Educação e Velhice

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Educação e Velhice

Este trabalho resultou da realização de um estudo sobre o conteúdo de cartas, utilizadas como forma de comunicação entre idosos e crianças, visando verificar a forma de interação vivenciada entre eles e a identificar os significados desta troca. Trata-se de uma pesquisa qualitativa baseada em entrevistas com idosos e nos dados coletados das cartas escritas por estudantes do curso da EJA (Educação de Jovens e Adultos) com idades variando entre 18 e 72 anos em fase de alfabetização e pelas crianças do ensino regular com idades entre 8 e 10 anos que frequentam uma das unidades da rede SESI-SP – Serviço Social da Indústria de São Paulo. A troca de cartas entre os estudantes ocorreu no período de 2008 e 2009. Foram selecionados 12 alunos como sujeitos da pesquisa, sendo seis idosos na condição de avós, com seus respectivos correspondentes, as seis crianças. Os assuntos abordados nas cartas deram abertura para inúmeras discussões. Os dados foram analisados e apresentados tendo como referência temas como: religiosidade, sonhos, as palavras certas, o mundo do trabalho e a aposentadoria, a alteridade, a comunicação pictográfica e por símbolos e a troca de olhares, todos igualmente envolventes, pois provocaram reflexões tanto por parte das crianças quanto por parte dos idosos. A análise dos dados, além de permitir a caracterização dos sujeitos envolvidos, aponta que a troca de cartas promove a interação dos estudantes e favorece o processo de mudança de atitudes e de construção de valores éticos importantes na vida escolar, familiar e social tanto dos idosos quanto das crianças participantes. As alterações ocorridas por meio dessas vivências podem propiciar ou facilitar um convívio mais saudável entre diferentes gerações no âmbito da escola e nos mais diferentes espaços sociais da vida cotidiana.

para saber mais, adquira já o seu volume clicando aqui!

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Semana do Idoso em Caraguatatuba 2011: Envelhecer é viver

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Semana do Idoso em Caraguatatuba 2011: Envelhecer é viver

Caraguatatuba promove evento com objetivo de eliminar a invisibilidade da pessoa que envelhece. Aliás, essa é a maior queixa de grande parte dos idosos do litoral Norte de São Paulo.

A cidade de Caraguatatuba no litoral Norte de São Paulo vem se destacando na região e se tornando exemplo a ser seguido pelas cidades vizinhas no que se refere ao tratamento dado a pessoa idosa. Neste ano de 2011, com apoio de várias entidades, tivemos uma intensa agenda dedicada aos eventos comemorativos para a semana do idoso. Dessa forma, as autoridades locais, organizadores e parceiros ampliaram o calendário do município destinado ao tema.

O objetivo do evento foi chamar a atenção da população local no sentido de eliminar a invisibilidade da pessoa que envelhece. Aliás, essa é a maior queixa de grande parte dos idosos. Eles afirmam que, conforme vão envelhecendo vão sendo esquecidos e ignorados por boa parte da sociedade e, muitas vezes, inclusive, pelos próprios familiares. A prefeitura da cidade, por meio das suas secretarias da Educação, da Saúde, dos Esportes, da Assistência Social e do Turismo, entre outras secretarias, promoveu uma grande mobilização na cidade, para quebrar essa “invisibilidade” e despertar nas pessoas a sensibilidade para entender que envelhecer faz parte do processo humano: estamos todos envelhecendo e, certamente, seremos velhos algum dia, basta deixar o tempo passar. Assim sendo, se desejamos ser respeitados nas nossas velhices, devemos já educar e conscientizar as pessoas sobre o assunto.

Início das atividades

Os eventos comemorativos da semana da pessoa idosa tiveram início no dia 17/09/2011 no Centro Esportivo da cidade, com uma grande festa, pois nesse dia, além da abertura oficial, ocorreram várias atividades esportivas. Um dos objetivos foi a realização da eliminatória de diferentes modalidades esportivas, cujas competições integram os jogos do JOREMI – Jogos Regionais Municipais do Idoso – que se estenderam até o final do dia 18/09/2011. Dessa forma, com a realização das competições, definiram-se os representantes da cidade de Caraguatatuba no JORI – Jogos Regionais do Idoso.

Segundo os organizadores, a proposta de realizar os jogos juntamente com a comemoração da semana do idoso, visava sensibilizar as pessoas sobre a necessidade de praticarem algum esporte, de manterem-se ativos e, dessa forma, prevenirem doenças e promover uma melhor qualidade de vida como um todo, assim estimulando as pessoas de todas as idades participantes desse evento a iniciarem alguma modalidade esportiva que melhor se adequasse ao estilo de vida de cada um, não necessariamente visando uma competição.

O terceiro dia de atividades ocorreu no CREMI – Centro de Referência da Melhor Idade – sob a coordenação de Marta Borges que contou com toda a sua equipe de profissionais e vários voluntários. Com uma equipe bastante dedicada à causa do idoso, todos foram sensíveis de modo a preparar inúmeras atividades para seus frequentadores, bem como para seus familiares. Todos foram convidados a participar de vivências estimuladoras que incluíram atividades recreativas, ginásticas e produções manuais com o objetivo de elevar a autoestima dos idosos, e assim torná-los mais participativos tantos em seus lares como na sociedade. Estas atividades provocaram momentos de autorreflexão e estimularam a ação e a participação social de forma mais relevante em suas vidas.

Mas não foi só isso, nesse dia, o CREMI recebeu a visita das crianças da APAE (Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais) da cidade, que fizeram várias apresentações de dança e música para os presentes. As apresentações foram de tal sensibilidade e delicadeza que provocaram grandes emoções aos presentes. Alguns idosos chegaram a falar que ao assistir as apresentações das crianças ficaram mais fortalecidos e com mais vontade de conquistar desejos adormecidos, inclusive voltando a sonhar. “Nada é impossível!” disse Sr. Francisco (78 anos) após ver a apresentação das crianças.

Com o apoio da Secretaria do Esporte, os moradores dos bairros mais afastados do centro da cidade, como as regiões sul (Bairro Travessão) e norte (Bairro Massaguaçu), também vivenciaram diferentes atividades recreativas e esportivas. Os idosos puderam participar de todos os eventos com seus familiares e amigos, neste caso, o objetivo foi envolver a família de forma a estimular e aproximar pessoas de diferentes idades e interesses. Para que todos pudessem participar, professores e organizadores realizaram atividades variadas e interativas.

Uma lembrança àqueles comumente esquecidos

Uma das queixas pontuadas por vários idosos membros do Conselho dos Idosos, como a sua atual presidente, a Sra. Cida Waak, foi em relação aos idosos das casas asilares que normalmente são esquecidos tanto pela sociedade quanto por muito de seus próprios familiares. Segundo sua fala, a semana do idoso deveria também contemplar o despertar para a consciência das pessoas nestas condições.

Para contemplar essa necessidade, os organizadores do evento programaram uma tarde de visita ao Lar Pró Mais Vida e ao Lar Vila Vicentina. Sob o comando das professoras de Dança Sênior, Maria José, e de Ginástica, Amanda Marques, com a participação de muitos idosos frequentadores do CREMI e a colaboração dos responsáveis dos locais foi promovida uma tarde de atividades diferenciadas como músicas e brincadeiras envolvendo e incluindo os residentes destas instituições, o que tornou a tarde mais agradável e descontraída. A visita foi aprovada pela maioria dos internos presentes, já que alguns deles informaram que raramente recebem visitas de familiares e que o encontro trouxe um pouco de alegria aos residentes. Alguns se emocionaram e solicitaram a nós que o encontro da tarde se repita em outras oportunidades. “Você precisa vir aqui nos visitar mais vezes para conversar mais com a gente” disse um senhor, que vive ali a apenas seis meses, à psicóloga Divina dos Santos e, muito emocionado apertou com bastante força a sua mão no momento de se despedir, num gesto claro de agradecimento. O CCTI – Centro de Convivência da Terceira Idade reservou o dia de sábado (24/09/2011) para desenvolver suas atividades para com os idosos, seus familiares e toda a comunidade local. Nesse dia, a ordem foi se descontrair, relaxar e melhorar as relações sociais e a qualidade de vida com atividades que favoreçam as novas relações.

No dia 27/09/2011, a festa foi na Praça Candido Mota e contou com a participação de todos os idosos, familiares, convidados e pessoas que passavam pela praça. A Universidade Aberta da Terceira Idade do Centro Universitário Módulo marcou presença com uma exposição de quadros e a performance do coral com seus alunos para os presentes.

A proposta visava chamar a atenção dos populares e moradores locais convidando-os a participarem do evento para fazê-los compreender que independentemente da idade das pessoas, o mais importante é a sua vivacidade, os seus desejos e os seus sonhos. Sim! Os idosos também sonham. Assim sendo, o objetivo era que os participantes desse evento, que tivessem em seu meio uma pessoa idosa, como avô, avó, bisavô, bisavó ou vizinho, passassem a olhar com um olhar mais respeitoso para essa pessoa. Afinal, o desejo dos “envelhecentes” é poder viver com dignidade, independentemente da idade e da classe social. Assim, todos ali presentes puderam participar de jogos, brincadeiras, palestras informativas e inúmeras outras atividades apresentadas na praça, tomando consciência de seus papeis no mundo atual.

Após esta intensa programação, a finalização das atividades foi no dia internacional da pessoa idosa (01/10/2011) com um grande baile promovido pela Associação dos Aposentados da cidade em grande estilo, agitando toda a comunidade.

A proposta visava chamar a atenção dos populares e moradores locais convidando-os a participarem do evento para fazê-los compreender que independentemente da idade das pessoas, o mais importante é a sua vivacidade, os seus desejos e os seus sonhos. Sim! Os idosos também sonham. Assim sendo, o objetivo era que os participantes desse evento, que tivessem em seu meio uma pessoa idosa, como avô, avó, bisavô, bisavó ou vizinho, passassem a olhar com um olhar mais respeitoso para essa pessoa. Afinal, o desejo dos “envelhecentes” é poder viver com dignidade, independentemente da idade e da classe social. Assim, todos ali presentes puderam participar de jogos, brincadeiras, palestras informativas e inúmeras outras atividades apresentadas na praça, tomando consciência de seus papeis no mundo atual.

Após esta intensa programação, a finalização das atividades foi no dia internacional da pessoa idosa (01/10/2011) com um grande baile promovido pela Associação dos Aposentados da cidade em grande estilo, agitando toda a comunidade.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

A escrita como possibilidade coeducativa: aproximando gerações

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

A escrita como possibilidade coeducativa: aproximando gerações

DIVINA F. SANTOS
NADIA D. R. SILVEIRA

Re s u m o

Este artigo é resultado de um estudo sobre o conteúdo de cartas, utilizadas como forma de comunicação entre idosos e crianças, com o objetivo de verificar o modo de interação vivenciado entre eles e identificar os significados desta vivência intergeracional. Trata-se de uma pesquisa qualitativa baseada nos dados coletados das cartas escritas nos anos de 2008 e 2009, por estudantes do curso da Educação de Jovens e Adultos (EJA), com idades variando entre 18 e 72 anos em fase de alfabetização, e pelas crianças do ensino regular com idades entre 8 e 10 anos de uma das unidades da rede Sesi-SP – Serviço Social da Indústria de São Paulo. Para este estudo foram selecionados seis alunos idosos da EJA, na condição de avós, e seus respectivos correspondentes, as crianças. A análise dos dados aponta que a troca de cartas promove a interação dos estudantes e favorece o processo de mudança de atitudes e de construção de valores éticos importantes na vida escolar, familiar e social, tanto dos idosos quanto das crianças participantes. Os resultados constatados indicam que essa vivência propicia ou facilita um convívio mais saudável entre diferentes gerações no âmbito da escola e em outros espaços sociais da vida cotidiana, frequentados tanto pelos idosos quanto pelas crianças.

Palavras-chave: relações intergeracionais; coeducação entre gerações; crianças e idosos – pesquisa – São Paulo/SP.

Este trabalho se originou de pesquisa realizada a partir da vivência de uma experiência pedagógica de troca de cartas entre alunos de uma das unidades escolares da rede do Serviço Social da Indústria de São Paulo (Sesi-SP), mais especificamente entre alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA) e crianças do ensino regular, o que resultou na dissertação de mestrado “Relações intergeracionais: palavras que estimulam”, apresentada na PUC-SP (SANTOS, 2010).

Embora se reconheça o uso de cartas como prática educacional de grande valor, o foco de interesse deste estudo se direcionou para a perspectiva intergeracional, com o objetivo de analisar as relações entre alunos de diferentes idades, as preocupações e expectativas que os cercam neste contexto, os resultados deste relacionamento como estimuladores à construção de uma convivência respeitosa, pautada em valores éticos e morais entre cidadãos de diferentes idades, resultados estes observados tanto na escolarização formal como no âmbito familiar e social de modo geral.

A aproximação de diferentes gerações, sobretudo entre jovens e idosos, pode promover e favorecer o crescimento emocional de ambos, enfraquecendo os preconceitos e estimulando o desejo de viver plenamente a vida cultural e social. A relevância dessa aproximação entre gerações tem implicações sociais e emocionais, que muitas vezes atuam como auxiliar para melhorar a autoestima (GOLDFARB e LOPES, 2006, p. 1.378).

A partir das reflexões apresentadas, e destacando o novo papel que se espera da escola na atualidade, torna-se perceptível o valor da vivência intergeracional, como no caso da experiência em pauta, que revela o significado da coeducação entre crianças e idosos, o que permitiu, por meio da realização de um processo diferenciado de comunicação por intermédio de cartas, desencadear novas formas de relacionamento e consciência em relação ao mundo em que vivem.

Confira a revista completa aqui!

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Família e Comunidade em foco: Entrevista com Divina dos Santos

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Família e Comunidade em foco: Entrevista com Divina dos Santos

Esta seção da Nova Perspectiva Sistêmica procura trazer para os leitores temas relevantes das áreas de saúde, educação e desenvolvimento social. Neste número, entrevistamos a psicóloga Divina de Fátima dos Santos, pedagoga, psicóloga, mestre em gerontologia e doutoranda em psicologia clínica na PUC-SP.

O trabalho desenvolvido por Divina foi premiado na II Mostra Estadual de Práticas Inovadoras em Psicologia, realizada em dezembro de 2011, pelo Conselho Regional de Psicologia e divulgado no jornal do CRP, edição 172.

O projeto “Encontro de Gerações”, desenvolvido em Caraguatatuba, utiliza a troca de correspondência entre crianças e idosos para desencadear um processo de mudança de atitudes e de construção de valores éticos.

A troca de correspondência, algo aparentemente simples, gerou envolvimento tanto das professoras das crianças, Eliana Aparecida Oliveira, Tânia Espírito Santo e Katia Aparecida Viana, que acompanharam os alunos na produção das cartas, como das famílias dos participantes. Embora não fosse o objetivo do projeto, o interesse em escrever cartas fez com que muitas crianças tomassem consciência de suas dificuldades com a escrita e evoluíssem bastante motivadas pelas tarefas do projeto.

O acompanhamento dos idosos foi feito por Divina em encontros semanais no Centro de Convivência da Melhor Idade – CREMI. Conversando com cada um deles sobre os significados da troca de correspondência, ela verificou como a concepção que tinham sobre as crianças mudava para alguns, enquanto, em outros casos, o ido-so, após o encerramento do projeto, manifestava a vontade de ajudar a criança com quem havia se correspondido em alguma situação de vulnerabilidade.

Da escolha da profissão à Gerontologia

Helena Maffei Cruz (NPS): Como foi o caminho para escolher a psicologia como profissão?

Divina dos Santos (DS): Antes de estudar psicologia, eu me graduei em pedagogia. Acredito que foi um processo natural, pois a interdisciplinaridade, de certa forma, sempre fez parte da minha vida: no meu caso, ambas as graduações se complementam e auxiliam na atuação profissional cuja caminhada sempre se manteve em duas frentes, tanto como educadora quanto como psicóloga, e em distintos locais e com pessoas de diferentes idades.

NPS: O que lhe causou mais interesse durante a graduação?

DS: Foram diversas coisas. Vale lembrar que muitas de minhas descobertas ocorreram na faculdade em ambos os cursos. Passei a maior parte da infância vivendo em um sítio localizado numa cidade pequena no interior do Estado de São Paulo, de modo que as pessoas que estavam à minha volta tinham pouca escolaridade. Tive, porém, a sorte de, em meu caminho, encontrar grandes professores verdadeiramente comprometidos com o ensinar, e me encantei com muita coisa que estudei e li durante a graduação, na qual também tive amigos entusiasmados e que muito me influenciaram ao longo da vida. Além disso, sempre fui bastante interessada por tudo que fiz e faço até hoje. A paixão me move. Algumas disciplinas que fizeram diferença em minha vida foram filosofia e sociologia, por ampliarem minha visão sobre o mundo e me ajudarem a compreender minha realidade.

E a antropologia, que me fez entrar em contato com minhas raízes e entender a miscigenação do povo de nosso país, valorizando-o e respeitando-o nas suas diferenças. Também as várias disciplinas da psicologia, do psicodrama e da psicopedagogia me tornaram mais humana e sensível. Aos poucos, fui amadurecendo e percebendo as diversidades, dificuldades e complexidades do nosso povo ao longo da minha formação, e depois fui percebendo que somos fruto da cultura, da história, do tempo e das oportunidades a nós oferecidas, entre tantas outras coisas. Assim, comecei a me interessar verdadeiramente pelas pessoas, suas alegrias, suas tristezas, suas maneiras de viver e se relacionar com o mundo.

NPS: Como foram seus caminhos profissionais?

DS: Tive a oportunidade de trabalhar com diferentes coisas ao longo da vida. Iniciei meu caminho profissional na área de Recursos Humanos em grandes empresas. Depois, aos poucos, fui direcionada para a área da educação e da psicologia.
Por um longo tempo, prestei atendimento à comunidade, como psicóloga e pesquisadora, nas clínicas-escolas da PUC, da USP e da SOPSP (Sociedade de Psicodrama de São Paulo), enquanto me aprimorava por meio de diferentes cursos de extensão. Desde minha formação em psicologia e em psicopedagogia, também venho trabalhando em consultório particular. Como professora e psicopedagoga, trabalhei com alfabetização no curso de EJA (Educação de Jovens e Adultos) durante muito tempo, com crianças que apresentavam dificuldade de leitura e de escrita nas escolas municipais em convênio com a PUC-SP. Esses trabalhos me fizeram crescer tanto como educadora quanto como psicóloga, no sentido de compreender melhor o ser humano com suas limitações, desejos, perseverança e em relação à superação de desafios nos inúmeros obstáculos existentes na vida de cada um, começando pela fome.

NPS: O que a levou à gerontologia?

DS: Passei boa parte da infância com minha avó e acredito que nossa convivência favoreceu minha admiração, fascínio e interesse em ouvir suas histórias de vida, não apenas as dela, como também a de todas as pessoas idosas que tive a oportunidade de conhecer. Lembre-se de que, quando eu era criança, não existia Internet nem Google. Naquela época, os velhos eram os únicos detentores do saber e eram valorizados por isso.
Tive a experiência de cuidar de meu pai, que sofreu da doença de Alzheimer, vindo a falecer aos 78 anos, período no qual pensei muito sobre a impotência e os limites do ser humano. Sofri e aprendi muito com sua doença e morte. De certa forma, essa experiência também despertou meu interesse em saber mais sobre o processo de envelhecimento, suas limitações e peculiaridade positivas. Penso que todos esses fatores de ordem pessoal, somados ao fato de eu ter trabalhado como professora de EJA na rede SESI–SP (Serviço Social da Indústria), me direcionaram para a Gerontologia.

Quando fui professora de alfabetização de jovens e adultos, a convivência em sala de aula com alunos de idades avançadas, mas cheios de esperanças e desejos por novas conquistas, possibilitou-me experimentar uma vivacidade que me surpreendia nas jornadas de trabalho. Na sala de aula na qual atuava como professora, ocorria, a cada noite, uma troca de energia que é difícil de explicar. Aquilo me fazia sentir renovada e estimulada a correr atrás dos meus sonhos, visto que alguns alunos idosos, até mesmo septuagenários, estavam ali, na minha frente, buscando um sonho que ficou adormecido no tempo, mas não esquecido: o de se alfabetizarem e de se tornarem leitores e poderem desvendar o mundo pelas letras.

Eu ficava curiosa em saber mais sobre aqueles alunos tão especiais e que, naqueles momentos, encontravam uma possibilidade de transformarem suas esperanças em realidade. Fui tomando consciência de minha responsabilidade, pois eles depositavam em mim a possibilidade de concretização de seus sonhos. Embora muito simples, humildes e iletrados, traziam em suas bagagens muitos ensinamentos, experiências de vida e desejos de continuar conquistando as coisas que o mundo contemporâneo oferece, bem como aquelas que não tiveram oportunidade de vivenciar e de aprender quando eram mais jovens. Por isso, digo que minha caminhada para a gerontologia foi bastante influenciada por essa experiência docente.

Origem do Projeto "Encontro de Gerações"

NPS: Como surgiu o projeto “Encontro de Gerações”?

DS: Em verdade, o projeto surgiu inicialmente como um trabalho pedagógico para a EJA: eu queria estimular meus alunos a escrever e melhorar suas narrativas, já que uma das funções de um alfabetizador é ensinar as regras correspondentes básicas e despertar nos alunos o interesse tanto pela leitura quanto pela escrita. Como sabemos, escrever cartas é um excelente recurso pedagógico muito utilizado em escolas. Em geral, meus alunos eram inseguros, tinham medo de escrever e eu precisava encontrar uma forma de estimulá-los e fazê-los superar seus temores, além de tornar o processo de escrita prazeroso para eles. Então convidei outras professoras na escola na qual trabalhava para fazer esse processo de troca de cartas com os alunos (no caso, crianças em processo de escolarização, que estivessem no mesmo nível de aprendizagem, para que, de fato, pudessem compreender e ajudar uns aos outros na aquisição e superação das dificuldades da escrita.

No início, os alunos adultos mais velhos ficaram desconfiados da proposta, e muitos se recusaram a participar do projeto. Eles não acreditavam que crianças tão pequenas fossem capazes de compreendê-los. Além disso, a autoestima deles era tão baixa que não acreditavam que suas histórias de vida pudessem ser interessantes para alguém, principalmente para uma criança. Para motivá-los a participar, exibimos na escola dois filmes importantes, seguidos de debates com os alunos:“Central do Brasil” e“Narradores de Javé”. Após esse trabalho de sensibilização, o medo de não serem aceitos por seus correspondentes foi superado aos poucos. As crianças já tiveram reação diferente e se encantaram com a ideia de poder escrever para estudantes mais velhos. Assim iniciamos o projeto que, pouco a pouco ganhou força e transformou-se em grande sucesso. A princípio, as cartas eram tímidas, com poucas palavras, mas à medida que o tempo foi passando e novas cartas foram trocadas, eles começaram a se soltar. Quando vi a emoção deles no momento de receber, ler e responder as cartas recebidas, notei que essa proposta de trabalho continha muito mais que um simples projeto pedagógico de melhora da escrita. Estava havendo uma grande “transformação” e muito aprendizado para todos os envolvidos. Os dados e resultados desse trabalho estão na minha dissertação, defendida e aprovada na PUC-SP em 2010, intitulada:“Relações intergeracionais: palavras que estimulam.

Atualmente resido em Ubatuba onde, para dar continuidade aos meus estudos de doutoramento, procurei alguns gestores na área de educação e no CREMI (Centro de Referência da Melhor Idade) de Caraguatatuba-SP. Propus o projeto “Encontro de Gerações” às citadas instituições, explicando que este envolvia uma pesquisa de pós–graduação, mas também apresentava alguns benefícios inerentes às suas finalidades. Tive sorte, fui muito bem acolhida e os responsáveis me deram todo apoio. Também encontrei algumas professoras interessadas em participar. Daí iniciamos um trabalho piloto em 2010 para avaliar a reação dos participantes, e, como tudo correu bem, o “Projeto Encontro de Gerações” continua ativo até hoje. Participam dele os idosos do CREMI e as crianças dos 4º e 5º anos do ensino fundamental do município.

Esse é um trabalho que envolve muita gente, por isso é preciso ter muito cuida-do. Afinal, lidamos com os sentimentos e as emoções dos participantes, que, muitas vezes, colocam todo um sonho naquele papel e na pessoa com quem se está intera-gindo. Além disso, há uma logística que precisa ser muito bem planejada, pois, além das crianças e dos idosos, este trabalho reflete diretamente em toda a comunidade escolar e em seus familiares. As professoras trabalham com as crianças, a mim cabe a responsabilidade de trabalhar com os idosos.

Cabe destacar, que sem o apoio das autoridades locais, dos gestores das escolas, das professoras e dos pais dos participantes no projeto e dos funcionários das instituições envolvidas, esse trabalho seria impossível. Eu, que coordeno toda essa logística, sou muito grata a todos que confiam em mim e apoiam essa iniciativa, cujo inestimável suporte tem sido importante para o sucesso de nosso projeto.

NPS: Quem foram seus parceiros teóricos nessa caminhada?

DS: Devo acrescentar que tive uma grande mestra na minha vida, minha avó Roberta, como já disse, grande companheira e responsável por muito do que sou hoje, que, já analisando alguns aspectos da minha formação profissional, me ensinou muitas coisas que não se encontram em livros. Também tive inúmeros e preciosos companheiros teóricos, autores que revolucionaram minha forma de pensar, para citar apenas alguns: Darcy Ribeiro, Paulo Freire, Pablo Neruda, José Saramago, Jacob Levy Moreno, Carl Gustav Jung, Sigmund Freud, Edgar Morin, Rosa Cukie, Sergio Perazzo, Ivani Fazenda. Claro que nunca poderia me esquecer do apoio que meu marido, também professor, vem prestando ao meu trabalho.

NPS: Quais pressupostos estão presentes na sua prática?

DS: A longevidade é um fato concreto em nosso país, então precisamos aprender a envelhecer. O projeto em pauta permite essa reflexão. De modo geral, infelizmente, a sociedade despreza o velho e tudo que ele representa. Mas é preciso encarar a velhice sob outro prisma, pois todos envelheceremos e, se desejamos ser respeitados na velhice, devemos aprender a respeitar os velhos de hoje, um preceito elementar da boa educação. No processo de troca de cartas, as crianças têm a possibilidade de aprender com uma pessoa idosa e, em geral, diferente do seu meio familiar; com isso, ela termina por tender a ser mais respeitosa com os idosos. Já os idosos têm a possibilidade de passar seus conhecimentos de mundo e suas experiências de vida a alguém interessado em suas histórias, melhorando, com isso, sua autoestima e sua qualidade de vida. Outro dado concreto é que as crianças podem estar solitárias e os idosos geralmente estão, e a possibilidade de trocar cartas elimina o sentimento de solidão de certa forma. E, para as crianças, esta superação da solidão, bem como a interação com alguém com uma experiência acumulada, pode se refletir na superação de um possível fracasso escolar.

NPS: O que mais você gostaria de contar para a nossa revista?

DS: Pessoalmente, eu acredito no ser humano e na vida, penso que vale a pena lutar por um mundo melhor, mais respeitoso e mais justo. O projeto “Encontro de Gerações”, realizado por meio de cartas, me fez ver que a idade não importa, sempre temos muito a ensinar e a aprender e necessitamos estar abertos para ver e compreender os outros, independentemente de sua faixa etária. Este trabalho pode ser reaplicado e multiplicado em diferentes escolas, sempre com respeito e seriedade, a fim de serem atingidos seus sadios objetivos.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Xadrez e Alfabetização – Uma Experiência com Crianças na Educação Básica

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Xadrez e Alfabetização – Uma Experiência com Crianças na Educação Básica

29/07/2008

Divina de Fátima dos Santos
Especialista em Psicopedagogia pela PUC-SP; mestranda em Gerontologia pela PUC-SP e professora do SESI-SP

Maria Anita Viviani Martins
Doutora em Educação pela PUC-SP e professora da PUC-SP

Ricardo Roberto Plaza Teixeira
Doutor em Ciências pela USP e Professor da PUC-SP e do CEFET-SP

Introdução

Tanto a LDBEN – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional quanto os PCNs – Parâmetros Curriculares Nacionais ressaltam, de diferentes formas, a importância de estratégias interdisciplinares no ensino em geral e, de forma específica, na educação básica. Avaliações educacionais como o SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) e o PISA (Programa Internacional de Avaliação de Alunos) apontam para as deficiências na educação matemática, bem como para a baixa compreensão e interpretação de textos simples, das crianças e dos adolescentes no Brasil.

Muitas experiências em diferentes contextos apresentam o jogo de xadrez como uma ferramenta pedagógica interdisciplinar poderosa para a superação de dificuldades no processo de ensino e aprendizagem. Em alguns países da Europa, sobretudo no leste europeu, o xadrez é introduzido desde a educação infantil até o ensino médio e é preparatório para a universidade. Na França e na Hungria, faz parte de toda grade curricular, respeitando-se as fases de desenvolvimento da criança. Em 1966, foi criada a Faculdade de Xadrez em Moscou: nesta instituição, após quatro anos de estudo, formam-se professores de xadrez. Na Rússia, celeiro de grandes enxadristas, o xadrez é utilizado até para treinamento de astronautas, bem como para o repouso do sistema nervoso das pessoas em geral.

No Brasil, o xadrez ainda é pouco jogado. Apesar de existirem tabuleiros vendidos por preços baixos em muitas lojas populares do país, o maior problema não é o seu custo e, sim, a falta de pessoas e professores que saibam jogar e que também possam transmitir seus conhecimentos e trabalhar com este jogo de forma pedagógica. Para isso, é preciso quebrar mitos, crenças e preconceitos, inclusive o de que ele esteja relacionado única e exclusivamente ao uso do pensamento lógico e de que somente pessoas muito inteligentes são capazes de jogá-lo.

Em seus estudos, Piaget (1978) mostrou-se favorável às ideias de uma escola mais ativa, que faça uso de atividades de interesse do aluno: só dessa forma as crianças tornam-se capazes de ir além dos seus limites. Assim sendo, aprender jogando provoca na criança uma maior concentração e um maior interesse pelos assuntos decorrentes do ou relacionados ao jogo, dando ao aprendiz uma maior capacidade de compreender e introjetar códigos complexos. Brincar e jogar é uma atividade excitante que consome espaço e tempo (WINNICOTT, 1975). Nesse sentido, brincar é um “fazer” intermediário entre o interno e o externo, já que se por um lado não é uma alucinação psíquica interna, por outro lado não se restringe a um objetivo exterior, estando a serviço do sonho e dos sentimentos.

Pode-se definir o jogo como uma atividade por meio da qual a criança constrói uma realidade por meio de regras que apontam para certas habilidades específicas; por outro lado, os brinquedos, mais associados ao universo infantil, estimulam de forma mais livre a expressão de imagens que evocam e substituem aspectos da realidade (BROUGÉRE, 1998; KISHIMOTO, 1999). Finalmente a brincadeira é a ação lúdica na sua plenitude.

– Para acessar o artigo completo, clique aqui!

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica