente, há resistência a essa opressão, é bom lembrar Simone de Beauvoir quando ela nos fala sobre a salutar cumplicidade de avós e netos na resistência às imposições do dono e da dona da casa, a chamada geração intermediária, frequentemente detentora do poder econômico, físico e psicológico no ambiente familiar (BEAUVIOR, 1990, p. 270). Também por isso, a relação avós e netos é especial porque pode ser um contraponto ao nosso contexto socioeconômico marcado pela competição, pelo individualismo e pelo consumismo.

A intergeracionalidade merece uma abordagem científica. Nesse sentido, como devemos agir como pesquisadores das relações intergeracionais? Como abordar os entrevistados? Ecléa Bosi em “O Tempo Vivo a Memória”, no capítulo intitulado “Sugestões para um jovem pesquisador” nos diz: “Às vezes falta ao pesquisador maturidade afetiva ou mesmo formação histórica para compreender a maneira de ser do depoente(ou de nossos sujeitos jovens e velhos, diria eu). Somos em geral (prossegue a autora) prisioneiros de nossas representações, mas somos também desafiados a transpor esse limite, acompanhando o ritmo da pesquisa” (BOSI, 2003, p. 61). Nessa perspectiva, penso que devemos cultivar a humildade, a paciência, a perseverança e, sobretudo, a capacidade de auto-observação durante nossas investigações.

Ainda bebendo do rico manancial nos deixado por Ecléa, na mesma obra acima citada, dessa vez no capítulo “Entre a opinião e o estereótipo”, ela comenta a alvissareira possibilidade do pesquisador desenvolver amor por seu objeto de estudo e de sua ação profissional. Assim o fazendo, ela sugere que mais do que a aquisição de técnicas, pode-se falar, então, de uma conversão à causa de pessoas oprimidas e estigmatizadas (BOSI, 2003, p. 61).

Outro aspecto que considero importante é a compreensão de que a ciência nos solicita parcimônia em nossas conclusões. Devemos ser econômicos em relação aos resultados de nossas pesquisas, evitando afirmações categóricas, por mais sedutoras que possam ser. É um longo processo, decorrente de uma prática constante e sistematizada. É a práxis, reflexão resultante da digestão e da assimilação de nossas práticas cotidianas. Determinadas ações que desencadeamos, em uma primeira etapa, são movimentos que levam a uma sensibilização, uma espécie de prontidão para começar a pensar no assunto. A mudança de atitudes e comportamentos demanda tempo. Isso vale para pessoas e para instituições.

“O pesquisador deve ser sensível e aderir à causa de seus sujeitos. Quando estudamos as gerações, devemos estudá-las não como algo estranho à nossa natureza, como um objeto de estudo em relação ao qual mantemos distância em uma (impossível) neutralidade. Mas sim com nossa própria geração, nossas experiências, nossa história de relação com os mais velhos e com os mais novos. Já fomos crianças, seremos velhos (ou já somos)”

Cora Coralina, durante entrevista no Sesc Pompéia, em São Paulo no ano de 1982, ao ser perguntada sobre o que achava da idade que tinha respondeu: “Eu tenho dentro de mim todas as idades, da criança, da moça e da velha”. Essa experiência interna nos fornece elementos importantes para pensarmos sobre as gerações. Devemos estar alerta para o valor da empatia, pois devemos nos esforçar para entender o sentido que nossos sujeitos pesquisados dão às suas vidas, suas escolhas, representações, desejos e posição no mundo, para sondarmos e descobrirmos algo dos profundos de sua subjetividade. O tempo dirá sobre a eficácia dos programas intergeracionais. O ideal é que no futuro, ações dessa natureza não sejam mais necessárias, na medida em que recuperarmos o vigor da vida comunitária (se o recuperarmos). As perspectivas desses programas são promissoras, mas, elas não são panaceias, não tem o poder de revolucionar as relações sociais. É preciso lembrar que as dificuldades do diálogo intergeracional devem ser compreendidas no contexto maior das relações humanas no mundo em que vivemos. Portanto, em última instância, o bom convívio entre pais e filhos, avós e netos, velhos e moços dentro e fora da família depende da transformação radical das estruturas econômicas e de suas superestruturas políticas. Quando se trabalha com o objetivo da aproximação de pessoas marcadas pela diferença, no nosso caso a etária, o primeiro passo é buscar que se familiarizem umas com as outras. Nesse caminho as diferenças são paulatinamente conhecidas e, posteriormente, na melhor das circunstâncias, aceitas. O grau máximo desse processo é o desenvolvimento da admiração pelo outro por ele possuir algo que me falta e daí desejar sua presença para que se dê essa complementação, na forma de um constante aprendizado recíproco. Temos aí uma relação igualitária, sem dominação. Mais uma vez, recordo Ecléa Bosi quando pondera: Quando duas culturas se defrontam, não como predador e presa, mas como diferentes formas de existir, uma é para a outra como uma revelação” (BOSI, 2003, p. 175). Isso vale para povos, isso vale para pessoas.

Referências
BEAUVOIR. Simone de. Velhice. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira, 1990.
BOSI, Ecléa. Sugestões para um jovem pesquisador. In: BOSI, Ecléa. O tempo vivo da memória: ensaios de Psicologia Social. São Paulo: Atelier Editorial, 2003.
SANTOS, Divina de Fátima dos. Olha para mim: encontro de gerações intermediado pela escrita de cartas. Tese de doutorado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 2015.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Intergeracionalidade: Cartas na Mesa é lançado em Caraguatatuba

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Intergeracionalidade: Cartas na Mesa é lançado em Caraguatatuba

Na noite da última quarta-feira (4/12), ocorreu nas dependências do Museu de Arte e Cultura de Caraguatatuba (MACC), o lançamento do livro Intergeracionalidade: Cartas na Mesa de autoria da professora Divina de Fátima dos Santos, para a comunidade local. O evento contou com a participação de diversas pessoas entre professores, colegas de trabalho, amigos, admiradores, incluindo a ilustre presença da reitora do Centro Universitário Módulo Maria Antônia Furgerie e, inclusive, alguns dos participantes do Projeto Cartas, que foi realizado no município durante os estudos que serviram de base para a obra da Professora Divina.

O livro Intergeracionalidade: Cartas na Mesa relata o encontro e a inter-relação com pessoas de diferentes idades e gerações. Os personagens que estão mais presentes na obra são idosos que frequentam o centro de referencia do idoso com mais de 60 anos e crianças matriculadas em escolas públicas municipais. Os quatro anos durante os quais o projeto se desenvolveu, crianças e idosos trocaram correspondências onde dividiam histórias e experiências e foram objetos de análise da professora que estudava a forma pela qual esse intercâmbio ocorria, e o resultado do estudo é descrito na obra lançada pela autora na noite daquela quarta-feira.

O evento também contou com uma homenagem à professora Divina, realizada pelas alunas do sexto semestre pedagogia, que apresentaram um show musical. Ainda durante a festividade, alunos do quarto semestre de pedagogia realizaram uma exibição coreográfica em libras da musica Clareou, de autoria do sambista Diogo Nogueira, o que concedeu a essa noite especial, tons ainda mais belos e agradáveis e que, em conjunto com o clima de confraternização dos presentes, foi essencial para o êxito do evento e satisfação de todos ali presentes.

Além do evento do lançamento do livro, o público presente pôde desfrutar das atrações próprias do MACC, tais como exibição de elementos históricos do município de Caraguatatuba, e exposição do projeto Todos Podem Ser Frida, idealizado pela fotógrafa Camila Fontenele de Miranda.

 

Confira mais imagens do lançamento abaixo!

Publicado pela editora Portal Edições, Intergeracionalidade: Cartas Na Mesa procura registrar com riqueza de detalhes e delicadeza o trabalho desenvolvido pela Doutora
nesses últimos anos em que esteve atuando no município de Caraguatatuba

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Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

II ENCONTRO NACIONAL DA CRUZEIRO DO SUL EDUCACIONAL

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

II ENCONTRO NACIONAL DA CRUZEIRO DO SUL EDUCACIONAL - Novembro/2017.

Equipe de profissionais da FASS e MÓDULO
Ao lado dos Professores Antonio Felippe (Nil) e da Professora Maria Antonia de Lima do Módulo e da FASS.
Recebendo os Prêmios relativos aos trabalhos desenvolvidos em sala de aula: "Oficina do Livro: Colocando as letras e as palavras em Movimento" e "Cine Clube na Escola: Educando Arte e Cultura"

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Manual da Longevidade – Guia para a Melhoria da Qualidade de Vida os Idosos

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Manual da Longevidade - Guia para a Melhoria da Qualidade de Vida os Idosos

Manual da Longevidade - Guia para a Melhoria da Qualidade de Vida dos Idosos

O livro aborda aspectos do envelhecimento focando nas perspectivas trazidas por tal processo. Para isso, a obra conta com a participação de especialistas que apresentam estudos e reflexões sobre identidade, lazer, cultura, saúde entre outros assuntos que se relacionam às pessoas idosas. O tema do envelhecimento ainda carrega diversas questões sobre mudanças, qualidade de vida e sobre a compreensão de modo geral sobre essa importante tapa da vida.

Avôs e Netos na Contemporaneidade

Por Divina de Fátima dos Santos e Jucileide do Socorro Tavares Maciel

Numa sociedade marcada pela pluralidade, por culturas diferenciadas, por valores cada vez mais pessoais, pensar na família enquanto referência, tem se mostrado muito difícil, na medida em que se observa um novo contexto social que, segundo Wagner (2011), é marcado por um novo panorama que assinala a necessidade de tratar de “famílias” no plural, descartando a singularidade.

Partindo desse pressuposto, é importante considerar o pluralismo contextual, as regras sociais e as atitudes, bem como a evolução da sociedade (aumento da oferta de trabalho, avanço da tecnologia e processo de globalização). Isto por sua vez tem implicado em novas demandas sociais (incremento da competitividade, aumento do desemprego estrutural e precariedade populacional).

O futuro da organização familiar é colocado em discussão, haja vista, que vários são os modelos ora instalados, o que resulta em mudanças paradigmáticas. Repensar a questão identitária da família, suscita refletir também sobre os valores e padrões, tarefa considerada difícil, na medida em que, segundo Wagner (2011), as famílias conjugais, monoparentais, de 2º casamento, homoafetivas, entre outras, funcionam direcionadas às suas respectivas composições.

Pensar em modelos de família significa a priori compreendê-los como um sistema que se caracteriza por grupos de pessoas com especificidades e com papéis próprios. Portanto, este sistema independente do modelo é formado por membros que ora se aproximam e ora se distanciam. Estes membros estabelecem acordos e regras, mas às vezes apresentam dificuldades em manter a demarcação das fronteiras que caracterizam as relações sociais.

No âmbito das discussões e dos papeis relacionados à família, é fundamental refletir sobre o papel dos avós nessa sociedade marcada pela heterogeneidade. Segundo Leite (2002), crianças e velhos são sujeitos não reconhecíveis pela sociedade. Os velhos “porque já foram e as crianças porque ainda não são” (FERRIGNO, 2003). Observa-se nesse contexto uma discriminação concreta, como se a eles o presente não pertencesse. Na tentativa de se manter no contexto dessas tensões, avós e netos procuram insistentemente realizar ações que contestem o quadro supracitado. Segundo os autores, estes sujeitos são mediatizados pela cultura num trabalho de criação, recriação, produção e reprodução; por outro lado, contraditoriamente são descartados como se não fizessem parte dessa mesma cultura.

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Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Cartas Intergeracionais: seus efeitos e significados

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Cartas Intergeracionais: seus efeitos e significados

O Brasil tem atualmente 11,8% da população de idosos, e é previsto que em 2025 seja a 6ª maior população de idosos do mundo. Por este motivo, diversos recursos de trabalho para esta população vêm sendo desenvolvidos, uma dessas são as práticas Intergeracionais (BODSTEIN; LIMA; BARROS, 2014).

Para Goldfarb e Lopes (2006 apud Santos, Cerveny e Silveira, 2012), a aproximação de diferentes gerações, inclusive entre crianças e idosos, pode promover e facilitar crescimentos para ambos, enfraquecendo os preconceitos e estimulando o desejo de viver plenamente a vida cultural e social.

Escrever cartas na escola é uma prática comum para as crianças no Ensino Fundamental, apesar de parecer coisa ultrapassada na atualidade devido a tecnologia, o uso quase exclusivo de computadores e celulares com internet. Portanto, pode-se questionar a função da escrita de cartas neste contexto. De acordo com Santos, Cerveny e Silveira (2012, p. 112) “escrever cartas constitui-se uma das inúmeras maneiras possíveis de entrar em contato com outras pessoas com as quais podemos iniciar ou manter um relacionamento”.

Em um centro de referência para a terceira idade de Caraguatatuba foi realizado o projeto “Encontro de Gerações”, baseado em trocas mensais de correspondências entre idosos que frequentam o centro e crianças na faixa de 10 anos que são estudantes do ensino fundamental da rede municipal de ensino (SANTOS; CERVENY; SILVEIRA, 2012).

A troca de cartas promoveu a autoria, além de ativar a imaginação das crianças e dos idosos. A prática também se torna um recurso de estimulação da memória, na medida em que os idosos escrevem sobre suas experiências passadas. “Escrever dá “vida” e significado a um pequeno pedaço de papel tecnicamente sem valor, além de tornar presente os ausentes” (SANTOS; CERVENY; SILVEIRA, 2012, p. 113).

De acordo com Pennebaker e Beall (1986 apud Santos, Cerveny e Silveira, 2012) a escrita funciona como um recurso de ressignificação de si e dos outros pela influência no comportamento das pessoas, uma vez que passam a acreditar mais em si mesmas. As palavras escritas são relatos que podem revelar sentimentos e significados. Não são recursos inventados pela psicologia, mas disparam aspectos cognitivos, afetivos e emocionais, mobilizam relações potentes, pois são abertas e abrem os processos de significação.

A partir disto, sugere-se que a troca de Cartas Intergeracionais se qualifica como uma tecnologia psicossocial, pois é um processo que estabelece relações “intercessoras”, ou seja, produz algo entre os sujeitos, é um processo que existe para os idosos e para as crianças e não teria existência sem o momento da relação em processo. Portanto, este processo caracteriza-se como uma tecnologia psicossocial pela potência de agenciar o encontro, de possibilitar trocas, relações de acolhimento e estabelecimento de vínculo (MERHY; FRANCO, 2003).

Dito de outra forma, a utilização de um processo sistematizado, que consiste na troca de correspondências entre idosos de uma instituição e criança de uma escola, é um “processo de construção social, política, cultural, subjetiva”, que configura “um novo sentido para as práticas assistenciais, tendo como consequência o impacto nos resultados a serem obtidos” (MERHY; FRANCO, 2003, p. 09).

Esta tecnologia psicossocial poderia ser aplicada, por exemplo, nos atuais Centro de Convivência do Idoso (CCI). Neste serviço, são organizados grupos de convivência, com uma média de 20 participantes, e encontros de duas horas semanais. As atividades são planejadas com o objetivo de contribuir para o processo de envelhecimento saudável, autonomia, sociabilidade e fortalecimento de vínculos.

Atividades Intergeracionais são conhecidas pelos trabalhadores deste serviço, contudo a novidade está nas cartas como dispositivo, e no “manejo” do vínculo entre as crianças e os idosos que é viabilizado. Este processo pode contribuir para o desenvolvimento da autonomia, na medida em que o idoso escreve sozinho as suas cartas, escolhe o conteúdo da comunicação, e lê as que são endereçadas a ele. Além disso, muitas memórias podem ser evocadas e, novos sentidos produzidos.




REFERÊNCIAS
BODSTEIN, Airton; LIMA, Valéria Vanda Azevedo de;  BARROS, Angela Maria Abreu de. A vulnerabilidade do idoso em situações de desastres: necessidade de uma política de resiliência eficaz. Ambiente & Sociedade, v.17, n.2, pp.157-174, 2014.

MERHY, Emerson Elias; FRANCO, Túlio Batista. Por uma composição técnica do trabalho centrada nas tecnologias leves e no campo relacional. Saúde em debate, v. 27, n.65, Rio de Janeiro, 2003.

SANTOS, Divina de Fátima dos; CERVENY, Ceneide Maria de Oliveira; SILVEIRA, Nadia Dumara Ruiz. Vivendo, escrevendo e reescrevendo a vida: Encontros Intergeracionais. Revista Portal da Divulgação, n. 28, ano III, p. 111-117, 2012. Disponível em: . Acesso em 25 mai. 2016.



Fonte: Plataforma Psicossociais

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Fórum Perspectivas para Ações junto ao Cidadão – Idoso Carta de Bertioga 2013

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Fórum Perspectivas para Ações junto ao Cidadão Idoso - Carta de Bertioga 2013

Como parte das comemorações dos 50 anos do Trabalho Social com Idosos, programa pioneiro no Brasil realizado pelo Serviço Social do Comércio – Sesc – , cerca de 120 profissionais e lideranças idosas, entre técnicos, especialistas, pesquisadores, educadores e gestores, vinculados à questão da velhice e do envelhecimento, vindos de todo o Brasil, do Chile e de Portugal, estiveram reunidos de 8 a 11 de setembro de 2013, no Sesc Bertioga em São Paulo.

Neste Fórum Perspectivas para Ações junto ao Cidadão Idoso foram analisadas as atuais políticas públicas brasileiras voltadas para a velhice e propostas nas áreas de Formação e Educação Permanente:

Autonomia, Direitos e Cidadania; Gerações e Intergeracionalidade; e Cuidado e Relações Sociais.

Como resultado dessa reunião foram consolidadas as seguintes estratégias: Socioeducativas e intergeracionais; Midiáticas; Financeiras e Fiscais; Políticas intersetoriais e de cuidado, etc.  Tais estratégias estão fundamentadas na visão de um cenário mais favorável em relação ao atual momento que vivemos.

Num país contrastante como o nosso, é mais apropriado falarmos em velhices. Registre-se a posição consensual desse grupo de trabalho: as ações públicas e privadas ainda estão muito distantes do ideal para

a promoção de um envelhecimento digno. A maioria dos brasileiros sofre com a carência de serviços públicos adequados e preparados para lidar com as especificidades introduzidas pela velhice, nas áreas

de previdência, assistência, saúde, educação, cultura, lazer, trabalho, justiça, habitação, transporte, dentre outros.

Acrescentem-se o individualismo, a competição e o consumismo decorrentes dos valores predominantes de nossa época que penalizam de modo especial os velhos, vistos preconceituosamente como seres desprovidos de competências e, portanto, de serventia social. 

No Dia Internacional do Idoso, 1º de outubro de 2013, os participantes deste Fórum apresentam à sociedade brasileira, como resultado das discussões, as perspectivas e estratégias para o aperfeiçoamento das políticas sociais, com vistas a elevar a pessoa idosa a sua plena cidadania.

O Fórum considera a realidade do envelhecimento da população brasileira para as próximas décadas e antevê um cenário futuro de efetivação de políticas setoriais e de direitos, com maior protagonismo, participação social e cidadã da pessoa idosa. O pleno exercício do Controle Social Democrático se fará em articulação com o Estado e a sociedade civil organizada por meio do monitoramento dessas políticas.

Para esse cenário favorável é importante cultivar relações responsáveis, solidárias, intergeracionais e coeducativas para que se concretizem estratégias imediatas e continuadas que permitam ao conjunto da sociedade brasileira a garantia de visibilidade da diversidade na velhice, da intergeracionalidade e protagonismo da pessoa idosa; educação plena; cuidado digno e da participação da sociedade civil envolvida no monitoramento das políticas públicas.

Algumas imagens dos diferentes grupos de trabalhos

Visibilidade Da Diversidade Na Velhice, Da Intergeracionalidade E Do Protagonismo Da Pessoa Idosa 

A pessoa idosa terá suas diferenças valorizadas porque o envelhecimento será reconhecido como uma realidade social e individual única que demanda:

    1.  Interação intergeracional em novos arranjos familiares de maneira compreensiva e respeitosa;
    2. Preparação corporativa, antes e após a aposentadoria, para a participação de pessoas idosas, buscando abolir todas as formas de discriminação etária no mundo do trabalho;
    3. Programas que abordem e valorizem o protagonismo da pessoa idosa, a intergeracionalidade e as diferentes velhices;
    4. Relações intergeracionais frequentes e solidárias nos ambientes de participação social e em outros espaços compartilhados como: sindicatos, movimentos sociais, conselhos, condomínios, partidos políticos, clubes, fóruns, conferências etc.

Educação Plena

No sistema educacional como um todo, formal e informal, haverá:

  1.  Respeito e compreensão intergeracional em um ambiente de mútuo entendimento entre crianças, jovens, adultos jovens e adultos idosos;
  2.  Politização dos sujeitos sociais e reforço a experiências e ações socioeducativas intergeracionais que ultrapassem as próprias fronteiras;
  3.  Programas de capacitação e formação via instituições públicas e privadas que atuem no âmbito do envelhecimento para instrumentalizar os integrantes das organizações comunitárias, a fim de que exerçam o monitoramento das políticas públicas;
  4.  Espaços públicos intergeracionais, inclusive escolas abertas nos finais de semana, com a participação simultânea, a inclusão digital e o acesso a informações, via mídias e meios de comunicação, que contemplem a autonomia e a garantia de direitos dos cidadãos de todas as gerações;
  5.  Utilização de inovações científicas, sociais e tecnológicas que favoreçam o envelhecimento, o cuidado e as relações sociais;
  6.  Inclusão da temática do envelhecimento em todos os cursos de graduação e oferta de cursos universitários para profissionais voltados ao envelhecimento humano e ao cuidado digno em todas as esferas de atenção à pessoa idosa;
  7.  Apoio a pesquisas e criação de instrumentos para um diálogo entre a produção de conhecimentos e as políticas públicas relacionadas ao envelhecimento, bem como a valorização dos programas de extensão universitária relacionados ao cuidado;
  8.  Mapeamento das demandas; identificação e contato de parceiros; estruturação e alimentação de redes; criação de um Observatório para a adequação das grades curriculares, com a inclusão de conteúdos sobre o envelhecimento; e replicação das experiências;
  9.  Cultura de Monitoramento e Avaliação na Área da Educação Permanente com definição de indicadores qualitativos e quantitativos com a participação de todos os envolvidos.

Cuidado Digno

Os serviços públicos e privados de atenção terão maior capacidade e qualidade para cuidar do ser humano na velhice porque haverá:

  1.  Aguçamento do olhar e redimensionamento da questão do cuidado para o autocuidado, o cuidado com o outro, com o coletivo e com o planeta;
  2.  Qualificação do voluntariado e estímulo à solidariedade e responsabilidade cidadã, aproximando a sociedade e a população fragilizada;
  3.  Acessibilidade, ambiência, sustentabilidade e humanização do cuidado;
  4.  Estruturas de apoio ao Cuidado e ao cuidador, extensivas aos profissionais envolvidos, em parceria com instituições de ensino, saúde, assistência social e demais, nas diferentes modalidades legalmente previstas;
  5.  Suporte ao núcleo familiar afetado pela necessidade de cuidados prolongados, por dependência financeira, física, cognitiva e / ou emocional dos envolvidos;
  6.  Rede de cuidado integral, com participação ativa da sociedade em programas de cuidados de curta, média e longa duração, incluindo a presença de cuidadores domiciliares financiados pela seguridade social;
  7.  Mapeamento das pessoas idosas residentes na comunidade e em instituições; utilização de instrumentos de gestão para tornar visíveis suas necessidades, com vistas a cobertura integral das demandas e serviços.
Algumas imagens do encontro com alguns dos participantes

Sociedade Civil Envolvida No Monitoramento Das Políticas Públicas

A sociedade civil estará organizada em conselhos, fóruns, canais institucionais e movimentos sociais para garantir:

 

  1.  Acesso aos direitos fundamentais para toda a população, com atenção e atendimento das políticas públicas setoriais: educação, cultura, saúde, assistência, previdência, justiça, moradia, transporte, esporte, lazer, mobilidade urbana e social, dentre outras;
  2.  Respeito aos acordos e diretrizes internacionais para o cuidado ao longo da vida e em favor do envelhecimento digno, com a plena participação da sociedade civil;
  3.  Sistema de garantia de direitos articulado em rede, fortalecido e com visibilidade;
  4.  Conselhos Municipais paritários em todos os municípios, organizados em câmaras setoriais, dotados de recursos físicos, humanos e financeiros e com processo de eleição direta de seus membros;
  5.  Atuação intersetorial e em rede dos Conselhos de direitos e demais conselhos, em todas as esferas de governo para efetivação das políticas públicas em sua transversalidade;
  6.  Inclusão da questão do cuidado ao longo da vida junto a organizações comunitárias, conselhos, fóruns e órgãos, a fim de tornar públicas as questões que envolvem as políticas de cuidado;
  7.  Políticas relativas ao envelhecimento e ao cuidado instituídas e fortalecidas nos três níveis de governo, com financiamento assegurado;
  8.  Programas de educação previdenciária e de ampliação de acesso a direitos para a população idosa, incluindo aposentadoria pública com remuneração digna;
  9.  Credibilidade nas representações políticas e partidárias;
  10.  Reforma fiscal que atenda melhor as necessidades da sociedade como um todo;
  11.  Divulgação e transparência das informações dos orçamentos e os recursos públicos das políticas setoriais em redes sociais fortalecidas; conhecimento e revisão da utilização dos recursos destinados a
  12. sindicatos, associações e conselhos profissionais, exigindo a prestação de contas;
  13.  Articulação de princípios e políticas legais, entre o Estado e sociedade civil, bem como planejamento estratégico de recursos e estruturas públicas em favor das questões relativas ao envelhecimento, nos níveis federal, regional e municipal;
  14.  Intersetorialidade das políticas públicas, principalmente entre saúde, assistência social e educação – com a criação de núcleos intersetoriais, no nível local, planejando as intervenções e o financiamento juntos, integrando territórios e valendo-se de equipamentos híbridos;
  15.  Políticas habitacionais com moradias acessíveis e inclusivas em locais com acesso a saneamento, iluminação e serviços públicos de qualidade;
  16.  Prevenção, enfrentamento e punição de toda forma de violência contra a pessoa idosa, por meio de atuação em rede de entidades governamentais e da sociedade civil organizada, nos níveis federal, estadual, do Distrito Federal e municipais.

 

Comissão Organizadora do Fórum Perspectivas para Ações junto ao Cidadão idoso.

1 de outubro de 2013

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Famílias intergeracionais sob o mesmo teto estão sob o olhar analítico dos profissionais de psicologia

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Famílias intergeracionais sob o mesmo teto estão sob o olhar analítico dos profissionais de psicologia

O número de famílias com várias gerações dividindo o mesmo teto tem sido cada vez maior, tornando-se objeto de estudo de um grande número de profissionais da psicologia com  diferentes pesquisas em várias cidades do Brasil.

É cada vez maior o número de pesquisas com a temática da longevidade e do envelhecimento humano nos grandes eventos e congressos em diferentes partes do Brasil. Não foi diferente no XXXIV Congresso Interamericano de Psicologia, que este ano, acorreu entre os dias 15 a 19 de Julho de 2013 na bela cidade de Brasília. O evento teve a participação de pesquisadores de vários países da América Latina, da Europa, dos Estados Unidos, do Canadá e até mesmo da Rússia, o que favoreceu o intercâmbio de pesquisadores e assuntos. O evento contou com inúmeros simpósios, mesas redondas, pôsteres, conferências, atividades culturais, premiações e visitas a diferentes entidades de Brasília e de seu entorno. Com uma programação intensa e diversificada, foi bem difícil escolher o que ver.

A psicologia possui grandes áreas de estudo e pesquisa e, em encontros como este, pode-se ampliar o conhecimento nos mais variados temas desta ciência. Os estudos sobre as questões do envelhecimento humano que até recentemente eram bastante tímidos nesses eventos, vêm conquistando maior espaço a cada ano.

Ceneide Cerveny, Rosa Macedo e Divina

A psicogerontologia é uma área relativamente nova entre os psicólogos e há muito a crescer. Para isto, é necessário conquistar mais interessados em pesquisar sobre a velhice, o envelhecimento e seus impactos psicológicos e sociais, uma vez que a longevidade é crescente em nosso país, fruto das conquistas sociais e da melhoria da qualidade de vida entre os brasileiros. O número de famílias com várias gerações dividindo o mesmo teto, coisa não muito comum anos atrás tem sido cada vez maior. Neste congresso conhecemos um grande número de profissionais da psicologia preocupados com essa temática e que vem elaborando diferentes pesquisas em várias cidades do Brasil. Destacamos alguns destes estudos a seguir, os quais tiveram seu registro fotográfico:  da esquerda para a direita, Divina de Fátima dos Santos, Denise Maciel Lobão, Cristina Maria de Souza Brito Dias e Natália Ramos.

A Dra. Denise Maciel Lobão apresentou um estudo intitulado “aprendizagem intergeracional entre idosos e acadêmicos”, no qual relatou sobre o grande entusiasmo de estudantes de psicologia ao trabalharem com idosos e sobre a superação de preconceitos de parte a parte, uma vez que, segundo ela, no início, os jovens universitários tinham resistência e receio em trabalhar com esse público; no entanto com essa iniciativa, estudantes e idosos cresceram juntos e até passaram a fazer novos projetos de integração social. A Dra. Denise é professora de psicologia do desenvolvimento na Universidade Federal do Rio Grande (RS). Ela pesquisa e orienta seus alunos na temática do envelhecimento.

O mesmo ocorreu com a Professora da Universidade Católica de Pernambuco, Dra. Cristina Maria de Souza Brito Dias, que apresentou duas pesquisas desenvolvidas por seus alunos. Na primeira, intitulada “Saúde e qualidade de vida: concepção do idoso mais velho”, os estudantes entrevistaram pessoas acima dos 80 anos com o objetivo de verificar como estes compreendiam o próprio conceito de velhice e como avaliavam sua saúde. A segunda, intitulada “Apoio social e saúde na perspectiva do indivíduo idoso”, foi realizada por meio da análise de como os idosos se apoiam e se veem amparados socialmente; neste caso a pesquisadora apontou que as redes de apoio mais citadas foram as amizades, os familiares e os amigos, que são os grandes fatores responsáveis para um bom envelhecer. A Dra. Cristina apresentou ainda um estudo de sua autoria, sobre uma proposta de intervenção psicoeducativa com avós que criam seus netos e a relação de ansiedade e depressão entre eles, apontando pontos positivos e negativos desta relação.

A Professora Micheli C. Favaretto da Universidade de Cuiabá (MT), apresentou um estudo desenvolvido por seus alunos no CRAS – Boa Esperança de Cuiabá cujo objetivo foi trabalhar a auto estima de um grupo da terceira idade com diferentes atividades; ela relatou sobre a significativa melhora psicológica e de qualidade da saúde de seus frequentadores idosos e do quanto os alunos vem se motivando em trabalhar com este seguimento da população.

Já a doutoranda em psicologia da Pontifícia Universidade de São Paulo, Divina de Fátima dos Santos (foto), apresentou uma pesquisa realizada com idosos acima dos 70 anos, em diferentes cidades do Estado de São Paulo, na qual investigou sobre a imagem social e a identidade na velhice na atualidade. O título foi “Essa imagem refletida no espelho não é minha”. Essa pesquisa comporá um livro (Manual da Longevidade) em fase de elaboração e coordenado pela pesquisadora e professora da PUC-SP Dra. Ceneide Cerveny que contará com vários colaboradores e pesquisadores que abordarão a temática do envelhecimento humano.

A pesquisadora portuguesa Dra. Natália Ramos, da Universidade Aberta de Lisboa, apresentou um importante estudo intitulado “Relações intergeracionais e envelhecimento: solidariedade e desafios contemporâneos”. Ela, e seus colegas pesquisadores portugueses, escreveram um livro intitulado “A voz dos Avós: Migração, Memória e Patrimônio Cultural” (Cidade de Coimbra, 2012) e, muito gentilmente, convidou pesquisadores brasileiros participar do próximo encontro que ocorrerá em Portugal sobre a temática “A voz dos avós”.  Com esse mesma tema, tivemos a apresentação do trabalho intitulado “As avós entre o real e o ideal, na perspectiva transgeracional” que foi apresentado pelos pesquisadores Prof. Paulo Almeida da Universidade Estadual do Ceará, Profa. Julia Bucher-Maluschke da PUC de Brasília e Profa. Juliana Araújo da Universidade de Fortaleza (CE).

Em um congresso com tantos temas igualmente interessantes e pesquisadores de diferentes lugares, foi bem gratificante conhecer um pouco do que vem sendo estudado por nossos colegas e nos alegra saber que é crescente o número de estudantes que estão se interessando pelas questões do envelhecimento, até porque, trata-se de uma importante fase da vida a qual devemos garantir um lugar de destaque não apenas na sociedade como nos meios acadêmicos. Portanto, muitas outras pesquisas necessitam ser realizadas nesta área, por se tratar de uma fase da vida de grande relevância para a psicologia contemporânea.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica