III Encontro de Residência Pedagógica Capes

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

III Encontro de Residência Pedagógica Capes

No dia 27 de fevereiro, realizamos no Centro Universitário Módulo -Campus Martin De Sá- o III Encontro de Residência Pedagógica Capes. 

Durante o evento, contamos com o protagonismo dos residentes, na exposição dos artigos elaborados durante o programa.
Além disso, aprendemos o papel e o dever da escola e do professor, compreendemos que a escola deve ser um lugar de cultivo, curiosidade, crescimento, descoberta e experimentação.

Agradecemos todos os residentes, preceptores, coordenadores, professores, colaboração, visitantes e autoridades da educação municipal, pela presença em nosso evento, assim como pela troca de experiências, que tornaram nosso evento uma grande memória.

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Abaixo, imagens do evento:

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Universidade Aberta visita Parque Estadual Serra do Mar em Caraguataruba

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Universidade Aberta visita Parque Estadual Serra do Mar em Caraguataruba

Durante o dia 22/06/23 a aula da Universidade Livre ocorreu no Parque Estadual Serra do Mar em Caraguataruba, o passeio foi uma parceria entre o Módulo + CIAP + SEPEDI e participaram estudantes da Universidade Aberta e do Curso de Psicologia que juntos desfrutaram de uma aula diferente pois ocorreu uma grande interação com a natureza e entre gerações de estudantes. Todos/as ficaram encantados e para a grande maioria deles este foi a 1a vez que puderam conhecer o Parque da cidade. Tão perto de nós e tão distante do nosso imaginário. Ver o brilho nos olhos e a alegria de vivenciar um momento tão especial foi mágico.
Agradeço a todos que acreditaram e apoiaram esta experiência.

Confira abaixo as imagens:

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Christian Dunker: Pessoas olham a própria vida como se fosse uma empresa a ser medida pelos resultados

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Christian Dunker: Pessoas olham a própria vida como se fosse uma empresa a ser medida pelos resultados

Da BBC, por Amanda Mont’Alvão Veloso

Que nome tem o sofrimento de nossa época? Conversas do cotidiano, diagnósticos e levantamentos mundiais afirmam que é depressão. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 300 milhões de pessoas no mundo convivem com o transtorno mental, cuja incidência aumentou mais de 18% entre 2005 e 2015.

A depressão tem nomeado uma série de formas, descrições e vivências distintas, mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que se sofria de outros nomes, mas a própria recorrência do diagnóstico da depressão oferece pistas de como está nosso sistema de desejos e escolhas nos últimos 40 anos, explica o psicanalista Christian Dunker.

Professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Dunker acaba de lançar o livro Uma biografia da depressão (Paidós). Depois de falar por milhões, a depressão ganha voz para documentar sua história e apresentar seus familiares, colocando em narrativa sua existência e suas relações com trabalho, cultura e economia.

O psicanalista, que é coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, onde pesquisa as formas de sofrimento no neoliberalismo, afirma que o foco em tarefas e resultados tem inibido as perguntas sobre o desejo de cada um.

As causas daquilo que faz sofrer deixaram de importar, e uma lista de sintomas passou a servir respostas onde deveria haver mais perguntas

'Não precisamos de um batalhão de psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, especialistas em sintomas. Precisamos de muita gente atenta ao sofrimento', diz Dunker sobre o que chamamos de depressão

“Depressão e ansiedade acabam sendo duas formas de sofrer que vão compactando a narrativa, a tal ponto que o sujeito acaba se resumindo a ‘eu sou um depressivo’. Faz parte da depressão essa demissão de contar sua própria história e dividi-la com o outro”, afirma, em entrevista à BBC News Brasil.

Isso trouxe consequências.

“Durante 40 anos a gente olhou pra depressão como meramente um efeito de déficit de neurotransmissores. Portanto, não fazia diferença como você fala da sua vida, pra quem, como você se entende. Agora estamos pagando a conta desses anos que, entre outras coisas, não investiram no que podemos chamar de instâncias protetivas.”

Se há uma profilaxia para a depressão, ela precisa passar pelo cuidado consigo e com os próprios limites, explica o autor.

“Não precisamos de um batalhão de psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, especialistas em sintomas. Precisamos de muita gente atenta ao sofrimento, de práticas que transmitam para as pessoas que elas podem se cuidar e se prevenir, cada qual do seu jeito”.

Confira os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil – Como a depressão chegou ao posto de diagnóstico mais frequente para se descrever as formas de sofrimento mental em nossa época?

Christian Dunker – Existem várias condições para que a gente eleja uma determinada forma de sofrimento como aquela que melhor nos representa. Isso aconteceu ao longo da História com a histeria, a hipocondria e a melancolia. Dá a impressão de que essa palavra vai representando cada vez mais gente até que se esgota e precisa ser substituída por outra, pois passa a representar tantas variantes de sofrimento que perde sua eficácia em termos das gramáticas de reconhecimento.

“Depressão” foi eleita, e não outra, principalmente porque desde os anos 70 ela é uma forma de sofrimento onde o conflito não aparece como muito fundamental, mas, sim o jogo de intensidades: nossos afetos, ânimos, nossa motivação. Isso passa a ser muito valorizado justamente nesse momento histórico em que as pessoas começam a olhar para sua própria vida como se ela fosse uma empresa, como se ela pudesse ser medida pelos resultados; a gente entra numa cultura de avaliacionismo.

Os anos 70 inventam a ideia do no limits [não há limites], de que a gente pode e deve ser feliz, como diz a definição de “saúde” pela OMS: o mais completo estado de bem-estar bio, psíquico e social. Se isso não é uma idealização do que alguém pode esperar da vida, então não sei o que é!

Em comparação com isso, aqueles que têm outro modo de funcionamento, que estão em outro tempo, que não conseguem fazer frente à lógica do produzir e consumir, ganham visibilidade, porque é como se estivessem ofendendo não só a si mesmos e aos familiares, mas a todos nós e ao sistema. Alguém que se recusa a sair da cama, alguém que perdeu a vontade é alguém que perdeu o desejo numa cultura em que o desejo é farto, livre e identificado com o consumo; daí a visibilidade dessa forma de sofrimento.

'Alguém que se recusa a sair da cama, alguém que perdeu a vontade é alguém que perdeu o desejo numa cultura em que o desejo é farto', explica o psicanalista

BBC News Brasil – Quais as consequências desse apagamento do conflito?

Dunker – Tem teorias que valorizam o conflito, mas há também aquelas que vão dizer “olha, o conflito não é tão importante”. Acho que essas outras maneiras de pensar são adequadas ao momento atual. Vamos lembrar de 1989, ano em que o muro de Berlim cai. É o fim das utopias, da Guerra Fria, de um mundo em que a gente tinha uma geografia muito clara de direita e esquerda, Ocidente e oriente. Esse é o mundo do conflito.

Essa premissa vai sendo reduzida e aparece uma nova forma, que diz assim: no fundo, o conflito só existe pra quem não sabe gerenciar as coisas e não sabe se organizar. Porque em uma vida em estrutura de listas, em que o objetivo é relativamente simples, o conflito que você tem é local, como realizar tarefas e entregar resultados. Se a gente se orienta pra isso, não tem motivo pra se perguntar o porquê dessa tarefa ou daquela outra; o foco é no resultado, no fim. Com isso, a gente perde o foco no processo. Se você entregar o resultado, está bom.

BBC News Brasil – Como isso aparece no dia a dia?

Dunker – Se for pra virar a noite pra entregar a pauta, você vira a noite; se for pra trabalhar no fim de semana, você trabalha; se for pra prejudicar alguém, você faz isso também. Ou seja, a gente foi criando um esquema de relações profundamente ofensivo pra nosso cuidado de si e para nossa subjetividade. A desativação do conflito deu muito resultado porque fez as empresas descobrirem que ao aumentar o sofrimento das pessoas, você aumenta o resultado e a performance.

Mas isso também foi acelerado pela linguagem digital e a formação das comunidades virtuais. Se estou tendo um conflito com você, eu dou um delete, um unfollow, cancelo.

São dois procedimentos básicos que têm muito a ver com a emergência da depressão: diante da contrariedade, module a realidade: então, mude de país, de casa, de relacionamento e de ambiente. O segundo é altere a paisagem mental: tome uma coisa, cheire outra, tome outra pra dormir, acordar, transar… Se você tiver uma boa realidade construída, tudo vai ficar bem. Não, tudo vai ficar deprimido!

BBC News Brasil – Por que a narrativa contemporânea da depressão é marcada pela individualização do sofrimento, como “aquele que fracassa sozinho”, “fica à margem” e “não performa suficientemente”?

Dunker – A depressão tem um mecanismo importante que é a autoavaliação. Freud falava que o supereu observa, julga e pune. O supereu é uma interiorização de uma certa versão da lei, frequentemente patológica e obscena. É uma versão da lei que é a sua lei.

Deleuze, Foucault e vários críticos apontaram o momento em que você não precisa mais de um feitor te ameaçando e falando alto com você. Pelo contrário, o gestor é soft, ameno, tem valores humanísticos. Mas ele sabe ativar em você essa autoavaliação que já está em todos nós, mas vamos dizer, tem a preferência do deprimido.

“Estou falando com ela agora, será que está sendo interessante?”. Quando me autoavalio, não estou mais com você, estou nesse circuito superegoico. Isso produz cansaço porque é como você levar uma vida dupla: estou com as pessoas e estou na paralela com essa contabilidade íntima. A gente sabe que o cansaço abre-se para uma correlação com a depressão.

Nesse contexto, a ansiedade é como fazer valer essa lei de que “eu controlo”. Eu controlo fora. Se não controlo, é porque não tenho os meios, o dinheiro, o poder nem a fama pra fazer isso. E eu controlo dentro, tomando uma pílula, meditando.

Essa ideia da controlabilidade vai transformar minha relação com o desejo, ainda a ser nomeado, numa relação com metas e coisas que posso contabilizar. Isso é terrível porque voltando ao processo depressivo, vou começar a me relacionar com meu desejo transformando-o em demandas, tarefas. Você começa a se perguntar cronicamente “mas o que será que eu quero?” e começa a se responder numa via tipicamente depressiva que é “eu não quero isso, eu não quero aquilo lá também”.

Isso funciona como uma inibição do desejo e já não consigo sair da cama. Estou me produzindo uma inibição no desejo porque o desejo me provoca ansiedade, já que ela está ligada a métricas que não alcanço. Disso decorre um rebaixamento do eu, um sentimento de inferioridade e a progressão dessa culpabilização que tão frequentemente caracteriza o depressivo.

Tem ainda a experiência com o prazer. Um depressivo cruza uma certa fronteira quando começa a perceber que tem um problema na capacidade de sentir prazer. Ele toma mesmo vinho, dança com mesma mulher, vai ao mesmo jogo, lê o mesmo livro e não tem aquela satisfação que teve algum dia. Muitas vezes isso é dado pela dificuldade do depressivo de sustentar cadeias mais extensas de satisfação, que envolvem você ir encontrando satisfação durante o processo e não só no fim. Uma coisa característica são os prazeres rápidos, curtos e que estão à mão.

E aí você vai ter a coligação mórbida e tão frequente do depressivo com o álcool e com certas dependências, como a de pornografia.

Como uma empresa, estamos gerindo nossos desejos e emoções como uma lista de tarefas, discorre Dunker

BBC News Brasil – No livro você aborda o quanto o conceito do que chamamos de ansiedade também foi passando por uma perda da historicidade.

Dunker – Sim, e provavelmente a depressão e a ansiedade são uma coisa só. São partes de um mesmo processo em que você tem sujeitos que estão mais próximos de um polo ou de outro, mas a grande maioria trafega entre “eu me aproximo do desejo, isso me dá uma crise de ansiedade” e “eu recuo do desejo e daí faço uma crise depressiva”. Pra sair da depressão, eu volto para a ansiedade. São muitas as fórmulas que combinam essas duas coisas.

Para a psicanálise, a ansiedade é uma forma específica da angústia, e angústia tem uma dupla função: ela pode ser o início de um desejo, ou o ponto de recuo. Encontrei a angústia: eu vou pra frente e me arrisco, ou eu volto e pelo menos protejo meu eu de sofrer. Esse circuito fica mais compreensível se a gente juntar as coisas.

Mas o DSM [Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, sistema de classificação utilizado pela psiquiatria] separou e isso faz parte do universo que criou a depressão, ou seja, a ideia de que os nossos transtornos mentais já não têm mais estrutura narrativa, têm estrutura de lista. Tal e tal sintoma, então é depressão. Tal e tal sintoma, então é ansiedade. Qual é a causa? Não importa.

Depressão e ansiedade acabam sendo duas formas de sofrer que vão compactando a narrativa, a tal ponto que o sujeito acaba se resumindo a “eu sou um depressivo”. Faz parte da depressão esse déficit narrativo, essa demissão de contar sua própria história, sua vida, e dividi-la com o outro.

BBC News Brasil – Há alertas sobre a incidência de depressão durante e no pós-pandemia. Você acha que estamos discutindo as perdas o Brasil está vivendo?

Dunker – Se por um lado o descaso na condução da crise sanitária pelo governo, o desdém pelo luto e a ausência de reverência com pessoas que pertenciam à cultura constituem uma tragédia particular brasileira, por outro marcam a negação do luto, que é uma das vias pelas quais a depressão também se instala.

Tipicamente o sujeito diz “ah, não perdi nada, eu só ganhei. Isso são números, são curvas, isso aí não me afeta”. Mas afeta de um outro jeito, isso volta como uma depressão inexplicável. Vamos ver os lutos que você deixou pelo caminho.

No começo da pandemia no Brasil, os primeiros dados de pesquisa foram de aumento massivo de depressão, mas, na clínica, curiosamente isso não se confirmou tanto assim. Há casos de exceção, como quem está na frente de batalha ou os jornalistas; aí eu vejo realmente um aumento substancial de depressão e ansiedade porque ligados ao contexto.

Em outro grupo muito extenso, a gente tem vidas que diminuíram a sua aceleração e isso sempre tem um valor terapêutico para o depressivo, porque ele está lutando contra a autoavaliação e um atraso crônico em relação ao tempo do mundo. Estou sugerindo que muitos depressivos foram protegidos da sua depressão pela quarentena, pelo “fica em casa”.

BBC News Brasil – Da mesma forma, muito tem se falado sobre depressão entre crianças e adolescentes.

Dunker – Uma criança de 4, 5 anos que não se dá bem com a tela e que estava nesse momento de descoberta real do outro tridimensional. Ela teve acesso a um novo brinquedo e perdeu. Quando volta?

E você vai ter no outro lado jovens que estão no momento de “vou sair de casa, estou começando um novo momento de vida, me formando, entrando na faculdade”. Você tinha uma grande idealização numa cultura já marcada por um forte sentimento de desempenho e felicidade obrigatória. “Uhu, entrei na faculdade! Mas isso não é uma faculdade. É uma telinha, em que o cara aparece de vez em quando, nem olha na minha cara. Não é o que foi prometido”. Você vai encontrar aí alguns elementos propícios para quadros ansiosos e depressivos porque não há partilha com o outro.

Vou acrescentar um grupo a estes que você falou: o dos idosos, em que você tem, de fato, perdas que incitam a processos depressivos. Perdas reais, sem condição de elaboração do luto. Dependendo, claro, da condição de cada um, os idosos enfrentam situações em que um ano a menos não tem reposição.

Christian Dunker aponta para a situação desafiadora de crianças pequenas que estavam descobrindo o 'outro tridimensional' e, com a pandemia, perderam este 'novo brinquedo'

BBC News Brasil – Pensando nessa incidência tão massiva da depressão, qual a importância das políticas públicas de prevenção?

Dunker – Durante 40 anos a gente olhou pra depressão como meramente um efeito de déficit de neurotransmissores. Portanto, não fazia diferença como você fala da sua vida, pra quem, como você se entende. Agora estamos pagando a conta de 40 anos que, entre outras coisas, não investiram no que podemos chamar de instâncias protetivas.

Tem que olhar para as situações de sofrimento das pessoas. O sofrimento mal tratado vira sintoma. Não precisamos de um batalhão de psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, especialistas em sintomas. Precisamos de muita gente atenta ao sofrimento, de práticas que transmitam para as pessoas que elas podem se cuidar e se prevenir da formação de sintomas, cada qual do seu jeito.

Veja como é difícil inocular uma saúde pública que não seja regra geral. Esse processo de encontrar os próprios mecanismos de proteção ainda não entrou na nossa cultura. A gente tem uma cultura de “vá à academia”, “coma verde”, mas quanto a cuidar de si, as pessoas não sabem por onde começar.

Comece pela atenção ao sofrimento. Não é normal todo o sofrimento. Esse é suportável? De onde ele vem? Professores, pais, todo mundo tem implicação nisso. Esse processo de atenção ao sofrimento envolve, por exemplo, atenção a processos de isolamento. Nem sempre alguém que está num quarto jogando videogame está em isolamento, mas, às vezes está. Às vezes está fazendo isso para não ver os outros, e não como uma mediação para estar com os outros.

Mas tem que ir lá ver, conversar, investigar, porque você não vai bater o olho e ver que tem um problema. Isso tem a ver com como as pessoas narram, nomeiam. E evitar nomeações fáceis como “isso é uma depressão”: vai tomar antidepressivo. Remédio sem palavra não é bom. Palavra, em relação, protege. Principalmente quando a relação consegue produzir certos efeitos protetivos, como intimidade (confiança, porto seguro) e comunalidade (pertenço a um coletivo, um grupo, uma família).

Psicanalista e professor da USP acaba de lançar o livro 'Uma biografia da depressão' (Paidós)

BBC News Brasil – No livro você destaca a importância que o significante depressão adquiriu a partir da Crise de 1929. Qual a relação entre grandes crises econômicas e a depressão na saúde mental?

Dunker – Aparentemente o significante depressão foi antes usado na economia e depois na psicologia. Ele existia, mas adquiriu grande popularidade depois que as pessoas interpretaram um estado de mundo – falta de emprego, inflação, perda de valor, decaimento – como isso é depressão. Não vamos ignorar as condições que temos de linguagem, trabalho e desejo. O ano de 1973 é quando pela primeira vez se aplica em um país – no Chile de Pinochet – as ideias do neoliberalismo da escola austríaca. Depois vieram Margaret Thatcher e Ronald Reagan e isso se tornou indiscutível – “a economia é isso, essa é a lei geral, você tem que aceitar”. Isso foi até 2008.

Acho que podemos datar o reinado da depressão de 1973 a 2008. Não que o neoliberalismo tenha passado – pelo contrário, está mais vivo e exigindo mais de cada um de nós -, mas, porque, em 2008, parece que começamos a nos dar conta de que não está certo você impingir sofrimento ao outro para produzir mais e indefinidamente.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Mulher! Perspectivas e reflexões no contexto atual

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

LIVE: Mulher! Perspectivas e reflexões no contexto atual

Live: Mulher! Perspectivas e reflexões no contexto atual

Live que ocorreu no dia 08/03/2020, Dia Internacional da Mulher, com participação da Professora Dra Divina. Confira!

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Pandemia e o esgotamento das mulheres

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Pandemia e o esgotamento das mulheres

Por Giuliana Capello

Faz alguns meses que ouço de muitas mulheres a mesma reclamação (e eu me incluo no time): “estou exausta”.

Hoje, quando sentei para escrever este post, minha mente pensava na enorme lista de tarefas que “preciso” cumprir até literalmente cair na cama, num esgotamento que parece sem fim. Como escrever assim tão cansada, tão sem tempo pra nada, tão… tão esgotada?

Sempre foi difícil conciliar trabalho remunerado com a invisível e desprezada economia do cuidado (representada pelo trabalho com a casa, os filhos, os idosos da família).

E a pandemia chegou destampando o baú que antes sufocava esse tema em nome da “normalidade” tão conveniente a muitos.

Sim, essa droga de pandemia pintou com cores mais fortes traços que já estavam presentes em nossa sociedade. Já parou para pensar nisso?

Alguns dos temas mais comentados nesse último ano não são novidade para ninguém, não foram criados pela pandemia. Ela apenas jogou um holofote enorme em cada um deles: racismo, desigualdade social, desigualdades na educação, corrupção, negacionismos, fake news, precarização do trabalho e, claro, o machismo nosso de cada dia.

Abismo de gênero

Li em algum lugar sobre uma pesquisa que apontou esse abismo de gênero durante a pandemia. E também sobre a psicóloga ou psicanalista, não lembro bem, que contou sobre dois pacientes: um homem de 40 e poucos anos, que dizia estar levando numa boa as mudanças na rotina provocadas pela covid-19, e uma mulher na mesma faixa etária, absolutamente exausta e à beira de uma depressão.

Algumas semanas depois do início das sessões, a terapeuta descobriu algo intrigante: os dois pacientes eram casados.

Que coisa! Por que essa disparidade toda?

É claro que existem singularidades e cada pessoa sente o mundo ao redor do seu jeito. Mas não é só isso, a gente sabe. E, o pior, sempre foi assim. É que a “normalidade” de antes dava conta de disfarçar e dar retoques finos a essa crueldade.

É por isso que sempre que fico refletindo sobre estratégias para mudar o mundo, regenerar a humanidade e o planeta incluo pautas feministas ou ecofeministas. Sem isso seria mais do mesmo, seria maquiagem mal feita, piada de mau gosto.

Mulheres de diferentes extratos sociais, com experiências culturais das mais diversas estão à beira de um colapso.

No Japão, depois de 11 anos sem curva ascendente, o índice de suicídio aumentou em 2020. Mas repare: entre as mulheres, a taxa subiu 15% ano passado, enquanto que entre os homens houve uma leve redução no mesmo período.

Esgotadas e ainda mais atarefadas

Sobre as brasileiras mais vulneráveis eu nem dou conta de falar muito.

Elas enfrentam o fantasma da fome todos os dias, veem os filhos sem acesso à escola, sofrem com o desemprego, o desamparo e, não raras vezes, com a violência doméstica (que também aumentou na pandemia, apesar das dificuldades extras que enfrentam as mulheres dispostas a denunciar as agressões).

Na classe média, terceirizar serviços para outras mulheres (mais vulneráveis, sempre) era rotina de muitas famílias. As crianças ficavam parte do dia nas escolas e depois com a avó ou uma babá.

A faxineira limpava a casa e, entre os mais abastados, a cozinheira servia a mesa. E assim desandava a humanidade…

E agora? Como estamos?

As mulheres têm, hoje, ainda mais tarefas para executar, mais demanda mental e desafios de logística e planejamento que são pura adrenalina ruim.

Eu, que neste caso me considero uma privilegiada por ter um teto, comida na mesa, água potável, trabalho (muito mais incerto neste momento, é verdade), um quintal para brincar com minha filha, áreas verdes por perto para me conectar com a natureza, enfim, condições de sobrevivência mais do que garantidas, estou absolutamente exausta.

Minha agenda, que ainda é de papel porque é assim que gosto mesmo, não tem espaço para anotar todas as tarefas, que agora incluem os horários de aula online da minha filha e as tarefas que tenho que ajudá-la a fazer, as compras do dia-a-dia que, agora, são via internet, horários das entrevistas, feira, textos para entregar, boletos para pagar, aniversários de gente querida (para quem tento enviar algo por e-commerce, quando possível), os cuidados com os cães, enfim, a lista é enorme e termina por aqui para não ficar entendiante, sem graça.

Maternidade e gestão do lar

Antes de ser mãe, confesso que não tinha ideia da dimensão desse desafio. De verdade.

As mulheres mais próximas, na época, também não tinham filhos. E as que tinham pareciam bem resolvidas dentro do esquema da terceirização da infância: escola, cursos extracurriculares para passar o tempo e toda sorte de ‘entretenimento’ para distrair os pequenos até a mãe voltar do trabalho.

Durante uma entrevista para uma vaga, anos atrás, o cara me perguntou se eu teria que faltar ao trabalho para levar minha filha ao médico, ou teria alguém para fazer isso por mim. Fiquei atônita.

Naquele instante desisti da vaga dentro de mim, mas precisei dela durante um tempo e resisti a ataques machistas que me faziam chorar vez ou outra.

A lista de machismo sutil, se é que podemos chamar assim só porque não envolve tapas e socos, é enorme. E dá até preguiça. Mas é tão real que tem feito o tema pipocar aqui e ali. É claro!

A mulherada está enlouquecendo. Tem que ser a cozinheira, a faxineira, a mãe, a professora auxiliar das aulas online, a profissional produtiva no home office, a planejadora da despensa e do vestuário da família, a grande provedora da ordem mínima necessária ao funcionamento de cada centímetro quadrado do lar.

E o que fazer para reverter isso ou, ao menos, reduzir um pouco a carga?

Minha amiga, as respostas dependem do cenário real de cada uma, do contexto social, cultural, enfim, de muita coisa. É algo que passa pela aprovação de auxílio de emergência ou, melhor ainda, de projetos na linha da renda cidadã, porque a emergência é o novo normal, né não?

Passa também por mudanças estruturais na sociedade, que sempre levam tempo para surtir efeitos.

De mãos dadas, sempre

Mas, nessa história, quem sou eu pra dizer algo sobre isso? O que sei é o que sinto na pele. Nas pálpebras cansadas, nos fios brancos dos cabelos, no coração palpitando porque preciso do computador que a filha está usando para estudar.

E olha que tenho sorte (na verdade, bons critérios de escolha). Meu marido é bastante parceiro em tudo. Lava louça, cozinha, faz faxina na casa, cuida da filhota, dos cachorros, vai buscar compra no drive thru e está sempre por perto quando preciso de ajuda.

Neste momento, compaixão e empatia não podem virar palavras vazias de sentido. É cada vez mais crucial que não percamos a capacidade de enxergar saídas, de ter disposição para lutar contra o que está errado, contra o que e quem pode e – até – quer nos adoecer.

Saúde mental é algo sério. E nós mulheres precisamos dela forte, vívida, inspiradora (para nós mesmas, em primeiro lugar).

Homens com as nossas sandálias teriam surtado por muito menos, já teriam chamado a mãe, a esposa, a filha mais velha, a empregada, qualquer versão desses seres tão preciosos, mas que ainda são tratados como inferiores, menores, menos capazes, merecedoras de salários mais baixos mesmo quando executam exatamente a mesma função.

Basta dessa canalhice. E que a pandemia nos ajude, ainda que em luto pela nação que sofre, a escancarar o que somos. Poderosas por natureza, mas dignas de descanso e (auto)cuidado também. Tenho fé.

Vamos respirar juntas e esperançar, de mãos dadas, ventre quentinho e coração cheio de amor pela vida.

Agora me dá licença que vou até a pia lavar a louça enquanto ouço um podcast desses bem revolucionários… Aliás, aceito sugestões.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

O luto pela covid como processo coletivo

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Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

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O luto pela covid como processo coletivo

Em entrevista ao portal Brasil de Fato, Mariana Tavares destaca a importância dos cuidados paliativos e propões uma reflexão sobre a lógica individualista

Por Raíssa Lopes 

Mariana Tavares é psicóloga, especialista em Psicoterapia Contemporânea e em Recursos Humanos em Saúde. Integra o Conselho de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG) e recentemente se especializou em cuidados paliativos pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCM-MG).

Escreveu o artigo “Luto complicado e pandemia: possibilidades de intervenções paliativas”, juntamente com Raqueline Assunção, Renato Barreto, e sob orientação de Glaucia Tavares.

O estudo traça reflexões importantes sobre o que a pandemia de covid-19 pode revelar a respeito de como as sociedades ocidentais entendem a saúde e como se relacionam com a morte.

O Brasil é um dos piores países para morrer, porque não se preocupa com a morte

Saindo da noção da saúde mental como um processo inteira e unicamente individual, a especialista chama a atenção para a influência da realidade social na vida dos sujeitos. Em conversa com o Brasil de Fato, também reforça o poder indispensável das políticas públicas para superar coletivamente os traumas expostos e criados pelo coronavírus.

“Não dá pra ignorar, passar por cima. A gente vai precisar de uma política do luto”, diz.

Leia a entrevista:

Brasil de Fato – O que são cuidados paliativos? Por que são importantes e de que forma estão relacionados à pandemia de covid-19?

Mariana Tavares – Os cuidados paliativos representam um campo da saúde ainda não completamente regulamentado. Existem escassos serviços no Brasil e essa concepção é um pouco mais desenvolvida em outros países. A definição de cuidados paliativos é, inclusive, muito recente.

Cuidados paliativos constituem uma assistência feita por uma equipe com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do paciente e da família diante de uma doença ameaçadora à vida. Deseja prevenir e aliviar o sofrimento das pessoas frente a essas doenças.

Não são realizados apenas nos casos em que as pessoas estão perto de morrer, é uma concepção mais ampla. Existem cuidados paliativos com pessoas acamadas, por exemplo, mas também os relacionados à garantia de uma boa qualidade do fim da vida.

A nossa sociedade – inclusive profissionais de saúde – lida muito mal com a morte

Existe uma visão pejorativa dos cuidados paliativos como se fossem bobagem, como se fossem nada… Essa visão preconceituosa é muito prejudicial, porque está dizendo que a qualidade da morte não é relevante. Por isso é importante entender que a qualidade da morte tem a ver com a qualidade da vida.

O Brasil é um dos piores países para morrer, justamente porque tem uma baixa preocupação com a qualidade da morte. Isso tem a ver com a ideia de que a medicina vai apenas salvar vidas, e com a dificuldade de lidar com a morte. A morte é vista como um fracasso. Existe todo um medo, um tabu nas sociedades ocidentais.

E aí vem o pessoal dos cuidados paliativos tentando garantir uma morte, ou um cuidado, não somente centrados na tecnologia, na medicina. O modo de morrer de antigamente, com o doente em casa, cercado pelos familiares, foi migrando para uma morte solitária, dentro de um box de CTI, com a pessoa sozinha e em agonia.

O suporte social comunitário ajuda na prevenção do luto complicado

Então o mundo dos cuidados paliativos vai procurar fornecer assistência psicológica para a família, incentivar as conversas com o “eu te amo”, “eu te perdoo”… É uma visão muito maior do que é enfrentar essa terminalidade. A nossa sociedade lida muito mal com a morte, e os profissionais de saúde lidam muito mal com a morte. A gente é mal formado para pensar sobre.

A covid vem e nos dá um tapa na cara. Evidencia e desnuda tudo. A morte por covid traz todos esses componentes: solidão; despreparo das equipes na lida e no diálogo com a família; ausência desse raciocínio [de que a morte não é um fracasso] nas unidades de saúde e hospitais; sofrimento enorme para os profissionais e familiares.

E agora são justamente os profissionais os intermediários entre família e paciente durante a morte.

Exatamente. A carga sobre eles está enorme, porque são profissionais criados para salvar vidas, nessa suposição de que a morte seria uma derrota, e o tempo todo estão sendo confrontados com essa frustração. Está difícil para o sistema como um todo.

E o luto dentro dessa situação? Porque existe o luto por perder pessoas amadas, mas especialistas também apontam para o luto por perder um emprego, por mudar o modo de agir…

O luto é a perda de um vínculo, não necessariamente a perda de uma pessoa e nem necessariamente por morte. Imagine então a quantidade de luto que está por aí… Pessoas que iam se casar, que perderam emprego, renda, o medo de quem tem que trabalhar de contaminar seus familiares. É uma série de sofrimentos invisíveis.

Ao mesmo tempo, o luto é uma vivência muito individual. Existem teorias mais antigas que tentam dizer que o luto possui um determinado tempo, percorre certas fases. Elas criam quase que uma normativa sobre o luto.

É preciso pensar como promover conforto e sobrevivência para enfermeiras

É o luto sendo um processo do sujeito, e aí o modo como o sujeito o enfrenta seria próprio de cada um, de acordo com cada estrutura de personalidade. O que é possível fazer sobre isso? Quase nada. É mandar para a psicóloga. E eu acho que não, no momento não é o caso de vermos o luto como um processo absolutamente subjetivo.

Existe um conceito de luto complicado, que é quando a pessoa enfrenta mal, não dá conta de retomar a vida, adoece, deprime. Esse luto é comum em mortes violentas, solitárias, injustas, precoces. E a morte pela covid tem várias dessas características – é uma má morte, tem dor, sofrimento, falta de ar, é solitária, sem despedida.

Então nós fomos investigar se existem formas de prevenir o luto complicado, já que o luto é tão singular, tão de cada um… E sim, tem jeito.

Estudamos vários artigos, de países diferentes, e o que encontramos, resumimos em dois pontos: é possível precaver ao melhorar a qualidade da morte e garantir suporte social. E é nesse contexto que os cuidados paliativos são enormemente relevantes.

Como seria isso?

Na melhoria da qualidade da morte entram, por exemplo, os dispositivos eletrônicos. A telemedicina, as videoconferências com os familiares, os grupos com psicólogos focados nas conversas com a família etc.

O trauma causado pela pandemia vai durar muitos anos, mesmo após a vacina

Sobre o suporte social… Uma das coisas que mais alivia a morte nas sociedades são os rituais. Eles existem como uma forma de nos consolar, abrandar a dor, criar um efeito simbólico entre a pessoa amada que partiu e quem fica. Foi outra coisa que a covid cortou, né? Os velórios devem ser rápidos e sem aglomeração até mesmo para aqueles que não morreram pela covid.

Além dessas características de má morte, temos uma situação que o ritual não pode auxiliar. É preciso, então, criar maneiras de suprir essa falta da ritualização tal como a gente conhece.

Tipo criar um ambiente em casa para celebrar e se despedir da pessoa que se foi?

Aí é que está. Não com as pessoas sozinhas, não com ações individuais. É exatamente onde entra um suporte social comunitário, para tirar essa morte da situação de invisibilidade.

Existem projetos da sociedade civil que se atentam a isso, como o @reliquia.rum, da Debora Diniz [antropóloga], o @inumeraveismemorial e o Santinho. Eles visam prover homenagens que apontem a singularidade de quem morreu.

A pandemia da covid nos mostra de cara que não somos tão autossuficientes

Porque é particular, mas também é público. É preciso ressaltar: o luto pela covid não é um processo apenas individual, é um processo coletivo.

Em outros países e em algumas cidades daqui, todo dia é realizado um minuto de silêncio, é tocada uma música, ou passa algo na televisão sobre as pessoas que faleceram. É para dizer que não, essas pessoas não estão despercebidas, e nem sozinhas.

E ações como essa auxiliam na prevenção do luto complicado.

E o luto dos profissionais da saúde? Eles são um caso à parte, pois além de lidarem com o paciente e família, o Brasil é um dos países com o maior número de mortes de profissionais do setor na pandemia. É medo de morrer, de perder os amigos e colegas de trabalho…

O suporte social tem a ver com políticas públicas de enfrentamento para esse sofrimento e para o sofrimento da população no geral.

A respeito das enfermeiras e enfermeiros, é preciso pensar como promover conforto e sobrevivência para esses profissionais. Nem que seja com auxílio financeiro, ou talvez uma aposentadoria mais precoce…

Algo que demonstrasse o valor e o interesse por essas pessoas, ao invés de ficar nessa de tratá-los como heróis, como aqueles que se sacrificam e que morrem pelo outro. Eles são pessoas, que estão trabalhando duramente, com dramas e que não têm garantia. Por exemplo, os filhos dessas mulheres enfermeiras ficam com quem?

O que quero dizer é que em várias áreas haveria formas de pensar políticas públicas: mulheres, crianças, profissionais; pode-se rastrear onde estão os mortos e ver quais assistências específicas o SUS [Sistema Único de Saúde] e o Suas [Sistema Único de Assistência Social] podem fornecer; deve-se refletir o que pode ser feito na educação, na segurança pública.

É necessário questionar como está sendo pensado o conjunto de políticas como suporte para o sofrimento causado pela pandemia. E o trauma vai durar muitos anos ainda, mesmo após a vacina. A gente precisa criar uma política do luto. Não dá para ignorar, para passar por cima.

Como lidar com essa sensação de perda iminente que a pandemia gera?

Não existe uma resposta. Podemos falar do que está acontecendo… Estamos em risco e podemos ver que, enquanto sociedade, já estávamos vivendo um processo negacionista.

A negação é um mecanismo psíquico descrito por Freud. É fingir que não vê. E vemos que essa está sendo uma das formas de lidar com o medo. Só que é um “fingir que não vê” em massa. O comportamento de massa é abrir mão do seu raciocínio e transferir sua capacidade de pensar para um líder. Esse líder, como estudado há muito tempo, manipula por meio dos afetos [da emoção].

Outra forma de lidar é ter comportamento fóbico e obsessivo e se trancar dentro de casa, achar que está infectado o tempo todo, se lavar o tempo todo com álcool.

O que deveria combater isso é informação justa, correta, fidedigna, confiável, que possibilitasse a cada um se posicionar. Sempre que acontece um desastre e morre muita gente de uma vez, o papel dos líderes, dos governantes, é dar a real. É ter ações baseadas na razão. É promover esquemas de compreensão para que a população seja tranquilizada e para que haja uma normativa mais unificada possível. E é exatamente o que não está acontecendo.

Essa é a primeira pandemia do século XX. Até então, éramos uma geração acostumada a ter controle de episódios do tipo, com ferramentas e tecnologias suficientes. Você acha que a covid impacta a nossa geração de uma forma diferente do que as pandemias anteriores impactaram as gerações mais antigas?

Primeiro que é uma pandemia que atingiu todos os continentes e as outras não atingiram. Com a globalização, em poucos dias a pandemia se consolidou e se multiplicou para o mundo inteiro.

E a gente está sustentado numa sociedade tecnológica, científica e narcísica – que crê que dá conta de tudo e que supõe que tem o controle. Uma sociedade que vinha, inclusive, desenvolvendo modos de prolongamento da vida por muito tempo.

Somos uma sociedade com dificuldade de lidar com o sofrimento e com a finitude

É um choque que coloca em questão a onipotência da humanidade, e nos dá essa castração, mostrando que não, não somos os “todos poderosos”. [A covid] nos mostra de cara que não somos tão autossuficientes.

Questiona o estilo de vida capitalista, diz que a gente precisa aprender a lidar com a falta de respostas e ficar mais humilde enquanto espécie. Aprender que nós somos um dos componentes da natureza, e não os donos dela.

Além dos desafios científicos da vacina, da exploração ambiental e natureza, mostra que somos uma sociedade com dificuldade de lidar com a dor, com o sofrimento e com a finitude.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Maria Rita Kehl sobre ressentimento

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Maria Rita Kehl sobre ressentimento

A psicanálise do ressentimento como sintoma social

A atualidade do tema do ressentimento é, antes de mais nada, clínica. Essa paixão triste comparece com frequência em nossos consultórios, alimentada por acusações contra alguém ou contra o mundo todo. “Eu sofro: alguém deve ser culpado por isso”: assim Nietzsche resume a lógica do ressentido e seu apego ao dano. O ressentimento é uma constelação afetiva que serve aos conflitos característicos do homem contemporâneo, entre as exigências e as configurações imaginárias próprias do individualismo, e os mecanismos de defesa do “eu” a serviço do narcisismo. A lógica do ressentimento privilegia o “indivíduo” em detrimento do sujeito, e contribui para sustentar nele uma integridade narcísica que independe do sucesso de seus empreendimentos. Adianto a hipótese de que a versão imaginária da falta, no ressentimento, é interpretada como prejuízo.

Ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. Um outro a quem delegamos, em um momento anterior, o poder de decidir por nós, de modo a poder culpá-lo do que venha a fracassar. Neste aspecto, o ressentido pode ser tomado como o paradigma do neurótico, com sua servidão inconsciente e sua impossibilidade de implicar-se como sujeito do desejo. Mas esta é uma definição genérica demais para nos permitir focar nosso objeto.

O ressentimento não é uma estrutura clínica, e tampouco se confunde rigorosamente com um sintoma, embora se possa considerá-lo como uma solução de compromisso entre dois campos psíquicos, o do narcisismo e o do Outro. Ressentimento não é um conceito da psicanálise; é uma categoria do senso comum que nomeia a impossibilidade de se esquecer ou superar um agravo. Impossibilidade ou recusa? Na língua portuguesa, o prefixo “re” indica o retorno da mágoa, a insistência em uma queixa, a conservação ativa de uma ofensa. A partícula “re” também se apresenta em outros idiomas. Ressentiment, resentfulness, resentimiento, respectivamente em francês, inglês e espanhol. Trata-se de uma repetição mantida ativamente por aquele que foi ofendido. O ressentido não é alguém incapaz de se esquecer ou de perdoar; é um que não quer se esquecer, ou que “quer não se esquecer”, não perdoar, nem superar o mal que o vitimou.

O filósofo Max Scheler, que discute as teorias de Nietzsche a partir de uma ótica cristã, considera como “auto-envenenamento psicológico” o estado emocional do ressentido, um introspectivo ocupado com ruminações acusadoras e fantasias vingativas. Trata-se de uma disposição psicológica relativamente estável que, por um recalcamento sistemático, libera certas emoções e certos sentimentos, por si só normais e inerentes aos fundamentos da natureza humana, e tende a provocar uma deformação mais ou menos permanente tanto do sentido dos valores quanto da faculdade de julgamento [1].

Para Scheler, a constelação afetiva do ressentimento compõe-se da soma de rancor, desejo de vingança, raiva, maldade, ciúmes, inveja, malícia. Uma conjunção maligna, portanto, na qual o desejo de vingança exerce um papel predominante; a palavra ressentimento indica que se trata de uma reação – mas se esta reação tivesse sido posta em ato no momento do agravo, ainda que fosse um ato de palavra, o sentimento de injúria ou agravo teria sido aplacado.

O conceito de repressão indica que um impulso foi impedido de se efetivar. O que ocorre no ressentimento é que o ofendido não se atreve, ou não se permite, responder à altura da ofensa recebida. O “envenenamento psicológico” a que se refere o autor produz-se a partir da reorientação para o “eu” dos impulsos agressivos impedidos de descarga, gerando uma disposição passiva para a queixa e a acusação, assim como a impossibilidade de esquecer o agravo passado.

Mas observemos que, no caso em questão, esse desejo não se confunde absolutamente com uma tendência à resposta ou à defesa, acompanhada de cólera, de raiva ou de indignação”[2].

A raiva, a cólera, a indignação, impedidas de se exercer na direção do objeto, transformam-se em raiva e indignação contra si mesmo; a má consciência, como veremos em Nietzsche, é a contrapartida necessária do ressentimento. A culpa que o ressentido insiste em atribuir ao outro, responsável pelo agravo, é a face manifesta do “sentimento inconsciente de culpa”[3] que o “envenenamento psíquico” – o retorno das pulsões agressivas sobre o eu – produz. O ressentido é um vingativo que não se reconhece como tal.

Há uma diferença entre o desejo de vingança e o impulso de responder a um ataque, indignar-se contra ele ou defender-se. A vingança é uma necessidade psíquica que só faz sentido nos casos em que a vítima não foi capaz de reagir. Nesse ponto, Max Scheler [4] vale-se de uma metáfora de ressonâncias nietzscheanas: a fera capturada que morde o caçador não está tentando se vingar: está tentando livrar-se do cativeiro. A vingança decorre da falta de resposta imediata ao agravo. É “um prato que se come frio”, diz o povo; a vingança deve ocorrer depois de um tempo durante o qual o contra ataque da vítima fica como que em suspenso, adiado mas nunca renunciado, alimentado pela raiva, ou pela impossibilidade do esquecimento de uma raiva passada.

Mas no ressentimento, o tempo da vingança nunca chega. Muito menos o da justiça. O ressentido é tão incapaz de vingar-se quanto foi impotente em reagir imediatamente aos agravos e às injustiças sofridos. Voltando à constelação “maligna” enumerada acima, nenhum daqueles afetos por si só é suficiente para produzir ressentimento. O rancor que deságua em agressão, a indignação que se expressa em uma catadupa de acusações, a inveja que mobiliza o invejoso para a conquista do objeto cobiçado, não precisam perpetuar-se na forma de ressentimento. Para que ele se instale, é preciso que a vítima não se sinta à altura de responder ao agressor; que sinta-se fraca, ou inferior a ele. Ou então, na via oposta, queira ostentar uma superioridade moral. É por isso que Nietzsche o considera como qualidade dos “escravos”. Para Max Scheler, o terreno onde ele se origina, só dele, faz do ressentimento a característica dos serviçais, dos comandados, dos que se debatem em vão sob o aguilhão da autoridade.

Uma das condições centrais do ressentimento é que o sujeito estabeleça uma relação de dependência infantil com um outro, supostamente poderoso, a quem caberia protegê-lo, premiar seus esforços, reconhecer seu valor. O ressentimento também expressa a recusa do sujeito em sair da dependência: ele prefere ser “protegido” ainda que prejudicado, do que livre, mas desamparado. Com isso quero antecipar aqui que, no ressentimento, o Outro é representado pelas figuras que, na infância, tinham poder efetivo para proteger, premiar e punir a criança. É a face imaginária do Outro, à qual se endereçam demandas de amor e reconhecimento, que determinam que o ressentido se represente não como faltante, mas como prejudicado.

O ressentimento como sintoma social

Percebe-se aqui a importância política do tema; embora eu priorize abordar o ressentimento predominantemente do ponto de vista dos arranjos e negociações subjetivos, que é o ponto de vista da psicanálise, é possível perguntar se o ressentimento não seria o efeito mais provável produzido em certas condições de opressão nas quais que só resta ao sujeito “debater-se em vão sob o aguilhão da autoridade”. Como colocar em ato o saudável impulso de reação imediata aos agravos, nos casos da impotência objetiva de quem se vê diante da força de coerção do opressor? Como reagir a uma injustiça, mesmo à força de argumentos e protestos, nos casos em que qualquer reação custaria a vida do injustiçado? Sob uma ditadura militar, sob estado de exceção, sob regimes de terror, toda reação tem que ser forçosamente adiada, até mesmo para que tenha chances de sucesso. Em que circunstâncias esse adiamento forçado, esse “recuo tático”, funciona para organizar forças e amadurecer um projeto de retomada legítima do poder, e em que condições o adiamento da reação pode transformar-se em ressentimento?

O estado de exceção, segundo o filósofo Giorgio Agamben[5], impõe a suspensão de todos os direitos: só o Estado, soberano, exerce poder de vida e morte sobre todos os homens. A vida humana que perde as condições de cidadania é qualificada por ele como “vida nua”, desprovida de direitos e de garantias. Nos casos em que nenhum direito humano, nem mesmo o direito à vida, é garantido por antecipação (nisso consiste a responsabilidade dos Estados democráticos sobre a vida dos prisioneiros sob sua custódia) como detectar a implicação dos agentes sociais em relação às suas escolhas de destino, individuais ou coletivas? Nos casos em que o Estado dispõe da vida dos cidadãos, em condições de desrespeito absoluto aos direitos humanos, faz sentido pensar que o ressentimento seja uma reação provável das vítimas?

A leitura dos relatos de Primo Levi sobre os campos de concentração faz ver ao leitor que mesmo nas condições de opressão absoluta alguns prisioneiros mantiveram diante do algoz uma posição subjetiva que não predispõe ao ressentimento. Há quem seja capaz de – obrigado pela força a beijar as botas de seu carrasco – não viver esse ato de forma humilhante. A vergonha, a abjeção, escreve Levi[6], deve ficar do lado do homem que, tendo liberdade de escolha, quis forçar seu semelhante a um ato abjeto. No limite, alguns prisioneiros “escolhem” a morte como meio de preservar sua humanidade. Morrer, ou deixar-se matar, é a afirmação extrema de insubmissão sob regimes totalitários – nessas condições seria uma leviandade incluir certos casos de suicídio sob a rubrica da melancolia.

Mas a prova de que a organização dos campos de concentração sob o nazismo tinha como objetivo produzir a desumanização dos prisioneiros é que os índices de suicídio nos lager foram muito baixos. Desprovidos de qualquer implicação subjetiva em relação ao mal e à abjeção, reduzidos à condição de “coisa”, vítimas absolutas do arbítrio do Outro, os homens deixam-se abater passivamente, sem lançar mão do último recurso que distingue o humano do animal: a capacidade de escolher a própria morte. “É isso um homem?” pergunta Lévi ao leitor no título de seu livro mais conhecido.

Um outro destino para a raiva que não pode se expressar é possível? É possível passar pela condição da escravidão sem ocupar subjetivamente a posição de escravo? Creio que sim; nesse ponto é importante ressaltar que o ressentimento não é a conseqüência necessária da condição do derrotado. Ele tem mais a ver com a rendição voluntária do que com a derrota. A reação adiada que produz o ressentimento é aquela a que a pessoa se impediu por conta própria. A “fera capturada que morde o caçador” está lutando contra o cativeiro. Os prisioneiros de guerra foram vencidos em batalha, pela superioridade bélica do inimigo.

Quando uma revolta é abafada pelo poder militar, os revoltosos se vêem obrigados a recolher suas forças e esperar por condições mais favoráveis para voltar à luta. Essa “vingança adiada” não é a mesma das elucubrações mentais a que se entrega o ressentido, psicologicamente impotente para dar outro destino à sua amargura. Mas mesmo nos casos em que a derrota é imposta à força e a reação é objetivamente impedida, é possível que o adiamento prolongado da ação ameace arrefecer a disposição à luta. Nesses casos a manutenção ativa da memória do agravo, que em um primeiro tempo é necessária para alimentar a disposição dos revoltosos, pode degenerar em predisposição ao ressentimento.

Não se pode qualificar irrefletidamente como atos vingativos as convulsões sociais que põem fim aos regimes totalitários, nem de “ressentimento” o abatimento de escravos e prisioneiros impedidos à força do exercício de sua liberdade. O ressentimento não se confunde com a revolta silenciada nem com a resignação forçada que se produz sob regimes totalitários ou em sociedades fortemente estratificadas. A “vida nua” não produz ressentimento; ela é a vida humana desprovida de condições de humanidade, limitada à reprodução da sobrevivência biológica – como na escravidão, nos campos de concentração ou em situações de extrema miséria. Não é humana a vida que decorre em função da mera satisfação de necessidades, desprovida das condições que possibilitam aos homens criar alguma forma do “novo”, escreve Hanna Arendt[7].

A “vida nua” produz uma espécie grave de abatimento e resignação, mas esse estado não configura o ressentimento. Este último é o afeto característico dos impasses gerados nas democracias liberais modernas, que acenam para os indivíduos com a promessa de uma igualdade social que não se cumpre, pelo menos nos termos em que foi simbolicamente antecipada. Os membros de uma classe ou de um segmento social inferiorizado só se ressentem de sua condição se a proposta de igualdade lhes foi antecipada simbolicamente, de modo a que a falta dela seja percebida não como condenação divina ou como predestinação – como nas sociedades pré-modernas – mas como “privação”[8]. São os casos em que a igualdade é “oficialmente reconhecida mas não obtida na prática[9]” que produzem o ressentimento na política. É preciso que exista um pressuposto simbólico de  igualdade entre opressor e oprimido, entre rico e pobre, poderoso e despossuído, para que os que se sentem inferiorizados se ressintam.

Mas outra condição deve estar presente aqui: é preciso também que a igualdade da lei democrática seja interpretada como dádiva paterna dos poderosos e não como conquista popular. O ressentimento na política se produz na interface entre a lei democrática – antecipação simbólica de igualdade de direitos – e as práticas de dominação paternalistas, que predispõem a sociedade a esperar passivamente que essa igualdade lhes seja legada como prova do amor e da bondade dos agentes do poder. No Brasil, em que essas duas condições se combinam de maneira freqüentemente perversa, os movimentos sociais oscilam entre as proposições ativas de transformações sociais e as manifestações reativas, ressentidas, que expressam insatisfação popular, mas não levam a nenhum resultado efetivo no sentido do aperfeiçoamento dos dispositivos da democracia.

Não sou capaz de responder à questão sobre as condições em que uma rebelião adiada produz o ressentimento; a ação política, mesmo que atravessada pelo campo de forças do inconsciente, tem sua especificidade em relação à psicanálise. Se enumero essas questões é porque elas estão associadas ao tema do ressentimento e não podem deixar de ser pelo menos formuladas, de modo a evitar um certo reducionismo psicanalítico no trato desse tema tão atravessado pelo campo da política.

*Maria Rita Kehl é psicanalista, jornalista e escritora. Autora, entre outros livros, de Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade (Boitempo).

Notas

[1] – Max Scheler, L’homme du ressentiment (1912). Paris: Gallimard, 1958. p.14: “une disposition psychologique, d’une certaine permanence, qui, par un refoulement systématique, libère certaines émotions et certains sentiments, de soi normaux et inhérents aux fondements de la nature humaine, et tend à provoquer une déformation plus ou moins permanente du sens des valeurs, comme aussi de la faculté du jugement (tradução minha).

[2] – Max Scheler, (cit), p. 15: Mais notons bien que, dans le cas qui nous occupe, ce désir ne se confond aucunement avec une tendence à la riposte ou à la défense, même accompagné de colère, de rage ou d’indignation. (tradução minha).

[3] – A expressão é empregada por Freud em O eu e o isso (1923), para explicar a relação existente entre o sentimento de culpa e a prática de atos delinqüentes que visam o castigo, “como se o indivíduo sentisse alívio em poder relacionar este sentimento inconsciente de culpa a um ato real e atual” (p. 2274). Esse tema já tinha sido abordado por ele no texto “Os delinqüentes por sentimentos de culpa”, de 1916. Mais adiante, em O eu e o isso, Freud reafirma o caráter inconsciente de grande parte dos sentimentos de culpa em função de sua relação com a parte inconsciente do supereu, herdeiro do complexo de Édipo: “o surgimento da consciência moral está intimamente ligado ao complexo de Édipo, que permanece inconsciente”. (p. 2721)

[4] – M. Scheler, p. 19: Le terrain où il prend naissance, à lui seul, fait du ressentiment le propre des serviteurs, des commandés, de ceux qui se cabrent en vain sous l’aguillon de l’autorité.

[5] – Giorgio Agambem, Homo Sacer. Belo Horizonte: UFMG, 2002. Tradução de Henrique Burigo.

[6] – Primo Levi, É isso um homem? (1947). Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

[7] – Ver Hanna Arendt, The human condition (1958). Chicago: The University if Chicago, 1958.

[8] – O conceito de privação será mais desenvolvido no capítulo 1, “O ressentimento na psicanálise”.

[9] – M. Scheler, p. 21.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Sobre os efeitos psíquicos das aulas online em alunos e professores

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Sobre os efeitos psíquicos das aulas online em alunos e professores

Do Uol
Por Christian Dunker

 

Findo o semestre no qual fomos jogados abruptamente no ensino online podemos agora começar um pequeno balanço desta experiência. Assim como o auxílio a renda revelou a existência de milhões de trabalhadores “invisíveis”, a passagem massiva dos alunos para aulas por meio de plataformas digitais, como o Zoom, Meets ou Teams, mostrou nosso etnocentrismo digital.

Se o etnocentrismo antropológico nos faz pensar que a nossa cultura é sempre a melhor medida padrão para o julgamento das outras, o etnocentrismo digital envolve o pressuposto de que todos os alunos têm condições ideais de pressão e temperatura para uso de recursos digitais. Como se todos que estão diante de uma tela dispusessem do mesmo tipo de máquina, com bandas de transmissão estáveis e velozes, com condições de ambiente, como luminosidade e isolamento acústico que temos, por exemplo, em um escritório padrão.

Foi, portanto, uma surpresa quando descobrimos que quase 10% dos alunos do curso de Psicologia da USP, tradicionalmente um dos maiores PIBs per capta desta universidade, simplesmente não tinha computador e um número ainda mais expressivo acessava a internet por meio de telefone celular.

Lembremos que uma das noções formadoras da escolarização no ocidente moderno foi justamente a disciplina que uniformizava a experiência de aprendizagem. Isso implicava mesmos horários de entrada e de saída, períodos regulares para recreio, avaliações referidas a uma tarefa comum, classes distribuídas por idade. Sair de casa e ir à escola tornou-se um gesto formativo de nossa separação subjetiva entre a vida privada, onde as regras variam segundo o capricho das famílias, e o espaço público, onde mesmas leis valem para todos. Tudo isso aprendemos indiretamente, como uma espécie de meta-aprendizagem, como conjunto de condições para que o saber se transmita segundo um certo regime de verdade e de autoridade.

Se a escola opera uma espécie de experiência de igualdade, por seu próprio dispositivo de funcionamento, as aulas online trazem à luz as idiossincrasias privadas. Podemos desligar a câmera e sair um pouco quando a aula está chata, podemos ser interrompidos por demandas familiares, acompanhados por animais de estimação, podemos nos vestir apenas para a parte superior dos corpos.

Por outro lado, o efeito câmera traz o desagradável efeito de que podemos estar sendo “olhados” por todos, o que não é o caso na situação presencial. Para adolescentes, isso pode ser terrivelmente invasivo. Estar diante de câmeras evoca em nós um espontâneo efeito de pose ou de auto-observação, neste momento da vida é importante poder “desaparecer”. Ainda que isso não seja exatamente possível, do ponto de vista objetivo, a disposição igualizante do formato carteiras atrás, professor(a) à frente, isto acaba se realizando subjetivamente, com raros, e às vezes temíveis, momentos de participação, quando “todos os olhares se voltam para você”.

Excetuando-se este ponto, as vantagens de conforto parecem superar amplamente os custos de deslocamentos e alocação de pessoas em uma sala. Contudo, neste ponto o testemunho foi unânime: aulas online são cansativas, não rendem, dificultam sustentar a atenção e parecem não “render” nem em termos cognitivos nem de memorização, como nas “aulas de verdade”.

Isso talvez possa ser pensado à luz da hipótese mais geral, que desenvolvi em meu último livro [1], de que o conhecimento é um caso particular de nossas relações de reconhecimento, ou seja, para que um determinado saber se torne significativo e possa ser propriamente incorporado, devemos contar com as relações de reconhecimento que subjazem a relação de aprendizagem.

Relações de reconhecimento envolvem tanto a maneira como somos lidos e posicionados pelo aparato escolar, de natureza institucional, quanto a forma como somos reconhecidos no interior da escola como comunidade. Reconhecer envolve tanto os meios que me ligam ao outro, a linguagem, os discursos e sua história, quanto os agentes e ainda os atos de reconhecimento que gradualmente sedimentam as regras pelas quais produzimos valor e sentido. A experiência de ensino online corrompe seriamente esta segunda dimensão da escola e sobrevaloriza a dimensão de conhecimento como uma experiência profundamente individual.

A linguagem digital envolve várias reduções. O outro se reduz a uma imagem bidimensional de 10 ou 20 centímetros, nossos atos de fala podem ser interrompidos por uma falha na transmissão ou na emissão, não conseguimos olhar exatamente nos olhos daquele com quem falamos (se assim o fizermos temos que olhar para a câmera e enquanto fazemos isso perdemos de vista, literalmente, a imagem do outro). Isso favorece que muitos alunos simplesmente abandonem a escola, ao passo que outros, com dificuldades em sustentar suas presenças e sua corporeidade em sala de aula, agora voltem a se interessar pela escola.

Do outro lado, professoras e professores têm diante de si um pesadelo didático. É como cantar sem “retorno”. Não sabemos se os alunos estão entendendo, gostando ou repudiando o que dizemos. Não temos como ajustar a velocidade de passagem de um tema para outro, nem como sentir a “temperatura” e os efeitos do que estamos dizendo para aquela turma, naquele dia, sob aquelas circunstâncias específicas do encontro. Estamos voando no escuro, ou melhor, no espelho, pois temos que nos contentar, muitas vezes em olhar para nossa própria imagem falante na tela.

Isso desperta um dos vícios narcísicos dos professores, a tendência a auto-observação exigente e cruel. Durante uma apresentação, todos nós temos que lidar ao mesmo tempo com a relação de transmissão de conteúdo, de apresentação dos tópicos e de articulação de ideias e com uma espécie de posição que nos sobrevoa em auto-observação e autoavaliação. É aquela voz que aparece quando, durante um jogo de tênis ou de futebol , erramos uma jogada e em vez de nos concentrarmos no lance seguinte desperdiçamos nossas forças ouvindo de nós mesmos coisas como: “sou um idiota mesmo”, “errei este lance fácil de novo”, “o que vão pensar de mim?” Isso é potencializado pela possibilidade real de que os pais “entrem na situação de aula” e vigiem o trabalho dos professores. Tudo isso converge para que a avaliação da situação concorra com o próprio acontecimento da situação, mais ou menos como quando vamos a um show ou visitamos um museu e passamos o tempo todo atrás da tela.

Ter que acompanhar-se falando ou em voo cego telefônico ou às dezenas de fotinhos de alunos é uma alternativa do tipo quanto pior, pior. Mesmo a conversa paralela, que tantas vezes perturba a aula, é uma espécie de feedback sobre a recepção de nossa mensagem. Assim como na clínica o silêncio do outro lado pode ser percebido não apenas como desatenção, mas como ausência potencial.

O contexto de avaliação, tão importante em vários momentos, também está sujeito a variações importantes, perguntas difíceis podem ser respondidas com um celular. Já se tem notícia de um campeão de maratona de matemática, produto de uma banca doméstica de adultos engenheiros e estatísticos. Ou seja, a partilha entre o público e o privado que determina o espaço escolar, às vezes com os muros da escola nos protegendo da intrusão da indústria cultural e de interesses que aumentam a desvantagem entre aqueles que dispõem de massivos recursos culturais de apoio e os que lutam por mesmas oportunidades.

Estamos aqui diante do problema da distribuição desigual do acesso ao universo digital e à tecnologia em geral, como ponto sensível para o aumento das dificuldades educativas no Brasil. Esta questão se tornará mais aguda com a chegada dos exames para ingresso nas universidades. Se o direito à educação é uma prerrogativa geral de redução da desigualdade, isso não replica a diferença de oportunidades de acesso a tecnologia. Quando falamos em acesso a livros, cadernos e material gráfico, isso significa algo bastante diferente de quando se dispõe de banda larga, memória de armazenamento, máquinas potentes e cursos paralelos de informática. O sentimento de injustiça, derivado da nebulosa sensação de que “estamos perdendo alguma coisa” pode concorrer aqui para a progressão de nossa ansiedade, que já não é pequena.

REFERÊNCIA

[1] Dunker, C.I.L. (2020) Paixão da Ignorância. São Paulo: Contracorrente.           

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Filosofia no sertão: Professora faz sabedoria dos avós mudar a vida de jovens

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Filosofia no sertão: Professora faz sabedoria dos avós mudar a vida de jovens

Maria Isabel em Duas Passanges (BA), onde nasceu Imagem: Arquivo pessoal

Do Uol

Através do conhecimento transmitido de maneira oral por senhoras analfabetas que a professora Maria Isabel Gonçalves, 33, uma das ganhadoras do Prêmio Educador Nota 10 em 2020, vem transformando as vidas de jovens do ensino médio no interior da Bahia.

Graduada em Filosofia e Letras, ela dá aula no Colégio Estadual Rui Barbosa em Boninal, cidade com população de pouco mais de 13 mil habitantes situada na região da Chapada Diamantina, a 530 km de Salvador, a professora sempre testemunhou o recorrente desejo entre os jovens de deixarem o local, em busca de uma vida diferente em centros urbanos.

“A maioria quer ir para São Paulo trabalhar, não valoriza a história daqui, não pensa em continuar estudando. É uma região afrodescendente, de porcentagem quilombola, mas que não tem esse reconhecimento sobre a própria cultura, a própria origem, e tampouco sobre os próprios direitos.” A solução encontrada por ela foi recorrer ao conhecimento oral das avós dos próprios jovens para, assim, recuperar a história da região para que valorizassem o local onde nasceram e vivem. Além disso, ensinou-os a compreender melhor seus direitos. Assim nasceu o projeto “As filosofias de minha avó: poetizando memórias para afirmar direitos”

Histórias do passado que valorizam o presente

Através do conhecimento transmitido de maneira oral por senhoras analfabetas que a professora Maria Isabel Gonçalves, 33, uma das ganhadoras do Prêmio Educador Nota 10 em 2020, vem transformando as vidas de jovens do ensino médio no interior da Bahia.

Graduada em Filosofia e Letras, ela dá aula no Colégio Estadual Rui Barbosa em Boninal, cidade com população de pouco mais de 13 mil habitantes situada na região da Chapada Diamantina, a 530 km de Salvador, a professora sempre testemunhou o recorrente desejo entre os jovens de deixarem o local, em busca de uma vida diferente em centros urbanos.

“A maioria quer ir para São Paulo trabalhar, não valoriza a história daqui, não pensa em continuar estudando. É uma região afrodescendente, de porcentagem quilombola, mas que não tem esse reconhecimento sobre a própria cultura, a própria origem, e tampouco sobre os próprios direitos.” A solução encontrada por ela foi recorrer ao conhecimento oral das avós dos próprios jovens para, assim, recuperar a história da região para que valorizassem o local onde nasceram e vivem. Além disso, ensinou-os a compreender melhor seus direitos. Assim nasceu o projeto “As filosofias de minha avó: poetizando memórias para afirmar direitos”

A tarefa de casa aplicada pela professora aos alunos era bastante simples: registrar, em áudio ou vídeo, as histórias relatadas por suas avós; em seguida, fotografar locais, objetos ou paisagens que haviam aparecido em tais relatos. A atividade encontra sua base teórica no francês Henri Bergson e na filosofia africana Ubuntu, tendo como objetivo exercitar reflexões acerca da região.

A corrente filosófica Ubuntu foi fonte de inspiração para Maria Isabel, uma vez que ela analisa como os relacionamentos entre as pessoas e o lugar onde vivem formam uma parte fundamental para entender uma sociedade. Muitas vezes é resumida com a frase “Eu sou porque nós somos”.

“Estudando filosofia africana, me veio essa ideia de tentar encontrar seus resquícios dentro da cultura das comunidades negras aqui na Chapada. Quando me deparei com ela [Ubuntu], vi que ela fala do ‘nós’, do coletivo. Toda a nossa proposta tinha de ter um olhar desenvolvido para a comunidade, tinha de partir daqui. Eu queria mostrar que no nosso mundo também tem filosofia, nossas avós têm conhecimento”.

Maria Isabel, portanto, não apenas fez com que a memória dos povoados – que até então não era registrada – fosse resgatada, como também estimulou nos jovens a enxergarem de forma positiva o local onde vivem.

“Quando eu perguntava sobre o povoado, eles respondiam com desânimo. A visão é que aqui é um buraco. ‘Tem nada não, professora.’ Eu queria que eles entendessem as riquezas que é esse mundo da gente”, conta Maria Isabel.

 O projeto se iniciou com o terceiro ano do ensino médio. Depois de registrado, cada grupo apresentaria seu trabalho para a escola em um evento no final do ano letivo. A professora afirma feliz que o resultado foi “muito além do imaginado”. Mesmo após alguma relutância, um dos grupos que mais dava trabalho acabou aderindo à ideia passando a acionar a professora apenas para reportar com empolgação o progresso da atividade.

A professora Maria Isabel Gonçalves (no topo à direita) e seus alunos no povoado do Machado (BA) Imagem: Arquivo pessoal

A iniciativa colecionou relatos divertidos e histórias comoventes, bem como imagens de lindas paisagens da chapada baiana e até mesmo poemas com histórias do lugar. Mas não parou aí: a atividade ajudou a transformar a relação que os jovens tinham o local.

A professora relata, inclusive, que um dos grupos chegou a visitar nascentes mortas. Alguns dos rios só enchem com a chuva e devido à época da seca, estavam minguando. “Eles registraram tudo e falavam, espontaneamente, sobre o sonho de revitalizar essas nascentes”, diz Gonçalves.

 A atividade, no entanto, foi além da conversa. Neste ano, já formados, alguns dos alunos se aproximaram de agentes regionais do Ibama para revitalizar a área.

“Eles se engajaram, começaram a conversar com os pais e avós sobre a situação, para falar da influência da ação do homem na natureza. Os mais antigos pensam que a natureza está morrendo porque é assim mesmo e eles agora querem explicar”, relata, orgulhosa

Histórias de bisavó

A ideia que originou a atividade dos relatos deriva da experiência familiar de Maria Isabel. A professora cresceu em meio a área rural do município de Seabra, vizinho a Boninal. Os pais viviam do trabalho no campo, plantando tabaco. A cidade grande era um lugar quase imaginário, um mundo distante, que ela e os amigos buscavam ao desafiar os limites que o marasmo do campo lhes impunha.

“O mundo da gente [na área rural] é muito diferente. Quando era pequena, não tinha livros, só os didáticos da escola. No meu primeiro contato [com literatura], fiquei deslumbrada. A leitura transformou a minha vida”, conta.

Sem possuir televisão e contando apenas com alguns poucos livros, Maria Isabel cresceu ouvindo histórias da mãe, que contava sobre os povoados locais e sobre a bisavó Iaiá Lia, parteira e rezadeira que acabou veio a ser uma líder negra da comunidade.

Tornando-se viúva antes de completar 30 anos, Iaiá criou os filhos fazendo partos. Não era remunerada com dinheiro, mas com insumos como com galinhas, pratos de feijão ou qualquer porção de alimento. Analfabeta, ela transmitia seu conhecimento à família e a outros moradores na base da conversa

Como Lia morreu poucos meses depois de Maria Isabel nascer, a professora não a conheceu. Suas histórias, porém, permaneceram e abriram seus horizontes.

“Essa contação de história foi meu primeiro conhecimento de mundo. Analfabeta, era ela a pessoa que ensinava. O projetou surgiu para trazer esses saberes das mulheres negras como um conhecimento filosófico”, explica a docente. “O povo daqui também tem e faz filosofia”

A educação como ferramenta de transformação social

A conscientização quanto às origens é apenas uma das diversas características do projeto. O escopo principal, explica a professora, é fazer com que os alunos entendam que têm direito a um futuro diferente de tantos conterrâneos que deixam o povoado.

 “O sistema educacional é feito para não funcionar. A gente, que está ali lutando, sabe. O mundo faz [os jovens] desprezarem o lugar em que vivem e muitos acabam indo embora para São Paulo ser peão em obras ou trabalhar como empregadas domésticas. Essa base já está tão emaranhada que eles não têm nem a perspectiva de entrar em faculdade”, conta

Maria Isabel objetiva, junto a outros professores que também ensinam na região, utilizar a escola como a fonte primária para uma transformação social, atuando para que esses jovens possam alcançar um futuro melhor. “A proposta final [do projeto] é que eles percebam seus direitos a educação, saúde e a um ambiente melhor, que são negados o tempo todo. Aqui, um jovem não tem acesso a nada, eles não têm uma biblioteca”, lamenta.

Empreender toda essa mudança social é uma questão que ainda apresenta inúmeros obstáculos, ela reconhece, mas ainda se mostra empolgada. “A escola é a única forma de transformação social, falo pela minha vida. [A educação] transforma as comunidades, que têm muita coisa para ensinar ao Brasil e ao mundo.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica