É preciso perdoar: ciência confirma ligação da mágoa com infarto

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

É preciso perdoar: ciência confirma ligação da mágoa com infarto

Do Correio:

É preciso dizer: “Eu te perdoo”. A conclusão é da Medicina e da Psicologia que, juntas, começam a comprovar que o corpo reage negativamente a sensações como o ressentimento e a raiva. Os infartos, por exemplo, são associados, em alguns casos, a pessoas que não conseguem perdoar. 
Enquanto isso, o perdão tem sido visto como a possibilidade de viver melhor e com mais saúde. Uma questão não apenas subjetiva, mas que faz parte do campo da saúde. 

 

A atenção da ciência em relação ao assunto ganhou força nos últimos 15 anos. Os exames mais modernos de imagem como os eletromagnéticos começaram a medir com mais precisão a reação do cérebro e, consequentemente, do coração a situações de estresse similares ao perdão. 
É do cérebro que partem estímulos nervosos para o coração e o resto do corpo. 

A Psicologia, principalmente depois do advento da Psicanálise, em 1920, sempre se interessou pelos processos inconscientes e subjetivos dos seres humanos.  

Em uma mesa do 40º Congresso da Sociedade de Cardiologia do Estado de São Paulo (Socesp), em junho deste ano, a psicanalista Suzana Avezum apresentou uma pesquisa que mostra relação entre o enfarte agudo do miocárdio, quando a circulação de sangue para uma parte do coração é interrompida, e a dificuldade em perdoar. 

 

A pesquisadora entrevistou 130 pacientes que enfartaram, de 2016 a 2018, e encontrou maior incidência do problema entre aqueles que diziam ter dificuldade para perdoar.  Segundo a Secretaria de Saúda da Bahia (Sesab), neste ano, 2,8 mil pessoas foram internadas depois de sofrerem infarto do miocárdio. Não é possível determinar a causa direta de cada infarto. 

Na Bahia, o tema do perdão na saúde é tratado diretamente por médicos desde 2017, Foi quando surgiu o chamado Grupo de Estudos em Espiritualidade e Medicina Cardiovascular (Genca), ligado à Sociedade Brasileira de Cardiologia na Bahia. São 14 médicos dedicados no estado.

“Estamos num momento muito aberto uma Medicina um pouco diferente, sem tanta medicação, mas mais sutil, peculiar do ser humano”, explica Lucélia Magalhães, cardiologista coordenadora nacional do Genca.   

 

Até agora, descobertas comprovam, e explicam, como o ato de perdoar age bioquimicamente a ponto de fazer bem ao coração.  

Como o corpo reage 
Todas as situações traumáticas ficam, de alguma forma, registradas no corpo. No corpo, perdoar significa diminuir a quantidade de hormônios de estresse e de desgaste emocional como o cortisol , explica Lucélia,  

É quando a mágoa deixa de ser exclusivamente subjetiva e passa a ser passível de observação, física, palpável. Não há estudos que deem conta dos efeitos medicinais do perdão no corpo de quem o  recebe. Mas quem estuda o perdão está certo de efeitos positivos para ambos.

 

“Em alguém com raiva crônica, o cérebro fica modificado. Conseguimos ver, com marcadores cintilográficos [método de diagnóstico por imagem] alterações, explica.   

As lesões no coração podem ser causadas justamente nesse processo de alterações que levam a um aumento da frequência cardíaca e até a um processo de inflamação do endotélio, a parte mais interna do coração. 

A médica afirma que os estudos já conseguem apontar possíveis relações entre o câncer e sentimentos como a mágoa, a partir da produção excessiva do hormônio cortisol. Não há, no entanto, nenhum consenso científico sobre essa relação. 

 

Por enquanto, relata a cardiologista e psicoterapeuta Rosário von Flach, a ciência já atesta que qualquer momento estressante eleva a frequência cardíaca. 
São chamados de momentos estressantes qualquer episódio em que o corpo se vê obrigado a dar um resposta rápida a uma situação. É o que acontece, por exemplo, quando a mente recebe a notícia de uma  traição. 

Se os batimentos cardíacos são mais fortes, é porque o coração está sendo requisitado além da conta, pontua a médica. Outro ponto é que, na resposta a esse estresse, o corpo pode iniciar um processo inflamatório, que é uma resposta natural do corpo a uma possível desregulação interna ou externa como alterações de níveis de hormônios ou lesões físicas.

“O processo que leva ao infarto é justamente a formação de placas interna no endotélio”, ressalta.

O perdão é a possibilidade de deixar de reviver traumas e, com isso, ativar sensações e dores passadas. O ciclo de ativar substâncias danosas, então, é rompido. Não por isso, perdoar significa esquecer. 

Quando falam de perdão, as especialistas também falam de um processo de ressignificação de um trama. E não adianta ser apenas da boca para fora, pois o corpo não pode ser enganado.

“Um dia, algo que tem importância, perde sua força. Quando falo de esquecer, eu falo disso”, ressalta Von Flach.

Mas como perdoar?  
A Medicina já possui um vocabulário próprio para falar do perdão. Aquele que perdoa, por exemplo, é chamado de “magoado”, e o outro a quem se destina o perdão, de “objeto”. Para medir a disposição para o perdão, geralmente são aplicados questionários que supõem situações hipotéticas nas quais os pacientes precisam se colocar. 

“Medir, diretamente, não conseguimos, porque é uma coisa muito subjetiva. Mas costumamos perguntar: em tal situação, você seria capaz de perdoar?”, explica o doutor em Cardiologia Luiz Ritt e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia.  

Um momento traumático é registrado pelo corpo e o ressentimento – o ato de sentir de novo – traz à tona sensações passadas. Se a pessoa não conseguir ressignificar o sentimento, haverá um dano no corpo toda as vezes em quea pessoarelembrar um trauma passado. Isso porque as lembranças reativarão os mesmo processos bioquímicos, como a liberação de hormônios, como a situação fosse revivida.  

Embora seja possível comprovar que o perdão é curativo, não há receita de bolo, nem tempo específico, para perdoar. A médica Rosário Von Flach sugere momentos de busca pelo perdão. 

Primeiro, é preciso admitir que o sofrimento existe. Também é necessário dar espaço à vazão de sentimentos que aparecerão, como raiva e ódio. E compreender a humanidade do outro. Se quem magoou é humano, é esperado que erros sejam cometidos – falhas que são, inclusive, recíprocas. Nessa lógica, ninguém é vítima, ninguém é algoz.

O resultado é que quem errou começa a ser colocado numa posição de “educador”.

“Quando colocamos aquele que nos agrediu como nosso mestre, porque todo trauma nos ensina, passamos a honrá-lo como nosso mestre.

Se, até agora, você ainda acha que o perdão é impossível, vale dizer que os traumas, na verdade, são nossas primeiras experiências de vida.  O primeiro grande trauma sofrido é o próprio nascimento, quando somos lançados a força do único mundo conhecido a um universo completamente novo. 

“É uma situação traumática gravíssima. Você  lembra? Eu não. Mas o que foi difícil, depois de sermos bem recebidas, alimentadas, tudo aquilo fica como uma memória traumática que não reativa“, diz a médica. Então, se o nascimento pode ser perdoado, atesta a ciência, tudo pode. 

‘Achavam que falar de perdão não era ciência’
Quando, há 10 anos, começou a se interessar pelo tema do perdão, a cardiologista Lucélia Magalhães lembra que, em todo Brasil, eram apenas ela e outros seis médicos. A comunidade médica acreditava que aquilo sequer era ciência. 

“Lá dentro, havia um debate que aquilo não era ciência, mas provamos que é ciência, é baseado em estudos. Achavam que falar de perdão não era ciência”, lembra a médica. 

Os seis médicos, ao longo dos anos, viraram 930 – quantidade de médicos cadastrados no Genca Brasil. Se antes, também era escassas as produções científicas, entre cinco e seis no ano, hoje, a média anual é mais que o triplo.  

O assunto do perdão faz parte de um tópico chamado de “espiritualidade” pela Medicina. A espiritualidade, explica o cardiologista Luiz Ritt, é compreendida não sob o ponto de vista religioso, mas como “conjunto de valores morais, mentais e emocionais que norteiam pensamentos, comportamentos e atitudes nas circunstâncias da vida de relacionamento inter e intrapessoal”. 

Neste ano, a Sociedade de Cardiologia lançou uma diretriz especifica espiritualidade e saúde. O documento sugere que os médicos perguntem de modo aberto sobre os valores dos pacientes, por exemplo. 

Hoje, em Salvador, duas faculdades de Medicina têm matérias específicas sobre espiritualidade, segundo Lucélia Magalhães – a Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia e o Centro Universitário UFTC. 

Em agosto de 2017, quando o Genca Bahia foi lançado, em média 240 pessoas se reuniam para discutir questões mais subjetivas ligadas à Medicina.

“Só tende a crescer. Tínhamos que começar com embasamento científico, se não, não conseguiríamos sobreviver”, opina Lucélia. 

O doutor em cardiologia Luiz Ritt afirma que ainda não é padrão, nos hospitais, levantar a rotina psicológica do paciente, como ele se relaciona nos momentos de raiva, do que ele sente raiva, se ele é capaz de perdoar. 

A incorporação das demandas ditas espirituais nas consultas depende, no entanto, de cada médico. E das próprias demandas dos pacientes, opina Ritt, que cada vez mais solicitam abordagens mais pessoais e subjetivas. “As pesquisas, nesse sentido, são mais recentes. Acho que estamos num processo de difundir mais esse conhecimento”, finaliza.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Professora Divina promove campanha pela não violência

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Professora Divina promove campanha pela não violência

Com o objetivo de despertar a conscientização de cada cidadão sobre a cultura da paz e a prática da não violência, a professora Dra Divina e os estudantes do curso de Pedagogia do Centro Universitário Módulo, promoveram no último dia 4/11, um encontro com o objetivo de debater a invisível violência psicológica que ainda afeta boa parte da população, sobretudo, os mais fragilizados socialmente e que inclusive foi relatada por várias estudantes em situações que vivenciaram esse tipo de experiência.

Em 2019, o município de Caraguatatuba por meio das secretarias municipais vem realizando a campanha dos 16 dias de atividades em prol do fim de todo tipo de violência e o Centro Universitário Módulo não podia ficar de fora. Dessa forma, os estudantes de pedagogia decidiram abordar a violência psicológica e tentaram mobilizar e conscientizar os demais cursos a participarem da iniciativa não apenas na universidade, mas durante a vida externa ao ambiente pedagógico.

O evento é realizado mundialmente, entre 25 de novembro, Dia Internacional da Não Violência contra a Mulher, e 10 de dezembro, data em que foi proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos. As atividades promovidas pelo município de Caraguatatuba visam o enfrentamento de toda forma de violência contra a mulher, com campanhas que pretendem ainda promover o debate sobre os demais tipos de violências e estimular a cultura da paz e do convívio harmonioso entre todos, independentemente de classe social, gênero, grupo etário etc.

Assim, durante as atividades que foram iniciadas com o curso de pedagogia, relativas às ações que abordaram a violência psicológica, criou-se um ambiente seguro e oportuno onde os estudantes pensaram e apresentaram situações pelas quais os próprios foram submetidos a algum tipo de violência dessa natureza.

As experiências foram expostas por meio de frases e para trabalhar esse trauma, foi proposta a construção de poesias, por meio das quais se pretendeu superar dores e angústias que ainda assolassem aqueles que sofreram as violências reportadas. Dessa forma, o resultado do trabalho foi exposto em painéis, assim como foi efetuado o convite para toda a faculdade – professores, alunos e funcionários a participarem do projeto.

A exposição de painéis estará à mostra até o dia 14 de novembro, e terá como objetivo conscientizar os universitários, bem como o público em geral, para pensar a respeito do tema e analisar se os próprios estariam sendo vítimas deste tipo de violência, para assim buscarem a devida a ajuda para superar esse mal.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Expo + Fórum e Coquetel marcam o lançamento do livro Intergercionalidade: Cartas na Mesa

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Expo + Fórum e Coquetel marcam o lançamento do livro Intergercionalidade: Cartas na Mesa

Baseado na pesquisa desenvolvida por Divina de Fátima dos Santos, durante a produção de sua tese de doutorado, o livro Intergeracionalidade: Cartas na Mesa teve seu lançamento oficializado entre os meses de setembro e outubro de 2019.

Sua pré-venda teve início na ocasião do evento Expo+Fórum da Longevidade, sediado na ExpoCenter em São Paulo no dia 29 de setembro e que contou com a participação de diversos profissionais que atuam no setor de qualidade de vida.

No primeiro dia do mês de outubro, também na cidade de São Paulo, Divina promoveu o coquetel de lançamento de sua obra. A celebração ocorreu no Espaço Vila dos Louros, na Vila Madalena e reuniu amigos e familiares que apreciaram momentos de confraternização durante o lançamento oficial de Intergeracionalidade: Cartas na Mesa.

Confira as imagens abaixo!

Pré-venda na Expo+Fórum da Longevidade

Coquetel de lançamento

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

A arte de morar só e ser feliz na velhice

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

A arte de morar só e ser feliz na velhice

Divina Fátima Santos
Ana Maria R. Tomazzoni
Flamínia Manzano Moreira Lodovici
Suzana da A.Rocha Medeiros

Este estudo visa a analisar os motivos que levam uma pessoa a viver sozinha na terceira idade e o que ela pensa a respeito da ILPI – Instituição de Longa Permanência para Idosos. Como uma das etapas da pesquisa, realizamos entrevistas com 15 pessoas idosas que vivem sozinhas, de ambos os sexos, com idades variando dos 60 aos 93 anos e diferentes graus de instrução, que vivem em São Paulo, Grande ABCD (SP) e em uma cidade de Santa Catarina. Nosso objetivo inicial foi tentar entender as razões pela opção solitária de moradia, uma vez que vem crescendo o número de pessoas idosas que vivem sozinhas, em parte devido à longevidade humana que ora se verifica. Trata-se de uma análise qualitativa efetuada a partir das respostas dos idosos entrevistados, obtidas no primeiro semestre de 2010. Verificou-se que morar só, no sentido de ter autonomia, independência, pode ser desejo de muitas pessoas como condição para ser feliz, embora se constate quase como uma impossibilidade para grande parte da população.

Velhice e Moradia

O Brasil, do mesmo modo que outros países desenvolvidos, já sabe que tem um novo desafio – a velhice – com as consequências que isso acarreta. Uma delas é a questão de onde morar. Até agora falávamos em convivência de três gerações; doravante teremos de inserir uma quarta geração, pela maior expectativa de vida apresentada pelas pessoas, conforme dados da OMS (Organização Mundial de Saúde). A estimativa da OMS é de que existam 670 milhões de homens e mulheres com mais de 60 anos no mundo. Em 2050, eles serão 1,97 bilhão, um crescimento de cerca de 200%.

A expectativa de vida da humanidade, que era de 50 anos em meados do século XX, saltou para 80 anos em 2010. No Brasil era de 43 anos em 1945, e hoje é de 73. O IBGE já projeta uma inversão no perfil demográfico do país, com mais idosos do que jovens, para logo mais, em 2030, ou seja, dentro de 20 anos.

Esses números dão uma clara dimensão da reflexão necessária e das medidas que têm de ser tomadas por governos, sociedades, empresas e pessoas, para que todos possam enfrentar na hora certa o que a nova realidade começa a impor.

Ao falar em velhice, faz-se necessário pensar de forma ampla e desse modo compreender o envelhecimento como fenômeno multifacetado e particularizado ao mesmo tempo, pois a velhice é constituída por características específicas (biológicas, sociais, psicológicas, históricas, culturais, de gênero) que formam um todo, o complexo ser idoso.

Essa complexidade, associada à diversidade desse ser idoso, revela comportamentos, ações e desejos únicos e heterogêneos, diretamente interligados na relação entre ser e ambiente e, nesse contexto, entre o idoso e sua moradia.

Vemos, portanto, que a relação entre o idoso e sua moradia representa a expressão de sua identidade, com as suas marcas significativas e pessoais, para a construção de seu meio de proteção e de bem-estar, um espaço próprio sob seu domínio e controle.

Para ter acesso ao artigo completo, clique aqui!

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Livro sobre relações triangulares conta com participação de docente do Centro Universitário Módulo

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Livro sobre relações triangulares conta com participação da professora Dra Divina

Por Patrícia Pereira

O artigo “avós, filhos e netos – um estudo sobre relações intergeracionais”, de autoria de Divina de Fátima dos Santos, docente do Centro Universitário Módulo (Caraguatatuba/SP) e da Faculdade de São Sebastião (FASS), e de Gabriela Garcia Plaza Teixeira e Renata Plaza Teixeira, integra o livro “Relações triangulares: dois é bom, três é demais?”, publicado pela Juruá Editora. O lançamento da obra ocorreu no dia 3 de setembro de 2019 na Livraria da Vila, no Jardim Paulista, em São Paulo/SP.

Professora Divina explica que a obra surgiu a partir de uma reflexão sobre como viver em sociedade nos tempos atuais e como as pessoas se relacionam entre seus graus de parentesco.De acordo com ela, a linguagem é acessível e permite aos estudantes elucidarem conceitos, fornecendo também ao leitor leigo a compreensão da dinâmica familiar com exemplos do cotidiano.

Entre os temas do livro estão: família e relações familiares, casamento intercultural, temática do casamento, bullying escolar e seus motivos, o nascimento dos filhos, trans-geracionalidade e depressão, crianças em terapia, família e escola, entre outros abordados nos capítulos. A temática do artigo do qual a docente do Módulo participou aborda questões referentes às relações vivenciadas entre gerações. “Trata-se de como se dá a relação entre avós, filhos e netos, gerações que coabitam, dividem, se educam, reeducam, trocam experiências entre si no meio interno e externo”, disse Divina.

O artigo da professora é encontrado no 39º capítulo e contém 22 páginas. Todas autoras do livro fazem parte de um grupo de pesquisa de famílias, da PUC/SP, sob orientação da professora CeneideCerveny. Para a produção dos textos, as autoras desenvolveram pesquisas sobre triangulações familiares. “O tema é contínuo, com diversas perspectivas a serem abordadas”, completou a docente.

Saiba mais sobre a autora

Divina de Fátima dos Santos é doutora em psicologia clínica (2015) e mestre em gerontologia social (2010) pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Tem graduação em pedagogia pela faculdade de educação da PUC/SP na habilitação administração escolar (2007) e em orientação educacional pela Universidade Paulista (1992) e graduação em psicologia clínica pela Universidade Paulista (1996). A docente tem ainda especialização em psicodrama (2002) e em psicopedagogia (2005) pela PUC/SP. Atualmente, Divina é professora dos cursos de graduação e pós-graduação do Centro Universitário Módulo, em Caraguatatuba (SP), e da Faculdade São Sebastião (FASS), onde coordena o núcleo de apoio psicológico e psicopedagógico dos alunos. A docente é colaboradora do www.portaldoenvelhecimento.org.br e do Conselho Regional de Psicologia do Vale de Paraíba e Litoral Norte de São Paulo, além de desenvolver pesquisas envolvendo encontros intergeracionais, coeducação entre gerações e escrita terapêutica.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Breve reflexão sobre a intergeracionalidade na pesquisa científica

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Breve reflexão sobre a intergeracionalidade na pesquisa científica

02/03/2019 José Carlos Ferrigno

Devemos cultivar a humildade, a paciência, a perseverança e, sobretudo, a capacidade de auto-observação durante nossas investigações sobre a intergeracionalidade.

Atividades, projetos e programas intergeracionais têm se multiplicado dentro e fora do Brasil desde os anos 90, a partir da percepção de que a aproximação de velhos e jovens pode se constituir como uma resposta ao distanciamento ou até mesmo aos conflitos de geração. Comumente compostas por atividades lúdicas, culturais e de lazer, tais programas são voltados para a coeducação e a solidariedade etária. Também podem se apresentar em ações voluntárias e militantes, adquirindo mais fortemente um caráter assistencial e/ou político. Nesse caso, temos gerações ombro a ombro trabalhando em prol da comunidade, como é o caso das comissões intergeracionais em ações comunitárias, sobretudo na Inglaterra e na Alemanha, países em que esse tipo de intervenção se encontra mais desenvolvida.

As ações intergeracionais também podem ser percebidas como aliadas na luta contra discriminações ao “diferente”, perfilando-se ao lado das mobilizações contra o preconceito à mulher, ao negro, ao homossexual, ao imigrante etc. De fato, tanto o velho quanto a criança e também o adolescente não são devidamente respeitados em seus direitos e na expressão de seus desejos e potencialidades, como bem ressalta Divina dos Santos em sua tese de doutorado (SANTOS, pp.40-41). Mas, felizmente, há resistência a essa opressão, é bom lembrar Simone de Beauvoir quando ela nos fala sobre a salutar cumplicidade de avós e netos na resistência às imposições do dono e da dona da casa, a chamada geração intermediária, frequentemente detentora do poder econômico, físico e psicológico no ambiente familiar (BEAUVIOR, 1990, p. 270). Também por isso, a relação avós e netos é especial porque pode ser um contraponto ao nosso contexto socioeconômico marcado pela competição, pelo individualismo e pelo consumismo.

A intergeracionalidade merece uma abordagem científica. Nesse sentido, como devemos agir como pesquisadores das relações intergeracionais? Como abordar os entrevistados? Ecléa Bosi em “O Tempo Vivo a Memória”, no capítulo intitulado “Sugestões para um jovem pesquisador” nos diz: “Às vezes falta ao pesquisador maturidade afetiva ou mesmo formação histórica para compreender a maneira de ser do depoente(ou de nossos sujeitos jovens e velhos, diria eu). Somos em geral (prossegue a autora) prisioneiros de nossas representações, mas somos também desafiados a transpor esse limite, acompanhando o ritmo da pesquisa” (BOSI, 2003, p. 61). Nessa perspectiva, penso que devemos cultivar a humildade, a paciência, a perseverança e, sobretudo, a capacidade de auto-observação durante nossas investigações.

Ainda bebendo do rico manancial nos deixado por Ecléa, na mesma obra acima citada, dessa vez no capítulo “Entre a opinião e o estereótipo”, ela comenta a alvissareira possibilidade do pesquisador desenvolver amor por seu objeto de estudo e de sua ação profissional. Assim o fazendo, ela sugere que mais do que a aquisição de técnicas, pode-se falar, então, de uma conversão à causa de pessoas oprimidas e estigmatizadas (BOSI, 2003, p. 61).

Outro aspecto que considero importante é a compreensão de que a ciência nos solicita parcimônia em nossas conclusões. Devemos ser econômicos em relação aos resultados de nossas pesquisas, evitando afirmações categóricas, por mais sedutoras que possam ser. É um longo processo, decorrente de uma prática constante e sistematizada. É a práxis, reflexão resultante da digestão e da assimilação de nossas práticas cotidianas. Determinadas ações que desencadeamos, em uma primeira etapa, são movimentos que levam a uma sensibilização, uma espécie de prontidão para começar a pensar no assunto. A mudança de atitudes e comportamentos demanda tempo. Isso vale para pessoas e para instituições.

“O pesquisador deve ser sensível e aderir à causa de seus sujeitos. Quando estudamos as gerações, devemos estudá-las não como algo estranho à nossa natureza, como um objeto de estudo em relação ao qual mantemos distância em uma (impossível) neutralidade. Mas sim com nossa própria geração, nossas experiências, nossa história de relação com os mais velhos e com os mais novos. Já fomos crianças, seremos velhos (ou já somos)”

Cora Coralina, durante entrevista no Sesc Pompéia, em São Paulo no ano de 1982, ao ser perguntada sobre o que achava da idade que tinha respondeu: “Eu tenho dentro de mim todas as idades, da criança, da moça e da velha”. Essa experiência interna nos fornece elementos importantes para pensarmos sobre as gerações. Devemos estar alerta para o valor da empatia, pois devemos nos esforçar para entender o sentido que nossos sujeitos pesquisados dão às suas vidas, suas escolhas, representações, desejos e posição no mundo, para sondarmos e descobrirmos algo dos profundos de sua subjetividade. O tempo dirá sobre a eficácia dos programas intergeracionais. O ideal é que no futuro, ações dessa natureza não sejam mais necessárias, na medida em que recuperarmos o vigor da vida comunitária (se o recuperarmos). As perspectivas desses programas são promissoras, mas, elas não são panaceias, não tem o poder de revolucionar as relações sociais. É preciso lembrar que as dificuldades do diálogo intergeracional devem ser compreendidas no contexto maior das relações humanas no mundo em que vivemos. Portanto, em última instância, o bom convívio entre pais e filhos, avós e netos, velhos e moços dentro e fora da família depende da transformação radical das estruturas econômicas e de suas superestruturas políticas. Quando se trabalha com o objetivo da aproximação de pessoas marcadas pela diferença, no nosso caso a etária, o primeiro passo é buscar que se familiarizem umas com as outras. Nesse caminho as diferenças são paulatinamente conhecidas e, posteriormente, na melhor das circunstâncias, aceitas. O grau máximo desse processo é o desenvolvimento da admiração pelo outro por ele possuir algo que me falta e daí desejar sua presença para que se dê essa complementação, na forma de um constante aprendizado recíproco. Temos aí uma relação igualitária, sem dominação. Mais uma vez, recordo Ecléa Bosi quando pondera: Quando duas culturas se defrontam, não como predador e presa, mas como diferentes formas de existir, uma é para a outra como uma revelação” (BOSI, 2003, p. 175). Isso vale para povos, isso vale para pessoas.

Referências
BEAUVOIR. Simone de. Velhice. Rio de Janeiro. Editora Nova Fronteira, 1990.
BOSI, Ecléa. Sugestões para um jovem pesquisador. In: BOSI, Ecléa. O tempo vivo da memória: ensaios de Psicologia Social. São Paulo: Atelier Editorial, 2003.
SANTOS, Divina de Fátima dos. Olha para mim: encontro de gerações intermediado pela escrita de cartas. Tese de doutorado. Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. 2015.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica