Manual da Longevidade – Guia para a Melhoria da Qualidade de Vida os Idosos

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Manual da Longevidade - Guia para a Melhoria da Qualidade de Vida os Idosos

Manual da Longevidade - Guia para a Melhoria da Qualidade de Vida dos Idosos

O livro aborda aspectos do envelhecimento focando nas perspectivas trazidas por tal processo. Para isso, a obra conta com a participação de especialistas que apresentam estudos e reflexões sobre identidade, lazer, cultura, saúde entre outros assuntos que se relacionam às pessoas idosas. O tema do envelhecimento ainda carrega diversas questões sobre mudanças, qualidade de vida e sobre a compreensão de modo geral sobre essa importante tapa da vida.

Avôs e Netos na Contemporaneidade

Por Divina de Fátima dos Santos e Jucileide do Socorro Tavares Maciel

Numa sociedade marcada pela pluralidade, por culturas diferenciadas, por valores cada vez mais pessoais, pensar na família enquanto referência, tem se mostrado muito difícil, na medida em que se observa um novo contexto social que, segundo Wagner (2011), é marcado por um novo panorama que assinala a necessidade de tratar de “famílias” no plural, descartando a singularidade.

Partindo desse pressuposto, é importante considerar o pluralismo contextual, as regras sociais e as atitudes, bem como a evolução da sociedade (aumento da oferta de trabalho, avanço da tecnologia e processo de globalização). Isto por sua vez tem implicado em novas demandas sociais (incremento da competitividade, aumento do desemprego estrutural e precariedade populacional).

O futuro da organização familiar é colocado em discussão, haja vista, que vários são os modelos ora instalados, o que resulta em mudanças paradigmáticas. Repensar a questão identitária da família, suscita refletir também sobre os valores e padrões, tarefa considerada difícil, na medida em que, segundo Wagner (2011), as famílias conjugais, monoparentais, de 2º casamento, homoafetivas, entre outras, funcionam direcionadas às suas respectivas composições.

Pensar em modelos de família significa a priori compreendê-los como um sistema que se caracteriza por grupos de pessoas com especificidades e com papéis próprios. Portanto, este sistema independente do modelo é formado por membros que ora se aproximam e ora se distanciam. Estes membros estabelecem acordos e regras, mas às vezes apresentam dificuldades em manter a demarcação das fronteiras que caracterizam as relações sociais.

No âmbito das discussões e dos papeis relacionados à família, é fundamental refletir sobre o papel dos avós nessa sociedade marcada pela heterogeneidade. Segundo Leite (2002), crianças e velhos são sujeitos não reconhecíveis pela sociedade. Os velhos “porque já foram e as crianças porque ainda não são” (FERRIGNO, 2003). Observa-se nesse contexto uma discriminação concreta, como se a eles o presente não pertencesse. Na tentativa de se manter no contexto dessas tensões, avós e netos procuram insistentemente realizar ações que contestem o quadro supracitado. Segundo os autores, estes sujeitos são mediatizados pela cultura num trabalho de criação, recriação, produção e reprodução; por outro lado, contraditoriamente são descartados como se não fizessem parte dessa mesma cultura.

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Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Cartas Intergeracionais: seus efeitos e significados

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Cartas Intergeracionais: seus efeitos e significados

O Brasil tem atualmente 11,8% da população de idosos, e é previsto que em 2025 seja a 6ª maior população de idosos do mundo. Por este motivo, diversos recursos de trabalho para esta população vêm sendo desenvolvidos, uma dessas são as práticas Intergeracionais (BODSTEIN; LIMA; BARROS, 2014).

Para Goldfarb e Lopes (2006 apud Santos, Cerveny e Silveira, 2012), a aproximação de diferentes gerações, inclusive entre crianças e idosos, pode promover e facilitar crescimentos para ambos, enfraquecendo os preconceitos e estimulando o desejo de viver plenamente a vida cultural e social.

Escrever cartas na escola é uma prática comum para as crianças no Ensino Fundamental, apesar de parecer coisa ultrapassada na atualidade devido a tecnologia, o uso quase exclusivo de computadores e celulares com internet. Portanto, pode-se questionar a função da escrita de cartas neste contexto. De acordo com Santos, Cerveny e Silveira (2012, p. 112) “escrever cartas constitui-se uma das inúmeras maneiras possíveis de entrar em contato com outras pessoas com as quais podemos iniciar ou manter um relacionamento”.

Em um centro de referência para a terceira idade de Caraguatatuba foi realizado o projeto “Encontro de Gerações”, baseado em trocas mensais de correspondências entre idosos que frequentam o centro e crianças na faixa de 10 anos que são estudantes do ensino fundamental da rede municipal de ensino (SANTOS; CERVENY; SILVEIRA, 2012).

A troca de cartas promoveu a autoria, além de ativar a imaginação das crianças e dos idosos. A prática também se torna um recurso de estimulação da memória, na medida em que os idosos escrevem sobre suas experiências passadas. “Escrever dá “vida” e significado a um pequeno pedaço de papel tecnicamente sem valor, além de tornar presente os ausentes” (SANTOS; CERVENY; SILVEIRA, 2012, p. 113).

De acordo com Pennebaker e Beall (1986 apud Santos, Cerveny e Silveira, 2012) a escrita funciona como um recurso de ressignificação de si e dos outros pela influência no comportamento das pessoas, uma vez que passam a acreditar mais em si mesmas. As palavras escritas são relatos que podem revelar sentimentos e significados. Não são recursos inventados pela psicologia, mas disparam aspectos cognitivos, afetivos e emocionais, mobilizam relações potentes, pois são abertas e abrem os processos de significação.

A partir disto, sugere-se que a troca de Cartas Intergeracionais se qualifica como uma tecnologia psicossocial, pois é um processo que estabelece relações “intercessoras”, ou seja, produz algo entre os sujeitos, é um processo que existe para os idosos e para as crianças e não teria existência sem o momento da relação em processo. Portanto, este processo caracteriza-se como uma tecnologia psicossocial pela potência de agenciar o encontro, de possibilitar trocas, relações de acolhimento e estabelecimento de vínculo (MERHY; FRANCO, 2003).

Dito de outra forma, a utilização de um processo sistematizado, que consiste na troca de correspondências entre idosos de uma instituição e criança de uma escola, é um “processo de construção social, política, cultural, subjetiva”, que configura “um novo sentido para as práticas assistenciais, tendo como consequência o impacto nos resultados a serem obtidos” (MERHY; FRANCO, 2003, p. 09).

Esta tecnologia psicossocial poderia ser aplicada, por exemplo, nos atuais Centro de Convivência do Idoso (CCI). Neste serviço, são organizados grupos de convivência, com uma média de 20 participantes, e encontros de duas horas semanais. As atividades são planejadas com o objetivo de contribuir para o processo de envelhecimento saudável, autonomia, sociabilidade e fortalecimento de vínculos.

Atividades Intergeracionais são conhecidas pelos trabalhadores deste serviço, contudo a novidade está nas cartas como dispositivo, e no “manejo” do vínculo entre as crianças e os idosos que é viabilizado. Este processo pode contribuir para o desenvolvimento da autonomia, na medida em que o idoso escreve sozinho as suas cartas, escolhe o conteúdo da comunicação, e lê as que são endereçadas a ele. Além disso, muitas memórias podem ser evocadas e, novos sentidos produzidos.




REFERÊNCIAS
BODSTEIN, Airton; LIMA, Valéria Vanda Azevedo de;  BARROS, Angela Maria Abreu de. A vulnerabilidade do idoso em situações de desastres: necessidade de uma política de resiliência eficaz. Ambiente & Sociedade, v.17, n.2, pp.157-174, 2014.

MERHY, Emerson Elias; FRANCO, Túlio Batista. Por uma composição técnica do trabalho centrada nas tecnologias leves e no campo relacional. Saúde em debate, v. 27, n.65, Rio de Janeiro, 2003.

SANTOS, Divina de Fátima dos; CERVENY, Ceneide Maria de Oliveira; SILVEIRA, Nadia Dumara Ruiz. Vivendo, escrevendo e reescrevendo a vida: Encontros Intergeracionais. Revista Portal da Divulgação, n. 28, ano III, p. 111-117, 2012. Disponível em: . Acesso em 25 mai. 2016.



Fonte: Plataforma Psicossociais

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Fórum Perspectivas para Ações junto ao Cidadão – Idoso Carta de Bertioga 2013

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Fórum Perspectivas para Ações junto ao Cidadão Idoso - Carta de Bertioga 2013

Como parte das comemorações dos 50 anos do Trabalho Social com Idosos, programa pioneiro no Brasil realizado pelo Serviço Social do Comércio – Sesc – , cerca de 120 profissionais e lideranças idosas, entre técnicos, especialistas, pesquisadores, educadores e gestores, vinculados à questão da velhice e do envelhecimento, vindos de todo o Brasil, do Chile e de Portugal, estiveram reunidos de 8 a 11 de setembro de 2013, no Sesc Bertioga em São Paulo.

Neste Fórum Perspectivas para Ações junto ao Cidadão Idoso foram analisadas as atuais políticas públicas brasileiras voltadas para a velhice e propostas nas áreas de Formação e Educação Permanente:

Autonomia, Direitos e Cidadania; Gerações e Intergeracionalidade; e Cuidado e Relações Sociais.

Como resultado dessa reunião foram consolidadas as seguintes estratégias: Socioeducativas e intergeracionais; Midiáticas; Financeiras e Fiscais; Políticas intersetoriais e de cuidado, etc.  Tais estratégias estão fundamentadas na visão de um cenário mais favorável em relação ao atual momento que vivemos.

Num país contrastante como o nosso, é mais apropriado falarmos em velhices. Registre-se a posição consensual desse grupo de trabalho: as ações públicas e privadas ainda estão muito distantes do ideal para

a promoção de um envelhecimento digno. A maioria dos brasileiros sofre com a carência de serviços públicos adequados e preparados para lidar com as especificidades introduzidas pela velhice, nas áreas

de previdência, assistência, saúde, educação, cultura, lazer, trabalho, justiça, habitação, transporte, dentre outros.

Acrescentem-se o individualismo, a competição e o consumismo decorrentes dos valores predominantes de nossa época que penalizam de modo especial os velhos, vistos preconceituosamente como seres desprovidos de competências e, portanto, de serventia social. 

No Dia Internacional do Idoso, 1º de outubro de 2013, os participantes deste Fórum apresentam à sociedade brasileira, como resultado das discussões, as perspectivas e estratégias para o aperfeiçoamento das políticas sociais, com vistas a elevar a pessoa idosa a sua plena cidadania.

O Fórum considera a realidade do envelhecimento da população brasileira para as próximas décadas e antevê um cenário futuro de efetivação de políticas setoriais e de direitos, com maior protagonismo, participação social e cidadã da pessoa idosa. O pleno exercício do Controle Social Democrático se fará em articulação com o Estado e a sociedade civil organizada por meio do monitoramento dessas políticas.

Para esse cenário favorável é importante cultivar relações responsáveis, solidárias, intergeracionais e coeducativas para que se concretizem estratégias imediatas e continuadas que permitam ao conjunto da sociedade brasileira a garantia de visibilidade da diversidade na velhice, da intergeracionalidade e protagonismo da pessoa idosa; educação plena; cuidado digno e da participação da sociedade civil envolvida no monitoramento das políticas públicas.

Algumas imagens dos diferentes grupos de trabalhos

Visibilidade Da Diversidade Na Velhice, Da Intergeracionalidade E Do Protagonismo Da Pessoa Idosa 

A pessoa idosa terá suas diferenças valorizadas porque o envelhecimento será reconhecido como uma realidade social e individual única que demanda:

    1.  Interação intergeracional em novos arranjos familiares de maneira compreensiva e respeitosa;
    2. Preparação corporativa, antes e após a aposentadoria, para a participação de pessoas idosas, buscando abolir todas as formas de discriminação etária no mundo do trabalho;
    3. Programas que abordem e valorizem o protagonismo da pessoa idosa, a intergeracionalidade e as diferentes velhices;
    4. Relações intergeracionais frequentes e solidárias nos ambientes de participação social e em outros espaços compartilhados como: sindicatos, movimentos sociais, conselhos, condomínios, partidos políticos, clubes, fóruns, conferências etc.

Educação Plena

No sistema educacional como um todo, formal e informal, haverá:

  1.  Respeito e compreensão intergeracional em um ambiente de mútuo entendimento entre crianças, jovens, adultos jovens e adultos idosos;
  2.  Politização dos sujeitos sociais e reforço a experiências e ações socioeducativas intergeracionais que ultrapassem as próprias fronteiras;
  3.  Programas de capacitação e formação via instituições públicas e privadas que atuem no âmbito do envelhecimento para instrumentalizar os integrantes das organizações comunitárias, a fim de que exerçam o monitoramento das políticas públicas;
  4.  Espaços públicos intergeracionais, inclusive escolas abertas nos finais de semana, com a participação simultânea, a inclusão digital e o acesso a informações, via mídias e meios de comunicação, que contemplem a autonomia e a garantia de direitos dos cidadãos de todas as gerações;
  5.  Utilização de inovações científicas, sociais e tecnológicas que favoreçam o envelhecimento, o cuidado e as relações sociais;
  6.  Inclusão da temática do envelhecimento em todos os cursos de graduação e oferta de cursos universitários para profissionais voltados ao envelhecimento humano e ao cuidado digno em todas as esferas de atenção à pessoa idosa;
  7.  Apoio a pesquisas e criação de instrumentos para um diálogo entre a produção de conhecimentos e as políticas públicas relacionadas ao envelhecimento, bem como a valorização dos programas de extensão universitária relacionados ao cuidado;
  8.  Mapeamento das demandas; identificação e contato de parceiros; estruturação e alimentação de redes; criação de um Observatório para a adequação das grades curriculares, com a inclusão de conteúdos sobre o envelhecimento; e replicação das experiências;
  9.  Cultura de Monitoramento e Avaliação na Área da Educação Permanente com definição de indicadores qualitativos e quantitativos com a participação de todos os envolvidos.

Cuidado Digno

Os serviços públicos e privados de atenção terão maior capacidade e qualidade para cuidar do ser humano na velhice porque haverá:

  1.  Aguçamento do olhar e redimensionamento da questão do cuidado para o autocuidado, o cuidado com o outro, com o coletivo e com o planeta;
  2.  Qualificação do voluntariado e estímulo à solidariedade e responsabilidade cidadã, aproximando a sociedade e a população fragilizada;
  3.  Acessibilidade, ambiência, sustentabilidade e humanização do cuidado;
  4.  Estruturas de apoio ao Cuidado e ao cuidador, extensivas aos profissionais envolvidos, em parceria com instituições de ensino, saúde, assistência social e demais, nas diferentes modalidades legalmente previstas;
  5.  Suporte ao núcleo familiar afetado pela necessidade de cuidados prolongados, por dependência financeira, física, cognitiva e / ou emocional dos envolvidos;
  6.  Rede de cuidado integral, com participação ativa da sociedade em programas de cuidados de curta, média e longa duração, incluindo a presença de cuidadores domiciliares financiados pela seguridade social;
  7.  Mapeamento das pessoas idosas residentes na comunidade e em instituições; utilização de instrumentos de gestão para tornar visíveis suas necessidades, com vistas a cobertura integral das demandas e serviços.
Algumas imagens do encontro com alguns dos participantes

Sociedade Civil Envolvida No Monitoramento Das Políticas Públicas

A sociedade civil estará organizada em conselhos, fóruns, canais institucionais e movimentos sociais para garantir:

 

  1.  Acesso aos direitos fundamentais para toda a população, com atenção e atendimento das políticas públicas setoriais: educação, cultura, saúde, assistência, previdência, justiça, moradia, transporte, esporte, lazer, mobilidade urbana e social, dentre outras;
  2.  Respeito aos acordos e diretrizes internacionais para o cuidado ao longo da vida e em favor do envelhecimento digno, com a plena participação da sociedade civil;
  3.  Sistema de garantia de direitos articulado em rede, fortalecido e com visibilidade;
  4.  Conselhos Municipais paritários em todos os municípios, organizados em câmaras setoriais, dotados de recursos físicos, humanos e financeiros e com processo de eleição direta de seus membros;
  5.  Atuação intersetorial e em rede dos Conselhos de direitos e demais conselhos, em todas as esferas de governo para efetivação das políticas públicas em sua transversalidade;
  6.  Inclusão da questão do cuidado ao longo da vida junto a organizações comunitárias, conselhos, fóruns e órgãos, a fim de tornar públicas as questões que envolvem as políticas de cuidado;
  7.  Políticas relativas ao envelhecimento e ao cuidado instituídas e fortalecidas nos três níveis de governo, com financiamento assegurado;
  8.  Programas de educação previdenciária e de ampliação de acesso a direitos para a população idosa, incluindo aposentadoria pública com remuneração digna;
  9.  Credibilidade nas representações políticas e partidárias;
  10.  Reforma fiscal que atenda melhor as necessidades da sociedade como um todo;
  11.  Divulgação e transparência das informações dos orçamentos e os recursos públicos das políticas setoriais em redes sociais fortalecidas; conhecimento e revisão da utilização dos recursos destinados a
  12. sindicatos, associações e conselhos profissionais, exigindo a prestação de contas;
  13.  Articulação de princípios e políticas legais, entre o Estado e sociedade civil, bem como planejamento estratégico de recursos e estruturas públicas em favor das questões relativas ao envelhecimento, nos níveis federal, regional e municipal;
  14.  Intersetorialidade das políticas públicas, principalmente entre saúde, assistência social e educação – com a criação de núcleos intersetoriais, no nível local, planejando as intervenções e o financiamento juntos, integrando territórios e valendo-se de equipamentos híbridos;
  15.  Políticas habitacionais com moradias acessíveis e inclusivas em locais com acesso a saneamento, iluminação e serviços públicos de qualidade;
  16.  Prevenção, enfrentamento e punição de toda forma de violência contra a pessoa idosa, por meio de atuação em rede de entidades governamentais e da sociedade civil organizada, nos níveis federal, estadual, do Distrito Federal e municipais.

 

Comissão Organizadora do Fórum Perspectivas para Ações junto ao Cidadão idoso.

1 de outubro de 2013

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Famílias intergeracionais sob o mesmo teto estão sob o olhar analítico dos profissionais de psicologia

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Famílias intergeracionais sob o mesmo teto estão sob o olhar analítico dos profissionais de psicologia

O número de famílias com várias gerações dividindo o mesmo teto tem sido cada vez maior, tornando-se objeto de estudo de um grande número de profissionais da psicologia com  diferentes pesquisas em várias cidades do Brasil.

É cada vez maior o número de pesquisas com a temática da longevidade e do envelhecimento humano nos grandes eventos e congressos em diferentes partes do Brasil. Não foi diferente no XXXIV Congresso Interamericano de Psicologia, que este ano, acorreu entre os dias 15 a 19 de Julho de 2013 na bela cidade de Brasília. O evento teve a participação de pesquisadores de vários países da América Latina, da Europa, dos Estados Unidos, do Canadá e até mesmo da Rússia, o que favoreceu o intercâmbio de pesquisadores e assuntos. O evento contou com inúmeros simpósios, mesas redondas, pôsteres, conferências, atividades culturais, premiações e visitas a diferentes entidades de Brasília e de seu entorno. Com uma programação intensa e diversificada, foi bem difícil escolher o que ver.

A psicologia possui grandes áreas de estudo e pesquisa e, em encontros como este, pode-se ampliar o conhecimento nos mais variados temas desta ciência. Os estudos sobre as questões do envelhecimento humano que até recentemente eram bastante tímidos nesses eventos, vêm conquistando maior espaço a cada ano.

Ceneide Cerveny, Rosa Macedo e Divina

A psicogerontologia é uma área relativamente nova entre os psicólogos e há muito a crescer. Para isto, é necessário conquistar mais interessados em pesquisar sobre a velhice, o envelhecimento e seus impactos psicológicos e sociais, uma vez que a longevidade é crescente em nosso país, fruto das conquistas sociais e da melhoria da qualidade de vida entre os brasileiros. O número de famílias com várias gerações dividindo o mesmo teto, coisa não muito comum anos atrás tem sido cada vez maior. Neste congresso conhecemos um grande número de profissionais da psicologia preocupados com essa temática e que vem elaborando diferentes pesquisas em várias cidades do Brasil. Destacamos alguns destes estudos a seguir, os quais tiveram seu registro fotográfico:  da esquerda para a direita, Divina de Fátima dos Santos, Denise Maciel Lobão, Cristina Maria de Souza Brito Dias e Natália Ramos.

A Dra. Denise Maciel Lobão apresentou um estudo intitulado “aprendizagem intergeracional entre idosos e acadêmicos”, no qual relatou sobre o grande entusiasmo de estudantes de psicologia ao trabalharem com idosos e sobre a superação de preconceitos de parte a parte, uma vez que, segundo ela, no início, os jovens universitários tinham resistência e receio em trabalhar com esse público; no entanto com essa iniciativa, estudantes e idosos cresceram juntos e até passaram a fazer novos projetos de integração social. A Dra. Denise é professora de psicologia do desenvolvimento na Universidade Federal do Rio Grande (RS). Ela pesquisa e orienta seus alunos na temática do envelhecimento.

O mesmo ocorreu com a Professora da Universidade Católica de Pernambuco, Dra. Cristina Maria de Souza Brito Dias, que apresentou duas pesquisas desenvolvidas por seus alunos. Na primeira, intitulada “Saúde e qualidade de vida: concepção do idoso mais velho”, os estudantes entrevistaram pessoas acima dos 80 anos com o objetivo de verificar como estes compreendiam o próprio conceito de velhice e como avaliavam sua saúde. A segunda, intitulada “Apoio social e saúde na perspectiva do indivíduo idoso”, foi realizada por meio da análise de como os idosos se apoiam e se veem amparados socialmente; neste caso a pesquisadora apontou que as redes de apoio mais citadas foram as amizades, os familiares e os amigos, que são os grandes fatores responsáveis para um bom envelhecer. A Dra. Cristina apresentou ainda um estudo de sua autoria, sobre uma proposta de intervenção psicoeducativa com avós que criam seus netos e a relação de ansiedade e depressão entre eles, apontando pontos positivos e negativos desta relação.

A Professora Micheli C. Favaretto da Universidade de Cuiabá (MT), apresentou um estudo desenvolvido por seus alunos no CRAS – Boa Esperança de Cuiabá cujo objetivo foi trabalhar a auto estima de um grupo da terceira idade com diferentes atividades; ela relatou sobre a significativa melhora psicológica e de qualidade da saúde de seus frequentadores idosos e do quanto os alunos vem se motivando em trabalhar com este seguimento da população.

Já a doutoranda em psicologia da Pontifícia Universidade de São Paulo, Divina de Fátima dos Santos (foto), apresentou uma pesquisa realizada com idosos acima dos 70 anos, em diferentes cidades do Estado de São Paulo, na qual investigou sobre a imagem social e a identidade na velhice na atualidade. O título foi “Essa imagem refletida no espelho não é minha”. Essa pesquisa comporá um livro (Manual da Longevidade) em fase de elaboração e coordenado pela pesquisadora e professora da PUC-SP Dra. Ceneide Cerveny que contará com vários colaboradores e pesquisadores que abordarão a temática do envelhecimento humano.

A pesquisadora portuguesa Dra. Natália Ramos, da Universidade Aberta de Lisboa, apresentou um importante estudo intitulado “Relações intergeracionais e envelhecimento: solidariedade e desafios contemporâneos”. Ela, e seus colegas pesquisadores portugueses, escreveram um livro intitulado “A voz dos Avós: Migração, Memória e Patrimônio Cultural” (Cidade de Coimbra, 2012) e, muito gentilmente, convidou pesquisadores brasileiros participar do próximo encontro que ocorrerá em Portugal sobre a temática “A voz dos avós”.  Com esse mesma tema, tivemos a apresentação do trabalho intitulado “As avós entre o real e o ideal, na perspectiva transgeracional” que foi apresentado pelos pesquisadores Prof. Paulo Almeida da Universidade Estadual do Ceará, Profa. Julia Bucher-Maluschke da PUC de Brasília e Profa. Juliana Araújo da Universidade de Fortaleza (CE).

Em um congresso com tantos temas igualmente interessantes e pesquisadores de diferentes lugares, foi bem gratificante conhecer um pouco do que vem sendo estudado por nossos colegas e nos alegra saber que é crescente o número de estudantes que estão se interessando pelas questões do envelhecimento, até porque, trata-se de uma importante fase da vida a qual devemos garantir um lugar de destaque não apenas na sociedade como nos meios acadêmicos. Portanto, muitas outras pesquisas necessitam ser realizadas nesta área, por se tratar de uma fase da vida de grande relevância para a psicologia contemporânea.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

III Encontro de Gerações – Caraguatatuba

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

III Encontro de Gerações - Caraguatatuba

Os participantes trocaram cartas ao longo do ano de 2012 e no final do período letivo tivemos o encontro entre seus membros. Esse dia foi muito esperado por ambos, pois foi o momento de conhecer pessoalmente seu correspondente após várias trocas mensais de cartas entre eles. 

No último dia 30 de novembro de 2012, ocorreu mais um encontro entre os idosos do CREMI – Centro de Referência da Melhor Idade e as crianças do ensino fundamental de escolas municipais da cidade de Caraguatatuba, situada no Litoral Norte de São Paulo. Eles participaram do projeto “Encontros de Gerações” que já está no seu terceiro ano de realização e que tem se tornado muito bem sucedido na região.

Os participantes deste projeto trocaram cartas ao longo do ano de 2012 e no final do período letivo tivemos o encontro entre seus membros. Esse dia foi muito esperado por ambos, pois foi o momento de conhecer pessoalmente seu correspondente após várias trocas mensais de cartas entre eles. Vale lembrar que esse trabalho conta com o apoio de muitas pessoas entre professores, estudantes e familiares tanto das crianças quanto dos idosos, além da Secretaria da Educação, da Secretaria da Pessoa com Deficiência e do Idoso e do Conselho do Idoso do município de Caraguatatuba-SP e, faz parte de uma pesquisa de Doutorado em Psicologia coordenado pela pesquisadora Divina de Fátima dos Santos na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP).

 

O dia do encontro foi cercado de muitas emoções de parte a parte. Também é crescente o desejo dos correspondentes de continuarem participando do projeto e assim ganharem novos amigos por meio da escrita de cartas. Notamos que essa troca de correspondência vem fortalecendo os laços não apenas entre os interlocutores, mas também entre seus familiares que sistematicamente solicitam a continuidade do trabalho entre estes dois segmentos da sociedade.

O número de interessados em participar do projeto vem aumentando a cada ano e, assim, pode-se dizer que o mesmo vem ganhando forças para tornar-se parte do projeto pedagógico das escolas envolvidas, o que já vem sendo estudado pelos seus gestores locais. Dessa forma podemos dizer que todos saíram ganhando com o processo, uma vez que ficou patente a grande alegria e satisfação dos participantes.

Com o aumento da longevidade humana e a crescente complexidade da vida moderna que muitas vezes dificultam o convívio pleno entre pessoas de diferentes idades, o estímulo de trabalhos que promovam o encontro de gerações vem ganhando força em diferentes partes do país e, no caso do projeto de troca de cartas que vem sendo realizado no município de Caraguatatuba, tem se mostrado muito eficiente para promover o encontro não apenas entre crianças e idosos, mas também entre seus idealizadores e os gestores locais.

A ideia é unir para ampliar o diálogo, a tolerância, o respeito e promover uma sociedade harmoniosa para todas as idades.

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Educação e Velhice

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Educação e Velhice

Este trabalho resultou da realização de um estudo sobre o conteúdo de cartas, utilizadas como forma de comunicação entre idosos e crianças, visando verificar a forma de interação vivenciada entre eles e a identificar os significados desta troca. Trata-se de uma pesquisa qualitativa baseada em entrevistas com idosos e nos dados coletados das cartas escritas por estudantes do curso da EJA (Educação de Jovens e Adultos) com idades variando entre 18 e 72 anos em fase de alfabetização e pelas crianças do ensino regular com idades entre 8 e 10 anos que frequentam uma das unidades da rede SESI-SP – Serviço Social da Indústria de São Paulo. A troca de cartas entre os estudantes ocorreu no período de 2008 e 2009. Foram selecionados 12 alunos como sujeitos da pesquisa, sendo seis idosos na condição de avós, com seus respectivos correspondentes, as seis crianças. Os assuntos abordados nas cartas deram abertura para inúmeras discussões. Os dados foram analisados e apresentados tendo como referência temas como: religiosidade, sonhos, as palavras certas, o mundo do trabalho e a aposentadoria, a alteridade, a comunicação pictográfica e por símbolos e a troca de olhares, todos igualmente envolventes, pois provocaram reflexões tanto por parte das crianças quanto por parte dos idosos. A análise dos dados, além de permitir a caracterização dos sujeitos envolvidos, aponta que a troca de cartas promove a interação dos estudantes e favorece o processo de mudança de atitudes e de construção de valores éticos importantes na vida escolar, familiar e social tanto dos idosos quanto das crianças participantes. As alterações ocorridas por meio dessas vivências podem propiciar ou facilitar um convívio mais saudável entre diferentes gerações no âmbito da escola e nos mais diferentes espaços sociais da vida cotidiana.

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Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica

Objeto de pesquisa de mestrado é destaque na coluna de Lucila Cano

Divina de fátima dos Santos

Doutora em Psicologia Clínica

Objeto de pesquisa de mestrado é destaque na coluna de Lucila Cano

A colunista abordou o tema do trabalho derivado da pesquisa de mestrado que fora produzido pela Doutora Divina. Reproduzimos a matéria abaixo.

Original:

https://educacao.uol.com.br/colunas/lucila-cano/2012/08/17/palavras-que-estimulam.htm

PALAVRAS QUE ESTIMULAM

Por Lucila Cano
17 de agosto de 2012

Crianças e idosos estão nos extremos da vida. São os mais necessitados de atenção, afeto e compreensão. São os mais vulneráveis ao cotidiano desrespeitoso dos tempos atuais.

Crianças e idosos são um desafio e uma oportunidade para reaprendermos a viver em harmonia. Eles são os protagonistas do projeto Encontro de Gerações, de Divina de Fátima dos Santos, psicóloga e mestre em Gerontologia pela PUC-SP.

O projeto se sustenta na troca de correspondências entre crianças e idosos e na mudança de atitudes e de construção de valores que decorrem dessa interação.

Realizado em Caraguatatuba (SP) ao longo de 2011, o Encontro de Gerações foi premiado na II Mostra Estadual de Práticas Inovadoras em Psicologia, promovida pelo Conselho Regional de Psicologia de São Paulo em dezembro passado.

Experiência e mais prêmios

A proposta de aproximar crianças e idosos surgiu quando Divina atuava na área de Educação de Jovens e Adultos (EJA) em escola do SESI-SP. Na época, ela já se dedicava ao estudo do envelhecimento. Sua pesquisa de mestrado na PUC-SP – “Relações Intergeracionais: palavras que estimulam” – se pautava pelo uso de cartas como forma de comunicação entre crianças e idosos.

A pesquisa foi conduzida por meio de entrevistas com idosos, conteúdos de cartas escritas por estudantes do curso de EJA em fase de alfabetização, com idades entre 18 anos e 72 anos, e crianças do ensino regular de uma das unidades do SESI-SP, na faixa dos 8 anos aos 10 anos.

Havia uma preocupação inicial de melhorar a leitura e a escrita dos alunos, mas alguns fatores contribuíram para ampliar o âmbito do trabalho. Além de aspectos emocionais, relacionados à sua vida pessoal, Divina queria saber por que tantos idosos das aulas de EJA queriam aprender a escrever. Ela também queria entender a forma de interação entre as crianças e os idosos, para poder identificar os significados dessa troca.

Alguns dos temas abordados foram religiosidade, sonhos, palavras certas, o mundo do trabalho e a aposentadoria, a comunicação pictográfica e por símbolos, a troca de olhares. Eles renderam discussões e reflexões. A troca de cartas beneficiou a interação, a mudança de atitudes e a construção de valores éticos para a vida escolar, familiar e social de ambas as partes, crianças e idosos.

Com essa pesquisa, que antecedeu o Encontro de Gerações, Divina obteve o seu diploma de mestrado e conquistou o primeiro lugar em dois eventos de Gerontologia, um no Chile e outro em São Paulo.

Próximos passos

Uma etapa significativa do Encontro de Gerações ocorreu em 2 de dezembro de 2011. Após quase um ano de troca de cartas, idosos e crianças se conheceram pessoalmente. De um lado, eram 54 frequentadores do Centro de Convivência da Melhor Idade (Cremi), onde Divina atua como voluntária, e de outro, 51 alunos da Escola Municipal Professora Aída A. C. Grazioli.

Segundo a pesquisadora, “a correspondência serve para que tanto idosos quanto crianças se expressem, falem de suas vidas, expectativas, dificuldades. Um aspecto positivo é o quanto os idosos se sentem valorizados, porque percebem que a sua experiência é significativa na relação com as crianças. Mães de crianças que participaram do projeto relataram melhoras no relacionamento familiar e até no processo pedagógico, porque muitas delas superaram dificuldades com a escrita”.

Para a tese de doutorado em Psicologia Clínica, também pela PUC-SP, Divina segue trabalhando no projeto, em Caraguatatuba. Além da Escola Aída A. C. Grazioli, conta com os alunos do 4º ano da Escola Municipal Prof. João Batista Gardelin. Ao todo, participam da troca de cartas 60 idosos e 60 crianças do ensino fundamental de ambas as escolas.

Nas palavras de sua idealizadora, “o Encontro de Gerações estimula o convívio respeitoso de parte a parte. Além das mudanças de comportamento no convívio social, familiar e escolar, essa interação favorece a prática de valores, como a tolerância e o respeito, entre pessoas de idades e classes sociais distintas”.

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* Homenagem a Engel Paschoal (7/11/1945 a 31/3/2010), jornalista e escritor, criador desta coluna.

 

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Lucila Cano é jornalista especializada em projetos editoriais, consultoria
empresarial e produção de textos sobre Responsabilidade Social e Ética (a coluna).

Psicóloga Divina

Doutora em Psicologia Clínica