“OFICINA: PSICOLOGIA POSITIVA – Dicas para superar as crises do cotidiano”

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

OFICINA: PSICOLOGIA POSITIVA - Dicas para superar as crises do cotidiano

Com o objetivo de promover inteligência emocional, desenvolvimento pessoal, bem-estar e a felicidade, por meio do ensino e aplicação prática de intervenções da Psicologia Positiva, para períodos de enfrentamento de crises, essa oficina, em formato virtual, trouxe diversos insights sobre o tema em questão.
A ciência, especialmente a Psicologia Positiva, já comprova que temos condições e podemos sim alcançar a felicidade, alcançar realizações e vivermos em bem-estar, com a implantação de práticas e mudanças na mente.
Para colaborar com o desenvolvimento de emoções positivas em meio ao caos diário, é necessário estimular cada vez mais os sentimentos positivos e felizes a todos à nossa volta. Assim, compartilhamos aqui essa oficina promovida pelas professoras Drª Divina Fátima dos Santos e Ms Sandra de Fatima F. dos Santos, que trazem reflexões que ajudarão na mudança positiva.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Christian Dunker: Pessoas olham a própria vida como se fosse uma empresa a ser medida pelos resultados

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Christian Dunker: Pessoas olham a própria vida como se fosse uma empresa a ser medida pelos resultados

Da BBC, por Amanda Mont’Alvão Veloso

Que nome tem o sofrimento de nossa época? Conversas do cotidiano, diagnósticos e levantamentos mundiais afirmam que é depressão. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 300 milhões de pessoas no mundo convivem com o transtorno mental, cuja incidência aumentou mais de 18% entre 2005 e 2015.

A depressão tem nomeado uma série de formas, descrições e vivências distintas, mas nem sempre foi assim. Houve um tempo em que se sofria de outros nomes, mas a própria recorrência do diagnóstico da depressão oferece pistas de como está nosso sistema de desejos e escolhas nos últimos 40 anos, explica o psicanalista Christian Dunker.

Professor titular do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), Dunker acaba de lançar o livro Uma biografia da depressão (Paidós). Depois de falar por milhões, a depressão ganha voz para documentar sua história e apresentar seus familiares, colocando em narrativa sua existência e suas relações com trabalho, cultura e economia.

O psicanalista, que é coordenador do Laboratório de Teoria Social, Filosofia e Psicanálise da USP, onde pesquisa as formas de sofrimento no neoliberalismo, afirma que o foco em tarefas e resultados tem inibido as perguntas sobre o desejo de cada um.

As causas daquilo que faz sofrer deixaram de importar, e uma lista de sintomas passou a servir respostas onde deveria haver mais perguntas

'Não precisamos de um batalhão de psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, especialistas em sintomas. Precisamos de muita gente atenta ao sofrimento', diz Dunker sobre o que chamamos de depressão

“Depressão e ansiedade acabam sendo duas formas de sofrer que vão compactando a narrativa, a tal ponto que o sujeito acaba se resumindo a ‘eu sou um depressivo’. Faz parte da depressão essa demissão de contar sua própria história e dividi-la com o outro”, afirma, em entrevista à BBC News Brasil.

Isso trouxe consequências.

“Durante 40 anos a gente olhou pra depressão como meramente um efeito de déficit de neurotransmissores. Portanto, não fazia diferença como você fala da sua vida, pra quem, como você se entende. Agora estamos pagando a conta desses anos que, entre outras coisas, não investiram no que podemos chamar de instâncias protetivas.”

Se há uma profilaxia para a depressão, ela precisa passar pelo cuidado consigo e com os próprios limites, explica o autor.

“Não precisamos de um batalhão de psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, especialistas em sintomas. Precisamos de muita gente atenta ao sofrimento, de práticas que transmitam para as pessoas que elas podem se cuidar e se prevenir, cada qual do seu jeito”.

Confira os principais trechos da entrevista:

BBC News Brasil – Como a depressão chegou ao posto de diagnóstico mais frequente para se descrever as formas de sofrimento mental em nossa época?

Christian Dunker – Existem várias condições para que a gente eleja uma determinada forma de sofrimento como aquela que melhor nos representa. Isso aconteceu ao longo da História com a histeria, a hipocondria e a melancolia. Dá a impressão de que essa palavra vai representando cada vez mais gente até que se esgota e precisa ser substituída por outra, pois passa a representar tantas variantes de sofrimento que perde sua eficácia em termos das gramáticas de reconhecimento.

“Depressão” foi eleita, e não outra, principalmente porque desde os anos 70 ela é uma forma de sofrimento onde o conflito não aparece como muito fundamental, mas, sim o jogo de intensidades: nossos afetos, ânimos, nossa motivação. Isso passa a ser muito valorizado justamente nesse momento histórico em que as pessoas começam a olhar para sua própria vida como se ela fosse uma empresa, como se ela pudesse ser medida pelos resultados; a gente entra numa cultura de avaliacionismo.

Os anos 70 inventam a ideia do no limits [não há limites], de que a gente pode e deve ser feliz, como diz a definição de “saúde” pela OMS: o mais completo estado de bem-estar bio, psíquico e social. Se isso não é uma idealização do que alguém pode esperar da vida, então não sei o que é!

Em comparação com isso, aqueles que têm outro modo de funcionamento, que estão em outro tempo, que não conseguem fazer frente à lógica do produzir e consumir, ganham visibilidade, porque é como se estivessem ofendendo não só a si mesmos e aos familiares, mas a todos nós e ao sistema. Alguém que se recusa a sair da cama, alguém que perdeu a vontade é alguém que perdeu o desejo numa cultura em que o desejo é farto, livre e identificado com o consumo; daí a visibilidade dessa forma de sofrimento.

'Alguém que se recusa a sair da cama, alguém que perdeu a vontade é alguém que perdeu o desejo numa cultura em que o desejo é farto', explica o psicanalista

BBC News Brasil – Quais as consequências desse apagamento do conflito?

Dunker – Tem teorias que valorizam o conflito, mas há também aquelas que vão dizer “olha, o conflito não é tão importante”. Acho que essas outras maneiras de pensar são adequadas ao momento atual. Vamos lembrar de 1989, ano em que o muro de Berlim cai. É o fim das utopias, da Guerra Fria, de um mundo em que a gente tinha uma geografia muito clara de direita e esquerda, Ocidente e oriente. Esse é o mundo do conflito.

Essa premissa vai sendo reduzida e aparece uma nova forma, que diz assim: no fundo, o conflito só existe pra quem não sabe gerenciar as coisas e não sabe se organizar. Porque em uma vida em estrutura de listas, em que o objetivo é relativamente simples, o conflito que você tem é local, como realizar tarefas e entregar resultados. Se a gente se orienta pra isso, não tem motivo pra se perguntar o porquê dessa tarefa ou daquela outra; o foco é no resultado, no fim. Com isso, a gente perde o foco no processo. Se você entregar o resultado, está bom.

BBC News Brasil – Como isso aparece no dia a dia?

Dunker – Se for pra virar a noite pra entregar a pauta, você vira a noite; se for pra trabalhar no fim de semana, você trabalha; se for pra prejudicar alguém, você faz isso também. Ou seja, a gente foi criando um esquema de relações profundamente ofensivo pra nosso cuidado de si e para nossa subjetividade. A desativação do conflito deu muito resultado porque fez as empresas descobrirem que ao aumentar o sofrimento das pessoas, você aumenta o resultado e a performance.

Mas isso também foi acelerado pela linguagem digital e a formação das comunidades virtuais. Se estou tendo um conflito com você, eu dou um delete, um unfollow, cancelo.

São dois procedimentos básicos que têm muito a ver com a emergência da depressão: diante da contrariedade, module a realidade: então, mude de país, de casa, de relacionamento e de ambiente. O segundo é altere a paisagem mental: tome uma coisa, cheire outra, tome outra pra dormir, acordar, transar… Se você tiver uma boa realidade construída, tudo vai ficar bem. Não, tudo vai ficar deprimido!

BBC News Brasil – Por que a narrativa contemporânea da depressão é marcada pela individualização do sofrimento, como “aquele que fracassa sozinho”, “fica à margem” e “não performa suficientemente”?

Dunker – A depressão tem um mecanismo importante que é a autoavaliação. Freud falava que o supereu observa, julga e pune. O supereu é uma interiorização de uma certa versão da lei, frequentemente patológica e obscena. É uma versão da lei que é a sua lei.

Deleuze, Foucault e vários críticos apontaram o momento em que você não precisa mais de um feitor te ameaçando e falando alto com você. Pelo contrário, o gestor é soft, ameno, tem valores humanísticos. Mas ele sabe ativar em você essa autoavaliação que já está em todos nós, mas vamos dizer, tem a preferência do deprimido.

“Estou falando com ela agora, será que está sendo interessante?”. Quando me autoavalio, não estou mais com você, estou nesse circuito superegoico. Isso produz cansaço porque é como você levar uma vida dupla: estou com as pessoas e estou na paralela com essa contabilidade íntima. A gente sabe que o cansaço abre-se para uma correlação com a depressão.

Nesse contexto, a ansiedade é como fazer valer essa lei de que “eu controlo”. Eu controlo fora. Se não controlo, é porque não tenho os meios, o dinheiro, o poder nem a fama pra fazer isso. E eu controlo dentro, tomando uma pílula, meditando.

Essa ideia da controlabilidade vai transformar minha relação com o desejo, ainda a ser nomeado, numa relação com metas e coisas que posso contabilizar. Isso é terrível porque voltando ao processo depressivo, vou começar a me relacionar com meu desejo transformando-o em demandas, tarefas. Você começa a se perguntar cronicamente “mas o que será que eu quero?” e começa a se responder numa via tipicamente depressiva que é “eu não quero isso, eu não quero aquilo lá também”.

Isso funciona como uma inibição do desejo e já não consigo sair da cama. Estou me produzindo uma inibição no desejo porque o desejo me provoca ansiedade, já que ela está ligada a métricas que não alcanço. Disso decorre um rebaixamento do eu, um sentimento de inferioridade e a progressão dessa culpabilização que tão frequentemente caracteriza o depressivo.

Tem ainda a experiência com o prazer. Um depressivo cruza uma certa fronteira quando começa a perceber que tem um problema na capacidade de sentir prazer. Ele toma mesmo vinho, dança com mesma mulher, vai ao mesmo jogo, lê o mesmo livro e não tem aquela satisfação que teve algum dia. Muitas vezes isso é dado pela dificuldade do depressivo de sustentar cadeias mais extensas de satisfação, que envolvem você ir encontrando satisfação durante o processo e não só no fim. Uma coisa característica são os prazeres rápidos, curtos e que estão à mão.

E aí você vai ter a coligação mórbida e tão frequente do depressivo com o álcool e com certas dependências, como a de pornografia.

Como uma empresa, estamos gerindo nossos desejos e emoções como uma lista de tarefas, discorre Dunker

BBC News Brasil – No livro você aborda o quanto o conceito do que chamamos de ansiedade também foi passando por uma perda da historicidade.

Dunker – Sim, e provavelmente a depressão e a ansiedade são uma coisa só. São partes de um mesmo processo em que você tem sujeitos que estão mais próximos de um polo ou de outro, mas a grande maioria trafega entre “eu me aproximo do desejo, isso me dá uma crise de ansiedade” e “eu recuo do desejo e daí faço uma crise depressiva”. Pra sair da depressão, eu volto para a ansiedade. São muitas as fórmulas que combinam essas duas coisas.

Para a psicanálise, a ansiedade é uma forma específica da angústia, e angústia tem uma dupla função: ela pode ser o início de um desejo, ou o ponto de recuo. Encontrei a angústia: eu vou pra frente e me arrisco, ou eu volto e pelo menos protejo meu eu de sofrer. Esse circuito fica mais compreensível se a gente juntar as coisas.

Mas o DSM [Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, sistema de classificação utilizado pela psiquiatria] separou e isso faz parte do universo que criou a depressão, ou seja, a ideia de que os nossos transtornos mentais já não têm mais estrutura narrativa, têm estrutura de lista. Tal e tal sintoma, então é depressão. Tal e tal sintoma, então é ansiedade. Qual é a causa? Não importa.

Depressão e ansiedade acabam sendo duas formas de sofrer que vão compactando a narrativa, a tal ponto que o sujeito acaba se resumindo a “eu sou um depressivo”. Faz parte da depressão esse déficit narrativo, essa demissão de contar sua própria história, sua vida, e dividi-la com o outro.

BBC News Brasil – Há alertas sobre a incidência de depressão durante e no pós-pandemia. Você acha que estamos discutindo as perdas o Brasil está vivendo?

Dunker – Se por um lado o descaso na condução da crise sanitária pelo governo, o desdém pelo luto e a ausência de reverência com pessoas que pertenciam à cultura constituem uma tragédia particular brasileira, por outro marcam a negação do luto, que é uma das vias pelas quais a depressão também se instala.

Tipicamente o sujeito diz “ah, não perdi nada, eu só ganhei. Isso são números, são curvas, isso aí não me afeta”. Mas afeta de um outro jeito, isso volta como uma depressão inexplicável. Vamos ver os lutos que você deixou pelo caminho.

No começo da pandemia no Brasil, os primeiros dados de pesquisa foram de aumento massivo de depressão, mas, na clínica, curiosamente isso não se confirmou tanto assim. Há casos de exceção, como quem está na frente de batalha ou os jornalistas; aí eu vejo realmente um aumento substancial de depressão e ansiedade porque ligados ao contexto.

Em outro grupo muito extenso, a gente tem vidas que diminuíram a sua aceleração e isso sempre tem um valor terapêutico para o depressivo, porque ele está lutando contra a autoavaliação e um atraso crônico em relação ao tempo do mundo. Estou sugerindo que muitos depressivos foram protegidos da sua depressão pela quarentena, pelo “fica em casa”.

BBC News Brasil – Da mesma forma, muito tem se falado sobre depressão entre crianças e adolescentes.

Dunker – Uma criança de 4, 5 anos que não se dá bem com a tela e que estava nesse momento de descoberta real do outro tridimensional. Ela teve acesso a um novo brinquedo e perdeu. Quando volta?

E você vai ter no outro lado jovens que estão no momento de “vou sair de casa, estou começando um novo momento de vida, me formando, entrando na faculdade”. Você tinha uma grande idealização numa cultura já marcada por um forte sentimento de desempenho e felicidade obrigatória. “Uhu, entrei na faculdade! Mas isso não é uma faculdade. É uma telinha, em que o cara aparece de vez em quando, nem olha na minha cara. Não é o que foi prometido”. Você vai encontrar aí alguns elementos propícios para quadros ansiosos e depressivos porque não há partilha com o outro.

Vou acrescentar um grupo a estes que você falou: o dos idosos, em que você tem, de fato, perdas que incitam a processos depressivos. Perdas reais, sem condição de elaboração do luto. Dependendo, claro, da condição de cada um, os idosos enfrentam situações em que um ano a menos não tem reposição.

Christian Dunker aponta para a situação desafiadora de crianças pequenas que estavam descobrindo o 'outro tridimensional' e, com a pandemia, perderam este 'novo brinquedo'

BBC News Brasil – Pensando nessa incidência tão massiva da depressão, qual a importância das políticas públicas de prevenção?

Dunker – Durante 40 anos a gente olhou pra depressão como meramente um efeito de déficit de neurotransmissores. Portanto, não fazia diferença como você fala da sua vida, pra quem, como você se entende. Agora estamos pagando a conta de 40 anos que, entre outras coisas, não investiram no que podemos chamar de instâncias protetivas.

Tem que olhar para as situações de sofrimento das pessoas. O sofrimento mal tratado vira sintoma. Não precisamos de um batalhão de psicólogos, psicanalistas, psiquiatras, especialistas em sintomas. Precisamos de muita gente atenta ao sofrimento, de práticas que transmitam para as pessoas que elas podem se cuidar e se prevenir da formação de sintomas, cada qual do seu jeito.

Veja como é difícil inocular uma saúde pública que não seja regra geral. Esse processo de encontrar os próprios mecanismos de proteção ainda não entrou na nossa cultura. A gente tem uma cultura de “vá à academia”, “coma verde”, mas quanto a cuidar de si, as pessoas não sabem por onde começar.

Comece pela atenção ao sofrimento. Não é normal todo o sofrimento. Esse é suportável? De onde ele vem? Professores, pais, todo mundo tem implicação nisso. Esse processo de atenção ao sofrimento envolve, por exemplo, atenção a processos de isolamento. Nem sempre alguém que está num quarto jogando videogame está em isolamento, mas, às vezes está. Às vezes está fazendo isso para não ver os outros, e não como uma mediação para estar com os outros.

Mas tem que ir lá ver, conversar, investigar, porque você não vai bater o olho e ver que tem um problema. Isso tem a ver com como as pessoas narram, nomeiam. E evitar nomeações fáceis como “isso é uma depressão”: vai tomar antidepressivo. Remédio sem palavra não é bom. Palavra, em relação, protege. Principalmente quando a relação consegue produzir certos efeitos protetivos, como intimidade (confiança, porto seguro) e comunalidade (pertenço a um coletivo, um grupo, uma família).

Psicanalista e professor da USP acaba de lançar o livro 'Uma biografia da depressão' (Paidós)

BBC News Brasil – No livro você destaca a importância que o significante depressão adquiriu a partir da Crise de 1929. Qual a relação entre grandes crises econômicas e a depressão na saúde mental?

Dunker – Aparentemente o significante depressão foi antes usado na economia e depois na psicologia. Ele existia, mas adquiriu grande popularidade depois que as pessoas interpretaram um estado de mundo – falta de emprego, inflação, perda de valor, decaimento – como isso é depressão. Não vamos ignorar as condições que temos de linguagem, trabalho e desejo. O ano de 1973 é quando pela primeira vez se aplica em um país – no Chile de Pinochet – as ideias do neoliberalismo da escola austríaca. Depois vieram Margaret Thatcher e Ronald Reagan e isso se tornou indiscutível – “a economia é isso, essa é a lei geral, você tem que aceitar”. Isso foi até 2008.

Acho que podemos datar o reinado da depressão de 1973 a 2008. Não que o neoliberalismo tenha passado – pelo contrário, está mais vivo e exigindo mais de cada um de nós -, mas, porque, em 2008, parece que começamos a nos dar conta de que não está certo você impingir sofrimento ao outro para produzir mais e indefinidamente.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Mulher! Perspectivas e reflexões no contexto atual

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

LIVE: Mulher! Perspectivas e reflexões no contexto atual

Live: Mulher! Perspectivas e reflexões no contexto atual

Live que ocorreu no dia 08/03/2020, Dia Internacional da Mulher, com participação da Professora Dra Divina. Confira!

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Pandemia e o esgotamento das mulheres

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Pandemia e o esgotamento das mulheres

Por Giuliana Capello

Faz alguns meses que ouço de muitas mulheres a mesma reclamação (e eu me incluo no time): “estou exausta”.

Hoje, quando sentei para escrever este post, minha mente pensava na enorme lista de tarefas que “preciso” cumprir até literalmente cair na cama, num esgotamento que parece sem fim. Como escrever assim tão cansada, tão sem tempo pra nada, tão… tão esgotada?

Sempre foi difícil conciliar trabalho remunerado com a invisível e desprezada economia do cuidado (representada pelo trabalho com a casa, os filhos, os idosos da família).

E a pandemia chegou destampando o baú que antes sufocava esse tema em nome da “normalidade” tão conveniente a muitos.

Sim, essa droga de pandemia pintou com cores mais fortes traços que já estavam presentes em nossa sociedade. Já parou para pensar nisso?

Alguns dos temas mais comentados nesse último ano não são novidade para ninguém, não foram criados pela pandemia. Ela apenas jogou um holofote enorme em cada um deles: racismo, desigualdade social, desigualdades na educação, corrupção, negacionismos, fake news, precarização do trabalho e, claro, o machismo nosso de cada dia.

Abismo de gênero

Li em algum lugar sobre uma pesquisa que apontou esse abismo de gênero durante a pandemia. E também sobre a psicóloga ou psicanalista, não lembro bem, que contou sobre dois pacientes: um homem de 40 e poucos anos, que dizia estar levando numa boa as mudanças na rotina provocadas pela covid-19, e uma mulher na mesma faixa etária, absolutamente exausta e à beira de uma depressão.

Algumas semanas depois do início das sessões, a terapeuta descobriu algo intrigante: os dois pacientes eram casados.

Que coisa! Por que essa disparidade toda?

É claro que existem singularidades e cada pessoa sente o mundo ao redor do seu jeito. Mas não é só isso, a gente sabe. E, o pior, sempre foi assim. É que a “normalidade” de antes dava conta de disfarçar e dar retoques finos a essa crueldade.

É por isso que sempre que fico refletindo sobre estratégias para mudar o mundo, regenerar a humanidade e o planeta incluo pautas feministas ou ecofeministas. Sem isso seria mais do mesmo, seria maquiagem mal feita, piada de mau gosto.

Mulheres de diferentes extratos sociais, com experiências culturais das mais diversas estão à beira de um colapso.

No Japão, depois de 11 anos sem curva ascendente, o índice de suicídio aumentou em 2020. Mas repare: entre as mulheres, a taxa subiu 15% ano passado, enquanto que entre os homens houve uma leve redução no mesmo período.

Esgotadas e ainda mais atarefadas

Sobre as brasileiras mais vulneráveis eu nem dou conta de falar muito.

Elas enfrentam o fantasma da fome todos os dias, veem os filhos sem acesso à escola, sofrem com o desemprego, o desamparo e, não raras vezes, com a violência doméstica (que também aumentou na pandemia, apesar das dificuldades extras que enfrentam as mulheres dispostas a denunciar as agressões).

Na classe média, terceirizar serviços para outras mulheres (mais vulneráveis, sempre) era rotina de muitas famílias. As crianças ficavam parte do dia nas escolas e depois com a avó ou uma babá.

A faxineira limpava a casa e, entre os mais abastados, a cozinheira servia a mesa. E assim desandava a humanidade…

E agora? Como estamos?

As mulheres têm, hoje, ainda mais tarefas para executar, mais demanda mental e desafios de logística e planejamento que são pura adrenalina ruim.

Eu, que neste caso me considero uma privilegiada por ter um teto, comida na mesa, água potável, trabalho (muito mais incerto neste momento, é verdade), um quintal para brincar com minha filha, áreas verdes por perto para me conectar com a natureza, enfim, condições de sobrevivência mais do que garantidas, estou absolutamente exausta.

Minha agenda, que ainda é de papel porque é assim que gosto mesmo, não tem espaço para anotar todas as tarefas, que agora incluem os horários de aula online da minha filha e as tarefas que tenho que ajudá-la a fazer, as compras do dia-a-dia que, agora, são via internet, horários das entrevistas, feira, textos para entregar, boletos para pagar, aniversários de gente querida (para quem tento enviar algo por e-commerce, quando possível), os cuidados com os cães, enfim, a lista é enorme e termina por aqui para não ficar entendiante, sem graça.

Maternidade e gestão do lar

Antes de ser mãe, confesso que não tinha ideia da dimensão desse desafio. De verdade.

As mulheres mais próximas, na época, também não tinham filhos. E as que tinham pareciam bem resolvidas dentro do esquema da terceirização da infância: escola, cursos extracurriculares para passar o tempo e toda sorte de ‘entretenimento’ para distrair os pequenos até a mãe voltar do trabalho.

Durante uma entrevista para uma vaga, anos atrás, o cara me perguntou se eu teria que faltar ao trabalho para levar minha filha ao médico, ou teria alguém para fazer isso por mim. Fiquei atônita.

Naquele instante desisti da vaga dentro de mim, mas precisei dela durante um tempo e resisti a ataques machistas que me faziam chorar vez ou outra.

A lista de machismo sutil, se é que podemos chamar assim só porque não envolve tapas e socos, é enorme. E dá até preguiça. Mas é tão real que tem feito o tema pipocar aqui e ali. É claro!

A mulherada está enlouquecendo. Tem que ser a cozinheira, a faxineira, a mãe, a professora auxiliar das aulas online, a profissional produtiva no home office, a planejadora da despensa e do vestuário da família, a grande provedora da ordem mínima necessária ao funcionamento de cada centímetro quadrado do lar.

E o que fazer para reverter isso ou, ao menos, reduzir um pouco a carga?

Minha amiga, as respostas dependem do cenário real de cada uma, do contexto social, cultural, enfim, de muita coisa. É algo que passa pela aprovação de auxílio de emergência ou, melhor ainda, de projetos na linha da renda cidadã, porque a emergência é o novo normal, né não?

Passa também por mudanças estruturais na sociedade, que sempre levam tempo para surtir efeitos.

De mãos dadas, sempre

Mas, nessa história, quem sou eu pra dizer algo sobre isso? O que sei é o que sinto na pele. Nas pálpebras cansadas, nos fios brancos dos cabelos, no coração palpitando porque preciso do computador que a filha está usando para estudar.

E olha que tenho sorte (na verdade, bons critérios de escolha). Meu marido é bastante parceiro em tudo. Lava louça, cozinha, faz faxina na casa, cuida da filhota, dos cachorros, vai buscar compra no drive thru e está sempre por perto quando preciso de ajuda.

Neste momento, compaixão e empatia não podem virar palavras vazias de sentido. É cada vez mais crucial que não percamos a capacidade de enxergar saídas, de ter disposição para lutar contra o que está errado, contra o que e quem pode e – até – quer nos adoecer.

Saúde mental é algo sério. E nós mulheres precisamos dela forte, vívida, inspiradora (para nós mesmas, em primeiro lugar).

Homens com as nossas sandálias teriam surtado por muito menos, já teriam chamado a mãe, a esposa, a filha mais velha, a empregada, qualquer versão desses seres tão preciosos, mas que ainda são tratados como inferiores, menores, menos capazes, merecedoras de salários mais baixos mesmo quando executam exatamente a mesma função.

Basta dessa canalhice. E que a pandemia nos ajude, ainda que em luto pela nação que sofre, a escancarar o que somos. Poderosas por natureza, mas dignas de descanso e (auto)cuidado também. Tenho fé.

Vamos respirar juntas e esperançar, de mãos dadas, ventre quentinho e coração cheio de amor pela vida.

Agora me dá licença que vou até a pia lavar a louça enquanto ouço um podcast desses bem revolucionários… Aliás, aceito sugestões.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

O luto pela covid como processo coletivo

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Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

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O luto pela covid como processo coletivo

Em entrevista ao portal Brasil de Fato, Mariana Tavares destaca a importância dos cuidados paliativos e propões uma reflexão sobre a lógica individualista

Por Raíssa Lopes 

Mariana Tavares é psicóloga, especialista em Psicoterapia Contemporânea e em Recursos Humanos em Saúde. Integra o Conselho de Psicologia de Minas Gerais (CRP-MG) e recentemente se especializou em cuidados paliativos pela Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais (FCM-MG).

Escreveu o artigo “Luto complicado e pandemia: possibilidades de intervenções paliativas”, juntamente com Raqueline Assunção, Renato Barreto, e sob orientação de Glaucia Tavares.

O estudo traça reflexões importantes sobre o que a pandemia de covid-19 pode revelar a respeito de como as sociedades ocidentais entendem a saúde e como se relacionam com a morte.

O Brasil é um dos piores países para morrer, porque não se preocupa com a morte

Saindo da noção da saúde mental como um processo inteira e unicamente individual, a especialista chama a atenção para a influência da realidade social na vida dos sujeitos. Em conversa com o Brasil de Fato, também reforça o poder indispensável das políticas públicas para superar coletivamente os traumas expostos e criados pelo coronavírus.

“Não dá pra ignorar, passar por cima. A gente vai precisar de uma política do luto”, diz.

Leia a entrevista:

Brasil de Fato – O que são cuidados paliativos? Por que são importantes e de que forma estão relacionados à pandemia de covid-19?

Mariana Tavares – Os cuidados paliativos representam um campo da saúde ainda não completamente regulamentado. Existem escassos serviços no Brasil e essa concepção é um pouco mais desenvolvida em outros países. A definição de cuidados paliativos é, inclusive, muito recente.

Cuidados paliativos constituem uma assistência feita por uma equipe com o objetivo de melhorar a qualidade de vida do paciente e da família diante de uma doença ameaçadora à vida. Deseja prevenir e aliviar o sofrimento das pessoas frente a essas doenças.

Não são realizados apenas nos casos em que as pessoas estão perto de morrer, é uma concepção mais ampla. Existem cuidados paliativos com pessoas acamadas, por exemplo, mas também os relacionados à garantia de uma boa qualidade do fim da vida.

A nossa sociedade – inclusive profissionais de saúde – lida muito mal com a morte

Existe uma visão pejorativa dos cuidados paliativos como se fossem bobagem, como se fossem nada… Essa visão preconceituosa é muito prejudicial, porque está dizendo que a qualidade da morte não é relevante. Por isso é importante entender que a qualidade da morte tem a ver com a qualidade da vida.

O Brasil é um dos piores países para morrer, justamente porque tem uma baixa preocupação com a qualidade da morte. Isso tem a ver com a ideia de que a medicina vai apenas salvar vidas, e com a dificuldade de lidar com a morte. A morte é vista como um fracasso. Existe todo um medo, um tabu nas sociedades ocidentais.

E aí vem o pessoal dos cuidados paliativos tentando garantir uma morte, ou um cuidado, não somente centrados na tecnologia, na medicina. O modo de morrer de antigamente, com o doente em casa, cercado pelos familiares, foi migrando para uma morte solitária, dentro de um box de CTI, com a pessoa sozinha e em agonia.

O suporte social comunitário ajuda na prevenção do luto complicado

Então o mundo dos cuidados paliativos vai procurar fornecer assistência psicológica para a família, incentivar as conversas com o “eu te amo”, “eu te perdoo”… É uma visão muito maior do que é enfrentar essa terminalidade. A nossa sociedade lida muito mal com a morte, e os profissionais de saúde lidam muito mal com a morte. A gente é mal formado para pensar sobre.

A covid vem e nos dá um tapa na cara. Evidencia e desnuda tudo. A morte por covid traz todos esses componentes: solidão; despreparo das equipes na lida e no diálogo com a família; ausência desse raciocínio [de que a morte não é um fracasso] nas unidades de saúde e hospitais; sofrimento enorme para os profissionais e familiares.

E agora são justamente os profissionais os intermediários entre família e paciente durante a morte.

Exatamente. A carga sobre eles está enorme, porque são profissionais criados para salvar vidas, nessa suposição de que a morte seria uma derrota, e o tempo todo estão sendo confrontados com essa frustração. Está difícil para o sistema como um todo.

E o luto dentro dessa situação? Porque existe o luto por perder pessoas amadas, mas especialistas também apontam para o luto por perder um emprego, por mudar o modo de agir…

O luto é a perda de um vínculo, não necessariamente a perda de uma pessoa e nem necessariamente por morte. Imagine então a quantidade de luto que está por aí… Pessoas que iam se casar, que perderam emprego, renda, o medo de quem tem que trabalhar de contaminar seus familiares. É uma série de sofrimentos invisíveis.

Ao mesmo tempo, o luto é uma vivência muito individual. Existem teorias mais antigas que tentam dizer que o luto possui um determinado tempo, percorre certas fases. Elas criam quase que uma normativa sobre o luto.

É preciso pensar como promover conforto e sobrevivência para enfermeiras

É o luto sendo um processo do sujeito, e aí o modo como o sujeito o enfrenta seria próprio de cada um, de acordo com cada estrutura de personalidade. O que é possível fazer sobre isso? Quase nada. É mandar para a psicóloga. E eu acho que não, no momento não é o caso de vermos o luto como um processo absolutamente subjetivo.

Existe um conceito de luto complicado, que é quando a pessoa enfrenta mal, não dá conta de retomar a vida, adoece, deprime. Esse luto é comum em mortes violentas, solitárias, injustas, precoces. E a morte pela covid tem várias dessas características – é uma má morte, tem dor, sofrimento, falta de ar, é solitária, sem despedida.

Então nós fomos investigar se existem formas de prevenir o luto complicado, já que o luto é tão singular, tão de cada um… E sim, tem jeito.

Estudamos vários artigos, de países diferentes, e o que encontramos, resumimos em dois pontos: é possível precaver ao melhorar a qualidade da morte e garantir suporte social. E é nesse contexto que os cuidados paliativos são enormemente relevantes.

Como seria isso?

Na melhoria da qualidade da morte entram, por exemplo, os dispositivos eletrônicos. A telemedicina, as videoconferências com os familiares, os grupos com psicólogos focados nas conversas com a família etc.

O trauma causado pela pandemia vai durar muitos anos, mesmo após a vacina

Sobre o suporte social… Uma das coisas que mais alivia a morte nas sociedades são os rituais. Eles existem como uma forma de nos consolar, abrandar a dor, criar um efeito simbólico entre a pessoa amada que partiu e quem fica. Foi outra coisa que a covid cortou, né? Os velórios devem ser rápidos e sem aglomeração até mesmo para aqueles que não morreram pela covid.

Além dessas características de má morte, temos uma situação que o ritual não pode auxiliar. É preciso, então, criar maneiras de suprir essa falta da ritualização tal como a gente conhece.

Tipo criar um ambiente em casa para celebrar e se despedir da pessoa que se foi?

Aí é que está. Não com as pessoas sozinhas, não com ações individuais. É exatamente onde entra um suporte social comunitário, para tirar essa morte da situação de invisibilidade.

Existem projetos da sociedade civil que se atentam a isso, como o @reliquia.rum, da Debora Diniz [antropóloga], o @inumeraveismemorial e o Santinho. Eles visam prover homenagens que apontem a singularidade de quem morreu.

A pandemia da covid nos mostra de cara que não somos tão autossuficientes

Porque é particular, mas também é público. É preciso ressaltar: o luto pela covid não é um processo apenas individual, é um processo coletivo.

Em outros países e em algumas cidades daqui, todo dia é realizado um minuto de silêncio, é tocada uma música, ou passa algo na televisão sobre as pessoas que faleceram. É para dizer que não, essas pessoas não estão despercebidas, e nem sozinhas.

E ações como essa auxiliam na prevenção do luto complicado.

E o luto dos profissionais da saúde? Eles são um caso à parte, pois além de lidarem com o paciente e família, o Brasil é um dos países com o maior número de mortes de profissionais do setor na pandemia. É medo de morrer, de perder os amigos e colegas de trabalho…

O suporte social tem a ver com políticas públicas de enfrentamento para esse sofrimento e para o sofrimento da população no geral.

A respeito das enfermeiras e enfermeiros, é preciso pensar como promover conforto e sobrevivência para esses profissionais. Nem que seja com auxílio financeiro, ou talvez uma aposentadoria mais precoce…

Algo que demonstrasse o valor e o interesse por essas pessoas, ao invés de ficar nessa de tratá-los como heróis, como aqueles que se sacrificam e que morrem pelo outro. Eles são pessoas, que estão trabalhando duramente, com dramas e que não têm garantia. Por exemplo, os filhos dessas mulheres enfermeiras ficam com quem?

O que quero dizer é que em várias áreas haveria formas de pensar políticas públicas: mulheres, crianças, profissionais; pode-se rastrear onde estão os mortos e ver quais assistências específicas o SUS [Sistema Único de Saúde] e o Suas [Sistema Único de Assistência Social] podem fornecer; deve-se refletir o que pode ser feito na educação, na segurança pública.

É necessário questionar como está sendo pensado o conjunto de políticas como suporte para o sofrimento causado pela pandemia. E o trauma vai durar muitos anos ainda, mesmo após a vacina. A gente precisa criar uma política do luto. Não dá para ignorar, para passar por cima.

Como lidar com essa sensação de perda iminente que a pandemia gera?

Não existe uma resposta. Podemos falar do que está acontecendo… Estamos em risco e podemos ver que, enquanto sociedade, já estávamos vivendo um processo negacionista.

A negação é um mecanismo psíquico descrito por Freud. É fingir que não vê. E vemos que essa está sendo uma das formas de lidar com o medo. Só que é um “fingir que não vê” em massa. O comportamento de massa é abrir mão do seu raciocínio e transferir sua capacidade de pensar para um líder. Esse líder, como estudado há muito tempo, manipula por meio dos afetos [da emoção].

Outra forma de lidar é ter comportamento fóbico e obsessivo e se trancar dentro de casa, achar que está infectado o tempo todo, se lavar o tempo todo com álcool.

O que deveria combater isso é informação justa, correta, fidedigna, confiável, que possibilitasse a cada um se posicionar. Sempre que acontece um desastre e morre muita gente de uma vez, o papel dos líderes, dos governantes, é dar a real. É ter ações baseadas na razão. É promover esquemas de compreensão para que a população seja tranquilizada e para que haja uma normativa mais unificada possível. E é exatamente o que não está acontecendo.

Essa é a primeira pandemia do século XX. Até então, éramos uma geração acostumada a ter controle de episódios do tipo, com ferramentas e tecnologias suficientes. Você acha que a covid impacta a nossa geração de uma forma diferente do que as pandemias anteriores impactaram as gerações mais antigas?

Primeiro que é uma pandemia que atingiu todos os continentes e as outras não atingiram. Com a globalização, em poucos dias a pandemia se consolidou e se multiplicou para o mundo inteiro.

E a gente está sustentado numa sociedade tecnológica, científica e narcísica – que crê que dá conta de tudo e que supõe que tem o controle. Uma sociedade que vinha, inclusive, desenvolvendo modos de prolongamento da vida por muito tempo.

Somos uma sociedade com dificuldade de lidar com o sofrimento e com a finitude

É um choque que coloca em questão a onipotência da humanidade, e nos dá essa castração, mostrando que não, não somos os “todos poderosos”. [A covid] nos mostra de cara que não somos tão autossuficientes.

Questiona o estilo de vida capitalista, diz que a gente precisa aprender a lidar com a falta de respostas e ficar mais humilde enquanto espécie. Aprender que nós somos um dos componentes da natureza, e não os donos dela.

Além dos desafios científicos da vacina, da exploração ambiental e natureza, mostra que somos uma sociedade com dificuldade de lidar com a dor, com o sofrimento e com a finitude.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Professora Divina participa de ação de extensão debatendo saúde mental no contexto da pandemia de COVID-19

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Professora Divina é convidada para ação de extensão debatendo a saúde mental no contexto da pandemia de COVID-19

Em 12 de setembro de 2020, sábado, a partir das 18h00, aconteceu, de modo virtual, a atividade de extensão “Setembro amarelo e saúde mental na pandemia” que foi organizada por bolsistas do projeto de extensão “Atividades audiovisuais de divulgação científica e cultural mediadas pela internet” que ocorre no âmbito do câmpus de Caraguatatuba do Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e que é coordenado pelo Prof. Dr. Ricardo Roberto Plaza Teixeira.

Esta atividade contou com a participação das psicólogas Dra. Divina de Fátima dos Santos e Dra. Maria Cecilia Gracioso Costa. A equipe deste projeto de extensão agradece imensamente às duas psicólogas que participaram com desprendimento desta ação e compartilharam com os participantes os conhecimentos profissionais sobre os temas abordados.

Foto: Imagem de divulgação deste evento produzida pela estudante Lais Rodrigues Ramos

Os bolsistas extensionistas que organizaram e participaram diretamente desta atividade – juntamente com o professor Ricardo Plaza – foram os seguintes alunos de cursos superiores do IFSP-Caraguatatuba: Larissy Santos da Silva, Kaue Marques Barbosa, Lais Rodrigues Ramos, Danilo Henrique Oliveira Souza e Vinicius Carvalho Rosa. A bolsista Sofia Kaiser Sant Ana de Jesus também colaborou para o planejamento prévio desta atividade.

Foto: “Debate Consciência” no Instagram

A bolsista Larissy convidou as psicólogas Divina e Maria Cecilia para esta ação, bem como foi ela quem conduziu os debates e as intervenções que ocorreram. Além disso, os extensionistas Larissy e Kaue, com o apoio de seus colegas bolsistas, prepararam e organizaram as ferramentas tecnológicas necessárias para que a atividade acontecesse com sucesso. O evento se efetivou como uma vídeo-conferência do “Google Meet” e a transmissão em tempo real (“streaming”) foi realizada no Youtube, pelo canal “Debate Consciência”, organizado pela equipe de bolsistas deste projeto de extensão.

Foto: Lais, Ricardo, Danilo, Vinicius, Maria Cecilia, Kaue e Divina

No início foi apresentado um vídeo de curta duração (4 minutos) intitulado “4 fatos sobre a saúde mental no Brasil” do canal “Minutos Psíquicos” do YouTube e que está disponível para ser assistido no link. Este vídeo, a partir de uma pesquisa fundamentada em dados científicos, aborda a evolução nos últimos anos no Brasil, de índices: sobre transtornos de ansiedade e depressivos; sobre o número de suicídios; sobre as preocupações das pessoas a respeito da pandemia de COVID-19; sobre a procura por ajuda profissional no que diz respeito à saúde mental.

Foto: Canal “Minutos Psíquicos” do YouTube

A seguir foi iniciado o debate com a apresentação de algumas ideias a respeito dos temas abordados pela professora Divina de Fátima dos Santos que é doutora em Psicologia Clínica pela PUC-SP e é docente do Centro Universitário Módulo e da Faculdade São Sebastião. Em sua intervenção, a professora Divina destacou que há ainda poucos profissionais da área de psicologia no serviço público para uma demanda gigantesca. Divina enfatizou também que quando uma pessoa percebe e reconhece que não está bem, este autorreconhecimento em si já é algo positivo: é a partir da autoconsciência que a pessoa pode tomar a decisão de procurar ajuda de um profissional que tenha feito um curso de graduação e esteja habilitado para tratar com questões de saúde mental.

Foto: Professora Divina de Fátima dos Santos

A professora Maria Cecilia Gracioso Costa, que é graduada em Psicologia no Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas, deu sequência ao debate enfatizando a importância de trabalhar as emoções na educação das crianças, desde a mais tenra idade, ensinando-as a falar e refletir sobre os seus sentimentos. Assim é importante trabalhar com questões que articulem psicologia e educação, para o ensino do sentir, de modo a lidar com questões como: por que se está triste, por que se está com raiva?

Foto: Professora Maria Cecilia Gracioso Costa

As duas psicólogas puderam, durante o evento, se aprofundar nos temas abordados. O professor Ricardo Plaza procurou também trazer questões a respeito dos assuntos em foco. Antes do término do evento, foi apresentado um segundo vídeo do canal “Minutos Psíquicos” do Youtube intitulado “Como procurar ajuda psicológica?” (com 4 minutos) que está disponível para ser assistido gratuitamente no link.

Foto: Professora Ricardo Roberto Plaza Teixeira

Durante a transmissão os participantes puderam realizar perguntas e fazer comentários por meio do “chat” do Youtube; vários destes comentários foram reproduzidos por áudio durante a ação e as psicólogas tentaram responder as questões formuladas. No canal “Debate Consciência” do Youtube, o vídeo intitulado “Setembro amarelo e Saúde mental na pandemia” (com duração de 1 hora e 53 minutos), referente a esta ação, está disponível para todos os interessados assistirem no link.

Foto: “Como procurar ajuda psicológica?”, vídeo do canal “Minutos Psicológicos”

Esta foi a segunda ação realizada pelo projeto de extensão “Atividades audiovisuais de divulgação científica e cultural mediadas pela internet”. Este projeto foi aprovado no âmbito do Edital 196 de 11 de junho de 2020 da Pró-Reitoria de Extensão do Instituto Federal de São Paulo – IFSP, referente ao “Programa Institucional de Apoio a Atividades de Extensão do IFSP – Em tempos de Distanciamento Social” que dialoga com o período da pandemia de COVID-19 pelo qual estamos vivendo. Os recursos viabilizados por este edital 196 permitem o financiamento de bolsas a seis alunos extensionistas selecionados para a execução das atividades previstas para este projeto. O objetivo deste projeto de extensão é colaborar para disseminar o conhecimento, a cultura e a ciência, por meio da internet, durante a pandemia de coronavírus.

Os bolsistas extensionistas deste projeto agradecem tanto à Pró-Reitoria de Extensão do IFSP pelas bolsas fomentadas pelo edital 196, quanto às pessoas que participaram ativamente e prestigiaram este vídeo-debate, inclusive com a realização de perguntas e reflexões. Sugestões para temas das ações futuras deste projeto são bem-vindas e podem ser feitas para qualquer membro da equipe.

Fonte: Prof. Dr. Ricardo Roberto Plaza Teixeira

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Maria Rita Kehl sobre ressentimento

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Maria Rita Kehl sobre ressentimento

A psicanálise do ressentimento como sintoma social

A atualidade do tema do ressentimento é, antes de mais nada, clínica. Essa paixão triste comparece com frequência em nossos consultórios, alimentada por acusações contra alguém ou contra o mundo todo. “Eu sofro: alguém deve ser culpado por isso”: assim Nietzsche resume a lógica do ressentido e seu apego ao dano. O ressentimento é uma constelação afetiva que serve aos conflitos característicos do homem contemporâneo, entre as exigências e as configurações imaginárias próprias do individualismo, e os mecanismos de defesa do “eu” a serviço do narcisismo. A lógica do ressentimento privilegia o “indivíduo” em detrimento do sujeito, e contribui para sustentar nele uma integridade narcísica que independe do sucesso de seus empreendimentos. Adianto a hipótese de que a versão imaginária da falta, no ressentimento, é interpretada como prejuízo.

Ressentir-se significa atribuir ao outro a responsabilidade pelo que nos faz sofrer. Um outro a quem delegamos, em um momento anterior, o poder de decidir por nós, de modo a poder culpá-lo do que venha a fracassar. Neste aspecto, o ressentido pode ser tomado como o paradigma do neurótico, com sua servidão inconsciente e sua impossibilidade de implicar-se como sujeito do desejo. Mas esta é uma definição genérica demais para nos permitir focar nosso objeto.

O ressentimento não é uma estrutura clínica, e tampouco se confunde rigorosamente com um sintoma, embora se possa considerá-lo como uma solução de compromisso entre dois campos psíquicos, o do narcisismo e o do Outro. Ressentimento não é um conceito da psicanálise; é uma categoria do senso comum que nomeia a impossibilidade de se esquecer ou superar um agravo. Impossibilidade ou recusa? Na língua portuguesa, o prefixo “re” indica o retorno da mágoa, a insistência em uma queixa, a conservação ativa de uma ofensa. A partícula “re” também se apresenta em outros idiomas. Ressentiment, resentfulness, resentimiento, respectivamente em francês, inglês e espanhol. Trata-se de uma repetição mantida ativamente por aquele que foi ofendido. O ressentido não é alguém incapaz de se esquecer ou de perdoar; é um que não quer se esquecer, ou que “quer não se esquecer”, não perdoar, nem superar o mal que o vitimou.

O filósofo Max Scheler, que discute as teorias de Nietzsche a partir de uma ótica cristã, considera como “auto-envenenamento psicológico” o estado emocional do ressentido, um introspectivo ocupado com ruminações acusadoras e fantasias vingativas. Trata-se de uma disposição psicológica relativamente estável que, por um recalcamento sistemático, libera certas emoções e certos sentimentos, por si só normais e inerentes aos fundamentos da natureza humana, e tende a provocar uma deformação mais ou menos permanente tanto do sentido dos valores quanto da faculdade de julgamento [1].

Para Scheler, a constelação afetiva do ressentimento compõe-se da soma de rancor, desejo de vingança, raiva, maldade, ciúmes, inveja, malícia. Uma conjunção maligna, portanto, na qual o desejo de vingança exerce um papel predominante; a palavra ressentimento indica que se trata de uma reação – mas se esta reação tivesse sido posta em ato no momento do agravo, ainda que fosse um ato de palavra, o sentimento de injúria ou agravo teria sido aplacado.

O conceito de repressão indica que um impulso foi impedido de se efetivar. O que ocorre no ressentimento é que o ofendido não se atreve, ou não se permite, responder à altura da ofensa recebida. O “envenenamento psicológico” a que se refere o autor produz-se a partir da reorientação para o “eu” dos impulsos agressivos impedidos de descarga, gerando uma disposição passiva para a queixa e a acusação, assim como a impossibilidade de esquecer o agravo passado.

Mas observemos que, no caso em questão, esse desejo não se confunde absolutamente com uma tendência à resposta ou à defesa, acompanhada de cólera, de raiva ou de indignação”[2].

A raiva, a cólera, a indignação, impedidas de se exercer na direção do objeto, transformam-se em raiva e indignação contra si mesmo; a má consciência, como veremos em Nietzsche, é a contrapartida necessária do ressentimento. A culpa que o ressentido insiste em atribuir ao outro, responsável pelo agravo, é a face manifesta do “sentimento inconsciente de culpa”[3] que o “envenenamento psíquico” – o retorno das pulsões agressivas sobre o eu – produz. O ressentido é um vingativo que não se reconhece como tal.

Há uma diferença entre o desejo de vingança e o impulso de responder a um ataque, indignar-se contra ele ou defender-se. A vingança é uma necessidade psíquica que só faz sentido nos casos em que a vítima não foi capaz de reagir. Nesse ponto, Max Scheler [4] vale-se de uma metáfora de ressonâncias nietzscheanas: a fera capturada que morde o caçador não está tentando se vingar: está tentando livrar-se do cativeiro. A vingança decorre da falta de resposta imediata ao agravo. É “um prato que se come frio”, diz o povo; a vingança deve ocorrer depois de um tempo durante o qual o contra ataque da vítima fica como que em suspenso, adiado mas nunca renunciado, alimentado pela raiva, ou pela impossibilidade do esquecimento de uma raiva passada.

Mas no ressentimento, o tempo da vingança nunca chega. Muito menos o da justiça. O ressentido é tão incapaz de vingar-se quanto foi impotente em reagir imediatamente aos agravos e às injustiças sofridos. Voltando à constelação “maligna” enumerada acima, nenhum daqueles afetos por si só é suficiente para produzir ressentimento. O rancor que deságua em agressão, a indignação que se expressa em uma catadupa de acusações, a inveja que mobiliza o invejoso para a conquista do objeto cobiçado, não precisam perpetuar-se na forma de ressentimento. Para que ele se instale, é preciso que a vítima não se sinta à altura de responder ao agressor; que sinta-se fraca, ou inferior a ele. Ou então, na via oposta, queira ostentar uma superioridade moral. É por isso que Nietzsche o considera como qualidade dos “escravos”. Para Max Scheler, o terreno onde ele se origina, só dele, faz do ressentimento a característica dos serviçais, dos comandados, dos que se debatem em vão sob o aguilhão da autoridade.

Uma das condições centrais do ressentimento é que o sujeito estabeleça uma relação de dependência infantil com um outro, supostamente poderoso, a quem caberia protegê-lo, premiar seus esforços, reconhecer seu valor. O ressentimento também expressa a recusa do sujeito em sair da dependência: ele prefere ser “protegido” ainda que prejudicado, do que livre, mas desamparado. Com isso quero antecipar aqui que, no ressentimento, o Outro é representado pelas figuras que, na infância, tinham poder efetivo para proteger, premiar e punir a criança. É a face imaginária do Outro, à qual se endereçam demandas de amor e reconhecimento, que determinam que o ressentido se represente não como faltante, mas como prejudicado.

O ressentimento como sintoma social

Percebe-se aqui a importância política do tema; embora eu priorize abordar o ressentimento predominantemente do ponto de vista dos arranjos e negociações subjetivos, que é o ponto de vista da psicanálise, é possível perguntar se o ressentimento não seria o efeito mais provável produzido em certas condições de opressão nas quais que só resta ao sujeito “debater-se em vão sob o aguilhão da autoridade”. Como colocar em ato o saudável impulso de reação imediata aos agravos, nos casos da impotência objetiva de quem se vê diante da força de coerção do opressor? Como reagir a uma injustiça, mesmo à força de argumentos e protestos, nos casos em que qualquer reação custaria a vida do injustiçado? Sob uma ditadura militar, sob estado de exceção, sob regimes de terror, toda reação tem que ser forçosamente adiada, até mesmo para que tenha chances de sucesso. Em que circunstâncias esse adiamento forçado, esse “recuo tático”, funciona para organizar forças e amadurecer um projeto de retomada legítima do poder, e em que condições o adiamento da reação pode transformar-se em ressentimento?

O estado de exceção, segundo o filósofo Giorgio Agamben[5], impõe a suspensão de todos os direitos: só o Estado, soberano, exerce poder de vida e morte sobre todos os homens. A vida humana que perde as condições de cidadania é qualificada por ele como “vida nua”, desprovida de direitos e de garantias. Nos casos em que nenhum direito humano, nem mesmo o direito à vida, é garantido por antecipação (nisso consiste a responsabilidade dos Estados democráticos sobre a vida dos prisioneiros sob sua custódia) como detectar a implicação dos agentes sociais em relação às suas escolhas de destino, individuais ou coletivas? Nos casos em que o Estado dispõe da vida dos cidadãos, em condições de desrespeito absoluto aos direitos humanos, faz sentido pensar que o ressentimento seja uma reação provável das vítimas?

A leitura dos relatos de Primo Levi sobre os campos de concentração faz ver ao leitor que mesmo nas condições de opressão absoluta alguns prisioneiros mantiveram diante do algoz uma posição subjetiva que não predispõe ao ressentimento. Há quem seja capaz de – obrigado pela força a beijar as botas de seu carrasco – não viver esse ato de forma humilhante. A vergonha, a abjeção, escreve Levi[6], deve ficar do lado do homem que, tendo liberdade de escolha, quis forçar seu semelhante a um ato abjeto. No limite, alguns prisioneiros “escolhem” a morte como meio de preservar sua humanidade. Morrer, ou deixar-se matar, é a afirmação extrema de insubmissão sob regimes totalitários – nessas condições seria uma leviandade incluir certos casos de suicídio sob a rubrica da melancolia.

Mas a prova de que a organização dos campos de concentração sob o nazismo tinha como objetivo produzir a desumanização dos prisioneiros é que os índices de suicídio nos lager foram muito baixos. Desprovidos de qualquer implicação subjetiva em relação ao mal e à abjeção, reduzidos à condição de “coisa”, vítimas absolutas do arbítrio do Outro, os homens deixam-se abater passivamente, sem lançar mão do último recurso que distingue o humano do animal: a capacidade de escolher a própria morte. “É isso um homem?” pergunta Lévi ao leitor no título de seu livro mais conhecido.

Um outro destino para a raiva que não pode se expressar é possível? É possível passar pela condição da escravidão sem ocupar subjetivamente a posição de escravo? Creio que sim; nesse ponto é importante ressaltar que o ressentimento não é a conseqüência necessária da condição do derrotado. Ele tem mais a ver com a rendição voluntária do que com a derrota. A reação adiada que produz o ressentimento é aquela a que a pessoa se impediu por conta própria. A “fera capturada que morde o caçador” está lutando contra o cativeiro. Os prisioneiros de guerra foram vencidos em batalha, pela superioridade bélica do inimigo.

Quando uma revolta é abafada pelo poder militar, os revoltosos se vêem obrigados a recolher suas forças e esperar por condições mais favoráveis para voltar à luta. Essa “vingança adiada” não é a mesma das elucubrações mentais a que se entrega o ressentido, psicologicamente impotente para dar outro destino à sua amargura. Mas mesmo nos casos em que a derrota é imposta à força e a reação é objetivamente impedida, é possível que o adiamento prolongado da ação ameace arrefecer a disposição à luta. Nesses casos a manutenção ativa da memória do agravo, que em um primeiro tempo é necessária para alimentar a disposição dos revoltosos, pode degenerar em predisposição ao ressentimento.

Não se pode qualificar irrefletidamente como atos vingativos as convulsões sociais que põem fim aos regimes totalitários, nem de “ressentimento” o abatimento de escravos e prisioneiros impedidos à força do exercício de sua liberdade. O ressentimento não se confunde com a revolta silenciada nem com a resignação forçada que se produz sob regimes totalitários ou em sociedades fortemente estratificadas. A “vida nua” não produz ressentimento; ela é a vida humana desprovida de condições de humanidade, limitada à reprodução da sobrevivência biológica – como na escravidão, nos campos de concentração ou em situações de extrema miséria. Não é humana a vida que decorre em função da mera satisfação de necessidades, desprovida das condições que possibilitam aos homens criar alguma forma do “novo”, escreve Hanna Arendt[7].

A “vida nua” produz uma espécie grave de abatimento e resignação, mas esse estado não configura o ressentimento. Este último é o afeto característico dos impasses gerados nas democracias liberais modernas, que acenam para os indivíduos com a promessa de uma igualdade social que não se cumpre, pelo menos nos termos em que foi simbolicamente antecipada. Os membros de uma classe ou de um segmento social inferiorizado só se ressentem de sua condição se a proposta de igualdade lhes foi antecipada simbolicamente, de modo a que a falta dela seja percebida não como condenação divina ou como predestinação – como nas sociedades pré-modernas – mas como “privação”[8]. São os casos em que a igualdade é “oficialmente reconhecida mas não obtida na prática[9]” que produzem o ressentimento na política. É preciso que exista um pressuposto simbólico de  igualdade entre opressor e oprimido, entre rico e pobre, poderoso e despossuído, para que os que se sentem inferiorizados se ressintam.

Mas outra condição deve estar presente aqui: é preciso também que a igualdade da lei democrática seja interpretada como dádiva paterna dos poderosos e não como conquista popular. O ressentimento na política se produz na interface entre a lei democrática – antecipação simbólica de igualdade de direitos – e as práticas de dominação paternalistas, que predispõem a sociedade a esperar passivamente que essa igualdade lhes seja legada como prova do amor e da bondade dos agentes do poder. No Brasil, em que essas duas condições se combinam de maneira freqüentemente perversa, os movimentos sociais oscilam entre as proposições ativas de transformações sociais e as manifestações reativas, ressentidas, que expressam insatisfação popular, mas não levam a nenhum resultado efetivo no sentido do aperfeiçoamento dos dispositivos da democracia.

Não sou capaz de responder à questão sobre as condições em que uma rebelião adiada produz o ressentimento; a ação política, mesmo que atravessada pelo campo de forças do inconsciente, tem sua especificidade em relação à psicanálise. Se enumero essas questões é porque elas estão associadas ao tema do ressentimento e não podem deixar de ser pelo menos formuladas, de modo a evitar um certo reducionismo psicanalítico no trato desse tema tão atravessado pelo campo da política.

*Maria Rita Kehl é psicanalista, jornalista e escritora. Autora, entre outros livros, de Deslocamentos do feminino: a mulher freudiana na passagem para a modernidade (Boitempo).

Notas

[1] – Max Scheler, L’homme du ressentiment (1912). Paris: Gallimard, 1958. p.14: “une disposition psychologique, d’une certaine permanence, qui, par un refoulement systématique, libère certaines émotions et certains sentiments, de soi normaux et inhérents aux fondements de la nature humaine, et tend à provoquer une déformation plus ou moins permanente du sens des valeurs, comme aussi de la faculté du jugement (tradução minha).

[2] – Max Scheler, (cit), p. 15: Mais notons bien que, dans le cas qui nous occupe, ce désir ne se confond aucunement avec une tendence à la riposte ou à la défense, même accompagné de colère, de rage ou d’indignation. (tradução minha).

[3] – A expressão é empregada por Freud em O eu e o isso (1923), para explicar a relação existente entre o sentimento de culpa e a prática de atos delinqüentes que visam o castigo, “como se o indivíduo sentisse alívio em poder relacionar este sentimento inconsciente de culpa a um ato real e atual” (p. 2274). Esse tema já tinha sido abordado por ele no texto “Os delinqüentes por sentimentos de culpa”, de 1916. Mais adiante, em O eu e o isso, Freud reafirma o caráter inconsciente de grande parte dos sentimentos de culpa em função de sua relação com a parte inconsciente do supereu, herdeiro do complexo de Édipo: “o surgimento da consciência moral está intimamente ligado ao complexo de Édipo, que permanece inconsciente”. (p. 2721)

[4] – M. Scheler, p. 19: Le terrain où il prend naissance, à lui seul, fait du ressentiment le propre des serviteurs, des commandés, de ceux qui se cabrent en vain sous l’aguillon de l’autorité.

[5] – Giorgio Agambem, Homo Sacer. Belo Horizonte: UFMG, 2002. Tradução de Henrique Burigo.

[6] – Primo Levi, É isso um homem? (1947). Rio de Janeiro: Rocco, 1989.

[7] – Ver Hanna Arendt, The human condition (1958). Chicago: The University if Chicago, 1958.

[8] – O conceito de privação será mais desenvolvido no capítulo 1, “O ressentimento na psicanálise”.

[9] – M. Scheler, p. 21.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Para os professores em quarentena por Christian Dunker

Christian-Dunker

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

"Para os professores em quarentena"
por Christian Dunker

Uma mensagem reconfortante de Christian Dunker  que de forma muito sensível traz alento aos professores que estão sofrendo muita pressão nesse momento de crise. Reflexão sábia e sensível que vem em ótima hora.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Quarentena: porque você deveria ignorar toda a pressão para ser produtivo agora

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Quarentena: porque você deveria ignorar toda a pressão para ser produtivo agora

Uma pesquisadora com experiência em ambientes adversos dá conselhos aos acadêmicos ansiosos com a quebra de rotina causada pelo coronavírus

Por Aisha S. Ahmad, no Chronicle of Higher Education.
Tradução de Renato Pincelli.

OQUE TENHO OBSERVADO entre meus colegas e amigos acadêmicos é uma resposta comum à contínua crise da COVID-19. Eles estão lutando bravamente para manter um senso de normalidade — correndo para os cursos online, mantendo rigorosos cronogramas de escrita e criando escolinhas Montessori nas mesas de cozinha. A expectativa deles é apertar os cintos por um breve período, até que as coisas voltem ao normal. Para qualquer um que segue esse caminho, desejo muita saúde e boa sorte.

Entretanto, como alguém que tem experiência com diversas crises ao redor do mundo, o que eu vejo por trás dessa busca pela produtividade é uma suposição perigosa. A resposta para a pergunta que todo mundo está se fazendo — “Quando isso vai acabar?” — é simples é óbvia, mas difícil de engolir. A resposta é nunca.

Catástrofes globais mudam o mundo e esta pandemia é muito semelhante a uma grande guerra. Mesmo que a crise do coronavírus seja contida dentro de alguns meses, o legado dessa pandemia vai viver conosco por anos, talvez décadas. Isso vai mudar o modo como nos movemos, como construímos, como aprendemos e nos conectamos. É simplesmente impossível voltar à vida como se nada disso tivesse acontecido. Assim, embora possa parecer bom por enquanto, é tolice mergulhar num frenesi de atividade ou ficar obcecado com sua produtividade acadêmica neste momento. Isso é negação e auto-ilusão. A resposta emocional e espiritualmente saudável seria se preparar para ser mudado para sempre.

O resto deste artigo é um conselho. Fui constantemente procurada por meus colegas ao redor do mundo para compartilhar minhas experiências de adaptação às condições de crise. Claro que sou apenas uma humana, lutando como todo mundo para se ajustar à pandemia. Entretanto, já trabalhei e vivi sob condições de guerra, conflitos violentos, pobreza e desastres em muitos lugares do mundo. Passei por racionamento de comida e surtos de doenças, bem como prolongados períodos de isolamento social, restrição de movimento e confinamento. Conduzi pesquisas premiadas sob condições físicas e psicológicas extremamente difíceis — e tenho orgulho de minha produtividade e desempenho na minha carreira de pesquisadora.

Deixo aqui os seguintes pensamentos durante esse momento difícil na esperança de que eles ajudem outros acadêmicos a se adaptar a essas condições duras. Pegue o que precisa e deixe o resto.

Primeiro Estágio: Segurança

SEUS PRIMEIROS dias ou suas primeiras semanas numa crise são cruciais e você deveria ter um amplo espaço para fazer um ajuste mental. É perfeitamente normal e aceitável sentir-se mal ou perdido durante essa transição inicial. Considere positivo que não esteja em negação e que está se permitindo trabalhar apesar da ansiedade. Nenhuma pessoa sã sente-se bem durante um desastre global, então agradeça pelo desconforto que sente. Neste estágio, eu diria para focar em alimentação, família, amigos e talvez exercícios físicos — mas você não vai virar um atleta olímpico em quinze dias, então baixe sua bola.

Em seguida, ignore todo mundo que está postando a pornografia da produtividade nas mídias sociais. Está bem se você continua acordado às 3 da manhã. Está bem esquecer de almoçar ou não conseguir fazer uma teleaula de ioga. Está bem se faz três semanas que você nem toca naquele artigo-que-só-falta-revisar-e-submeter.

Ignore tanto as pessoas que dizem estar escrevendo papers quanto as que reclamam de não conseguir escrever. Cada qual está em sua jornada. Corte esse ruído.

Saiba que você não está fracassando. Livre-se das ideias profundamente toscas que você tem a respeito do que deveria estar fazendo agora. Em vez disso, seu foco deve se voltar prioritariamente para sua segurança física e mental. Neste começo de crise, sua prioridade deveria ser a segurança da sua casa. Adquira itens essenciais para sua dispensa, limpe seu lar e faça um plano de coordenação com sua família. Tenha conversas razoáveis sobre preparos de emergência com seus entes queridos. Se você é próximo de alguém que trabalha nos serviços de emergência ou num ramo essencial, redirecione suas energias e faça do apoio a essa pessoa uma prioridade. Identifique e cubra as necessidades dessas pessoas.

Não importa como é o perfil da sua família: vocês vão ter que ser um time nas próximas semanas ou meses. Monte uma estratégia para manter conexões sociais com um pequeno grupo de familiares, amigos e/ou vizinhos, mas mantenha o distanciamento físico de acordo com as orientações de saúde pública. Identifique os vulneráveis e garanta que eles estejam incluídos e protegidos.

A melhor maneira de construir um time é ser um bom companheiro de equipe, então tome alguma iniciativa para não ficar sozinho. Se você não montar essa infra-estrutura psicológica, o desafio das medidas de distanciamento social necessárias pode ser esmagador. Crie uma rede sustentável de apoio social — agora.

Segundo Estágio: Modificação Mental

ASSIM QUE estiver seguro junto com seu time, você vai começar a se sentir mais estável e seu corpo e sua mente vão se adaptar, fazendo-o buscar desafios mais exigentes. Depois de um tempo seu cérebro pode e vai reiniciar sob condições de crise e você vai reaver sua capacidade de trabalhar em alto nível.

Essa modificação mental permitirá que você volte a ser um pesquisador de alta performance, mesmo sob condições extremas. No entanto, você não deve tentar forçar sua modificação mental, especialmente se você nunca passou por um desastre. Um dos posts mais relevantes que vi no Twitter (do escritor Troy Johnson) dizia: “Dia 1 da Quarentena — vou meditar e fazer treinamento físico. Dia 4 — ah, vamos misturar logo o sorvete com o macarrão”. Pode parecer engraçado, mas diz muito sobre o problema.

Mais do que nunca, precisamos abandonar o performativo e abraçar o autêntico. Modificar nossas essências mentais exige humildade e paciência. Mantenha o foco nessa mudança interna. Essas transformações humanas vão ser sinceras, cruas, feias, esperançosas, frustrantes, lindas e divinas — e serão mais lentas do que os acadêmicos atarefados estão acostumados. Seja lento. Permita-se ficar distraído. Deixe que isso mude o modo como você pensa e como você vê o mundo. Porque o nosso trabalho é o mundo. Que essa tragédia, enfim, nos faça derrubar todas as nossas suposições falhas e nos dê coragem para ter novas ideias.

Terceiro Estágio: Abrace o Novo Normal

Do outro lado dessa mudança, seu cérebro maravilhoso, criativo e resiliente estará te esperando. Quando suas fundações estiverem sólidas, faça uma agenda semanal priorizando a segurança do seu time doméstico e depois reserve blocos de tempo para as diferentes categorias do seu trabalho: ensino, administração e pesquisa. Faça primeiro as tarefas simples e vá abrindo caminho até os pesos-pesados. Acorde cedo. Aquela aula online de ioga ou crossfit vai ser mais fácil nesse estágio.

A essa altura, as coisas começam a parecer mais naturais. O trabalho também vai fazer mais sentido e você estará mais confortável para mudar ou desfazer o que estava fazendo. Vão surgir ideias novas, que nunca lhe passariam pela cabeça se você tivesse ficado em negação. Continue abraçando sua modificação mental, tenha fé no processo e dê apoio ao seu time.

Lembre-se que isso é uma maratona: se você disparar na largada, vai vomitar nos seus pés até o fim do mês. Esteja emocionalmente preparado para uma crise que vai durar 12 ou 18 meses, seguida de uma recuperação lenta. Se terminar antes, será uma surpresa agradável. Neste momento, trabalhe para estabelecer sua serenidade, sua produtividade e seu bem-estar sob condições prolongadas de desastre.

Nenhum de nós sabe quanto tempo essa crise vai durar. Gostaríamos de receber nossas tropas de volta ao lar antes do Natal. Essa incerteza nos enlouquece.

Porém, virá o dia em que a pandemia estará acabada. Vamos abraçar nossos vizinhos e amigos. Vamos retornar às nossas salas de aula e cantinhos do café. Nossas fronteiras voltarão a se abrir para o livre movimento. Nossas economias, um dia, estarão recuperadas das recessões por vir.

Só que, agora, estamos no começo desta jornada. Muita gente ainda não entendeu o fato de que o mundo já mudou. Alguns membros da faculdade sentem-se distraídos ou culpados por não conseguir escrever muito ou dar aulas online apropriadas. Outros usam todo seu tempo em casa para escrever e relatam um surto de produtividade. Tudo isso é ruído — negação e ilusão. Neste momento, essa negação só serve para atrasar o processo fundamental da aceitação, que permite que a gente possa se reinventar nessa nova realidade.

Do outro lado desta jornada de aceitação estão a esperança e a resiliência. Nós sabemos que podemos passar por isso, mesmo que dure anos. Nós seremos criativos e responsivos; vamos lutar em todas as brechas e recantos possíveis. Vamos aprender novas receitas e fazer amizades desconhecidas. Faremos projetos que nem podemos imaginar hoje e vamos inspirar estudantes que ainda estamos para conhecer. E vamos nos ajudar mutuamente. Não importa o que vier depois: juntos, estaremos preparados e fortalecidos.

Por fim, gostaria de agradecer aos colegas e amigos que vivem em lugares difíceis, que sentem na própria pele essa sensação de desastre. Nos últimos anos, rimos ao trocar lembranças sobre as dores da infância e exultamos sobre nossas tribulações. Agradecemos à resiliência que veio com nossas velhas feridas de guerra. Obrigado a vocês por serem os guerreiros da luz e por partilhar de sua sabedoria nascida do sofrimento — porque a calamidade é uma grande professora.


Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica